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Moçambique: “situação está catastrófica”, diz missionário

MOZAMBIQUE;CABO DELGADO

Aid to the Church in Need

Fundação AIS - publicado em 15/11/20

Os relatos que o Padre Edegard Júnior, missionário saletino de 60 anos de idade, tem conseguido recolher nos últimos dias são assustadores

A missão da congregação de La Salette, em Muidumbe, foi atacada no passado dia 30 de Outubro por grupos armados. Os relatos que o Padre Edegard Júnior, missionário saletino de 60 anos de idade, tem conseguido recolher nos últimos dias são assustadores. “Há muitas mortes, pessoas decapitadas, pessoas raptadas.”

O Padre Edegard, brasileiro, está em Pemba. Neste momento, explicou à Fundação AIS, “todos os missionários da região norte já estão fora da missão desde Março ou Abril”. É na cidade de Pemba, onde se encontram quase todos, que chegam as notícias. “A aldeia onde nós moramos chama-se Muambula e foi atacada no dia 30 de Outubro. Os insurgentes continuam lá, já passa de dez dias, eles dominam essa região e estão a queimar muitas casas, há muita gente assassinada…”

Violência

A destruição é imensa. A aldeia já tinha sido palco de violência por parte destes grupos terroristas em 7 de Abril. Agora, terá sido bem pior. Segundo relatos que vão chegando das pessoas em fuga, “toda a infraestrutura da missão está danificada”, afirma o sacerdote brasileiro. “A nossa casa, a casa das irmãs, a própria igreja, que já tinha sido atacada em Abril, e a nossa rádio comunitária que fica no fundo da Igreja, toda essa infraestrutura foi danificada com os ataques.”

O missionário saletino fala num “sofrimento que dura já há três anos”. Toda a zona de Cabo Delgado está praticamente afetada. O cenário, diz, é desolador. “Nas aldeias não tem mais ninguém. Todos têm medo e eles [os terroristas, que reivindicam pertencer ao Daesh, o Estado Islâmico] estão muito violentos nestes ataques. Então, as pessoas estão ou no mato ou já conseguiram chegar a alguma cidade. Há muitas mortes, pessoas decapitadas, pessoas raptadas…”

A única excepção a norte é a cidade de Mueda onde o exército moçambicano tem um aquartelamento. “Todas as outras [povoações] estão totalmente abandonadas. A ajuda humanitária não dá conta [não consegue atender todos os pedidos] de lonas, barracas, remédios, alimentação. A situação está a ficar catastrófica”, sintetiza o padre brasileiro.

Massacre

Nos últimos dias surgiu a notícia de um massacre de 50 pessoas que terão sido decapitadas. O Padre Edegard não consegue ainda confirmar essa informação.

A Irmã Blanca Nubia Zapata faz um relato semelhante de violência, morte e pessoas em fuga. Em declarações para a sede internacional da Fundação AIS na Alemanha, esta religiosa, que pertence à Congregação das Carmelitas Teresas de São José, fala em pessoas em situação desesperada que chegam todos os dias à cidade de Pemba. “Nas últimas duas semanas, chegaram aqui mais de 12 mil pessoas”, explica a religiosa. “Não aguentamos. Estão a chegar mulheres e crianças, e pessoas mais velhas que andam há dias. Alguns morreram no caminho, nas estradas e nos trilhos florestais.”

A Irmã Blanca faz questão de explicar que “não [se] pode imaginar como são as nossas ‘estradas’… é terrivelmente difícil andar por estes trilhos, e através do campo, três ou quatro dias a fio sem comida, sem água, carregando nas costas os filhos… Há mulheres que deram à luz na estrada…”

Fuga

Relatos que se sucedem sempre com o mesmo denominador: violência, terror, morte e pessoas assustadas e em fuga. O relato da irmã carmelita traduz toda a impotência da Igreja face à dimensão desta tragédia humanitária. “Estamos a fazer tudo o que podemos. Muitas vezes não podemos fazer mais do que ouvir, perguntar como se sentem e ouvi-las. Deixaram tudo para trás, na esperança de escapar com as suas vidas. Tudo o que querem fazer é fugir de lá… estão simplesmente aterrorizados.”

O Padre Kwiriwi Fonseca, um dos responsáveis da comunicação da Diocese de Pemba, diz à Fundação AIS que “esta situação é difícil de explicar”.

No princípio, quando os ataques começaram, ou mesmo no início deste ano, registava-se uma ausência de capacidade de resposta das autoridades. O próprio Bispo de Pemba o afirmou em Janeiro à Fundação AIS. Mas agora, faz questão de notar o Padre Fonseca, “existe um grande envolvimento das forças de segurança”.

Mas, mesmo assim, os ataques continuam e os grupos terroristas aparentam manter a sua capacidade operacional mesmo depois de terem sido veiculadas notícias pelo exército de que dezenas de insurgentes teriam sido eliminados. “É difícil entender”, diz o responsável de comunicação da diocese ao telefone com a AIS em Lisboa. “Estamos inquietos… onde eles acham tanta força?”

Desde que os ataques tiveram início, em Outubro de 2017 até hoje, calcula-se que terão já morrido mais de duas mil pessoas e haverá, segundo a estimativa do Padre Edegard, cerca de “400 mil deslocados internos”.

Há cerca de uma semana, o Bispo de Pemba, D. Luiz Lisboa, acompanhou uma ação da Caritas na praia de Paquitequete, um subúrbio da cidade. A praia passou a ser ancoradouro dos barcos que transportam os deslocados. Em poucos dias, chegaram mais de 10 mil pessoas.

Apelo à comunidade internacional

Muitos destes deslocados tiveram de ficar na própria praia, tiveram de passar a dormir ao relento pois não há forma de acomodar tantas pessoas em tão curto espaço de tempo. O Bispo pede ajuda e usa palavras fortes. “Esta é uma situação humanitária desesperada, para a qual pedimos, de fato, mendigamos, a ajuda e a solidariedade da comunidade internacional”, disse o bispo num vídeo da Caritas enviado para a Fundação AIS.

Perante este cenário de horror, a Fundação AIS decidiu apoiar as dioceses envolvidas no acolhimento aos deslocados com uma ajuda de emergência no valor de 100 mil euros.

É uma ajuda que, como explica Regina Lynch, chefe de Departamento de Projectos da Fundação AIS a nível internacional, “procura aliviar o sofrimento e trauma” destas populações que têm sido vítimas da violência mais brutal. Regina recorda o rasto de destruição e medo causado pelos terroristas desde Outubro de 2017 quando começaram os ataques.

E lembra a quase total indiferença com que a comunidade internacional tem lidado com esta situação. “Queimaram igrejas e destruíram conventos, e também raptaram duas irmãs religiosas. Mas quase ninguém prestou atenção a este novo foco de terror e violência jihadista em África, o qual está a afectar todos, tanto Cristãos como Muçulmanos. Esperemos que haja finalmente uma resposta a esta crise no norte de Moçambique, em nome dos mais pobres e mais abandonados.”


Macomia, Moçambique

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(Fundação AIS)

Tags:
PerseguiçãoViolência
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