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Violência anticristã, empatia e perdão

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Valery HACHE | AFP

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 01/11/20

A opção pela paz é uma consequência do mandamento do amor, mas também é o resultado de uma sabedoria histórica

Em menos de 15 dias, em dois países, templos católicos foram vítimas de violência. No Chile, os envolvidos tinham uma posição ateia militante, na França a violência foi praticada por supostos fanáticos religiosos… Contudo, nos dois casos existem certos pontos de convergência. Em ambos, a motivação dos agressores não dizia respeito à Igreja Católica. Nem as políticas econômicas chilenas atuais, nem as charges ridicularizando o Islão foram feitas por representantes da Igreja. Quando muito, pode-se supor que foram feitas por pessoas batizadas e em países de história católica – mas a Igreja não apoia políticas econômicas contrárias ao bem comum ou sátiras que ridicularizam outras religiões. Também, nos dois casos, grupos violentos se arvoram em representantes do sentimento de muitos que não compactuam com eles. Não se pode pensar que toda a multidão que participava dos protestos em Santiago apoiava os incêndios criminosos nas Igrejas. Várias associações muçulmanas também se posicionaram contra os atentados na França – alguns, sem dúvida, por medo de represálias, mas muitos por um sincero desejo de paz e respeito à vida humana.

Lepanto ou São Francisco?

Diante dos atentados muçulmanos na Europa, os cristãos podem lembrar de dois episódios prodigiosos. Um é a batalha naval de Lepanto (1571), com a qual foi bloqueado o avanço islâmico sobre o território das nações cristãs no Mediterrâneo. A preparação do combate foi marcada por jejuns e orações, particularmente voltadas a Nossa Senhora, e toda a armada cristã se confiou à proteção de Maria. O outro episódio é a viagem de São Francisco de Assis ao Oriente (1219), que culminou em seu encontro com o sultão Al-Kamil. O encontro não redundou nem em conversão dos muçulmanos, nem em fim das hostilidades entre a cristandade e o Islão, ainda que um tratado de paz fosse assinado 10 anos depois e até hoje os franciscanos são reconhecidos, por muçulmanos e cristãos, como responsáveis pelos locais de devoção no Oriente Médio, por meio da Custódia da Terra Santa.

Nenhum dos dois episódios pode ser esquecido pelos cristãos, em sua convivência com o Islão – que se torna muito mais intensa no mundo globalizado atual. Contudo, podemos nos perguntar: qual deles lança mais luzes para o presente e o futuro da humanidade? O belicismo das Cruzadas ou o pacifismo de São Francisco? Quem estudar história verá que a vitória bélica em Lepanto aconteceu com a unidade dos cristãos em torno da liderança do papa da época, São Pio V, e a resposta da Igreja, em nossos tempos, é inequívoca: o Papa lançou, a cerca de um mês, sua encíclica Fratelli tutti (FT), inspirada em grande parte no encontro entre São Francisco e o sultão.

Por que optamos pela paz?

Muitos acreditam que só a violência pode conter a violência, que as admoestações pela paz são um discurso de covardes, que tem medo de lutar, ou de enganadores, que usam a ingenuidade dos demais para oprimi-los. Mas a história mostra que as guerras sempre trouxeram sofrimento para os mais fracos, que a resposta violenta às agressões gera espirais de violência cada vez maiores e mais difíceis de parar.

Um dos maiores contratestemunhos dados pelos cristãos ao mundo foram as Guerras de Religião, na Europa dos séculos XVI e XVII, travadas entre católicos e protestantes.  Deixaram milhares de mortos, separaram ainda mais os cristãos, ainda que a unidade entre nós seja um desejo explícito de Jesus (Jo 17, 21). Grande parte da onda laicista e anticlerical que varreu a Europa moderna vem das mágoas e da descrença geradas por essas guerras. Esses conflitos, além disso, se deveram menos a questões religiosas do que a interesses políticos que instrumentalizaram as crenças da população para proveito próprio de alguns poucos.

