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A riqueza é um bem quando ajuda os outros

© Sabrina Fusco / ALETEIA

Aleteia Vaticano - publicado em 05/11/20

O papa prefacia o livro do cardeal Müller sobre a pobreza e a missão da Igreja

Quem de nós não se sente desconfortável até mesmo com a palavra “pobreza”? Há muitas formas de pobreza: física, econômica, espiritual, social, moral. O mundo ocidental identifica a pobreza principalmente com a falta de poder econômico e enfatiza negativamente essa condição. Seus governos, aliás, se baseiam essencialmente no enorme poder que o dinheiro tem hoje, um poder aparentemente superior a qualquer outro. É por isso que a falta de poder econômico significa irrelevância política, social e até mesmo humana. Quem não tem dinheiro só é levado em conta na medida em que pode servir a outros fins. Há muitas pobrezas, mas é a pobreza econômica que é vista com mais horror. Esta é uma grande verdade. O dinheiro é um instrumento que, de alguma forma, assim como a propriedade, prolonga e aumenta as capacidades da liberdade humana, permitindo-lhe operar no mundo, agir, dar frutos. Em si mesmo, é um instrumento bom, como quase todas as coisas de que o homem dispõe: é um meio que expande as nossas possibilidades. No entanto, esse meio pode se voltar contra o homem. O dinheiro e o poder econômico podem ser um meio que afasta o homem do homem, confinando-o num horizonte egocêntrico e egoísta.

A própria palavra aramaica que Jesus usa no Evangelho, “mammom”, ou seja, tesouro escondido (cf. Mt 6,24; Lc 16,13), é significativa: quando o poder econômico é um instrumento que produz tesouros que guardamos apenas para nós mesmos, escondendo-os dos outros, ele produz iniquidade, perde o seu originário valor positivo. A palavra grega usada por São Paulo em sua Carta aos Filipenses (cf. Fl 2, 6), “arpagmos”, também remete a um bem que se mantém zelosamente só para si, ou mesmo o fruto do que se roubou de outros. Isso acontece quando os bens são usados ​​por homens que conhecem a solidariedade apenas para o círculo, pequeno ou grande, dos próprios conhecidos, ou quando se trata de recebê-la, mas não de oferecê-la. Isso acontece quando um homem, tendo perdido a esperança no horizonte transcendente, perdeu também o gosto da gratuidade, o gosto de fazer o bem pela simples beleza de fazer o bem (cf. Lc 6, 33).

Já quando o homem é educado para reconhecer a fundamental solidariedade que o liga a todos os outros homens, e disso quem nos lembra é a Doutrina Social da Igreja, então ele bem sabe que não pode guardar para si os bens de que dispõe. Quando vive habitualmente na solidariedade, o homem sabe que o que nega aos outros e retém para si mesmo se voltará mais cedo ou mais tarde contra ele próprio. No fundo, Jesus alude a isto no Evangelho quando acena à ferrugem e à traça que arruínam as riquezas acumuladas de maneira egoísta (cf. Mt 6, 19-20; Lc 12, 33).

Quando, porém, os bens de que se dispõe são utilizados não apenas para satisfazer as próprias necessidades, eles se multiplicam e se espalham, dando muitas vezes um fruto inesperado. Há uma ligação original entre o lucro e a solidariedade, uma circularidade entre ganho e dom, que o pecado tende a romper e ofuscar. É tarefa dos cristãos redescobrir, viver e anunciar a todos esta valiosa e original unidade entre lucro e solidariedade. Como o mundo de hoje precisa redescobrir esta bela verdade! Quanto mais o mundo concordar em acertar as contas com este fato, mais diminuirão as pobrezas econômicas que tanto o afligem.

Mas não podemos nos esquecer de que não existem apenas as pobrezas relacionadas com a economia. É Jesus mesmo quem nos lembra, advertindo-nos, de que a nossa vida não depende apenas “dos nossos bens” (cf. Lc 12, 15). Originalmente, o homem é pobre, necessitado e indigente. Quando nascemos, precisamos, para viver, dos cuidados dos nossos pais, e, assim, em cada época e fase da vida, cada um de nós nunca será capaz de prescindir completamente da necessidade e da ajuda dos outros, nunca será capaz de se livrar do limite da impotência diante de alguém ou de alguma coisa. Esta também é uma condição que caracteriza o nosso “ser criaturas”: não fomos feitos por nós mesmos e, sozinhos, não podemos nos proporcionar tudo aquilo de que precisamos. O leal reconhecimento desta verdade nos convida a permanecer humildes e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável ao próprio viver.

Em todo caso, dependemos de alguém ou de algo. Podemos viver esta realidade como uma fraqueza da vida ou como uma possibilidade, como um recurso para lidarmos com um mundo em que ninguém pode prescindir do outro, em que todos somos úteis e valiosos para todos, cada um à sua maneira. Não há como descobrir isto sem adotar uma práxis responsável e responsabilizadora, em vista de um bem que é, então, de verdade, indissociavelmente pessoal e comum. É evidente que essa práxis só pode surgir de uma nova mentalidade, da conversão a uma nova maneira de olharmos uns para os outros! Só quando o homem se concebe não como um mundo fechado em si mesmo, e sim como alguém que, pela sua natureza, está ligado a todos os outros, percebidos originariamente como “irmãos”, é que é possível uma práxis social em que o bem comum não é mera palavra vazia e abstrata!

Quando o homem se concebe e se educa para viver assim, a originária pobreza criatural não é mais vista como uma desvantagem, e sim como um recurso em que aquilo que enriquece cada um e é doado livremente se torna um bem e um dom para o benefício de todos. Esta é a luz positiva com que o Evangelho nos convida a olharmos para a pobreza. É esta luz que nos ajuda a entender por que Jesus transforma esta condição em uma autêntica “bem-aventurança”: “Bem-aventurados vós, os pobres!” (Lc 6, 20).

Mesmo fazendo tudo isso que está em nosso poder e evitando todas as formas de irresponsabilidade para com as nossas próprias fraquezas, não tenhamos medo de nos reconhecer necessitados e incapazes de nos dar tudo aquilo de que precisamos, pois, sozinhos e apenas com as nossas forças, não podemos superar todos os limites. Não tenhamos medo desse reconhecimento, porque Deus mesmo, em Jesus, se curvou (cf. Fil 2, 8) e se curva sobre nós e sobre a nossa pobreza, para nos ajudar e nos dar os bens que por nós mesmos nunca poderíamos ter.

É por isso que Jesus elogia os “pobres em espírito” (Mt 5, 3), ou seja, aqueles que olham assim para as suas necessidades e, necessitados que são, se confiam a Deus, sem medo de depender dele (cf. Mt 6, 26). De Deus podemos obter aquele Bem que nenhum limite pode obstaculizar, porque Ele é mais poderoso que qualquer limite e nos deu mostra disso ao vencer a morte! Deus, sendo rico, se fez pobre (cf. 2 Cor 8, 9) para nos enriquecer com os seus dons! Ele nos ama; cada fibra do nosso ser lhe importa; aos seus olhos, cada um de nós é único e tem um valor imenso: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados… Vós valeis mais do que muitos pardais” (Lc 12 ,7).

Tags:
DinheiroDoutrina Social da IgrejaEconomiaPobrezaPolítica
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