A opção pela paz é uma consequência do mandamento do amor, mas também é o resultado de uma sabedoria histórica. A humanidade, à medida que o tempo passa, vai se dando conta que as guerras não trazem uma paz efetiva e duradoura. Como diz o Papa, na Fratelli tutti, vamos nos dando conta que o preço a ser pago é muito grande e que, mesmo levando em consideração que existe um justo direito à defesa, é cada vez mais difícil aceitar uma “guerra justa” (FT 258).

A guerra e a legítima defesa

Na França, que vem sofrendo ataques frequentes de terroristas islâmicos, apesar de ser um país relativamente aberto à imigração muçulmana, as autoridades políticas falam continuamente em uma guerra contra a “ideologia islâmica”. De fato, o país encontra-se numa situação que exige providências enérgicas para garantir a segurança de seus cidadãos.

Aqui, o termo “guerra” até pode ser empregado, desde que isso não se torne um pretexto para violações de direitos e criação de situações ainda mais inseguras e violentas. Além disso, deve-se ter claro que se existe uma guerra, ela é contra os terroristas islâmicos, não contra toda a população islâmica – que na grande maioria é inocente. Tampouco pode-se pensar numa nova “guerra religiosa” entre cristãos e muçulmanos, algo como uma nova cruzada. Mesmo que existam fortes componentes ideológicos presentes, esses fatores não podem ser usados para se repetir erros do passado.

A cultura do encontro

A defesa da segurança pública pode exigir medidas enérgicas e duras, mas a dimensão cultural do problema exige uma outra abordagem. Incentivar ressentimentos e antagonismo só vai servir para piorar os problemas. Aqueles que aprendem a agir com raiva continuarão a repetir comportamentos agressivos em outras situações. Os defensores das “guerras culturais” pretendem manter o inimigo externo afastado, mas acabam por interiorizar o ambiente de conflito que – em teoria – queriam eliminar.

Para enfrentar a violência a partir de seus fatores culturais, é necessário construir uma “cultura do encontro’, onde os diferentes se respeitem, descubram as riquezas que se escondem em suas diferenças e aprendam a se corrigir juntos, num clima de amizade fraterna e não numa competição por poder e hegemonia. Para isso, é necessário um percurso que começa pelo desejo de construir juntos uma sociedade melhor, onde todos possam ser mais felizes.  Nesse percurso, cada um vai aprendendo a respeitar o outro, a compreender o que magoa e o que deve ser perdoado em cada um, para se alcançar uma verdadeira reconciliação. As dores do passado podem ser uma fonte de eterna discórdia ou uma razão de maior união. Podemos estar juntos porque superamos o passado e cada um se torna, para o outro, sinal de um amor maior do que a dor e a injustiça.

O Papa apresenta, na Fratelli tutti (Capítulos VI e VII) esse caminho de perdão e reconciliação, que constrói a cultura do encontro.

O que fazer?

A sociedade ocidental tem que aprender a respeitar a sensibilidade das pessoas religiosas. Entendemos que é inaceitável fazer piadas com minorias e pessoas fragilizadas, mas a violência simbólica contra a fé parece ser totalmente aceitável. Trata-se de uma sensibilidade seletiva, que elege a quem acolher e a quem não acolher. Mas essa seletividade, mais cedo ou mais tarde, gera novas discriminações, inimizade social e conflitos.

Os governos, respeitando a dignidade pessoal de cada um, não devem medir esforços para garantir a segurança de seus cidadãos.

Cada um de nós deve procurar dar sua contribuição para essa “cultura do encontro”, procurando sempre dar o primeiro passo num caminho de reconhecimento, empatia e perdão ao outro. Não podemos almejar a paz se esperamos que o outro dê o primeiro passo. No Brasil, não sofremos com o terrorismo islâmico, mas cada um de nós tem seu “primeiro passo” a dar no caminho da reconciliação e do encontro com o outro.


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