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O que pensar sobre “O grande alerta”, da vidente Maria Divine Mercy?

tympan cathédrale de chartres

© Julian Kumar /GODONG

Luis Santamaría - publicado em 28/11/20

As supostas revelações privadas recebidas pela mulher que diz ser vidente não têm o apoio da Igreja e contêm erros teológicos

Há alguns anos, difundiram-se pelo mundo inteiro as supostas revelações privadas recebidas por uma pessoa conhecida como Maria Divine Mercy (MDM).

Entre tais revelações, as mais famosas se encontram no livro “O grande alerta”, cuja autora usa o pseudônimo Maria Divine Mercy. Ela se apresenta como “profetisa e visionária católica romana europeia, por enquanto oculta”, e garante que as mais de 650 mensagens que publicou foram reveladas “pela Santíssima Trindade e pela Mãe de Deus” desde novembro de 2010.

Quanto ao conteúdo das mensagens, ele poderia ser resumido assim: estamos às vésperas da segunda vinda de Cristo e muitos acontecimentos mundiais estão por vir; é preciso converter-se e orar. As obras da autora são “Livro da Verdade”, “O grande alerta” e “O selo do Deus vivo”.

Vários autores, entre eles teólogos, mostravam as barbaridades e erros doutrinais nas centenas de mensagens supostamente recebidas do céu por MDM.

Junto a conteúdos pertencentes à fé e à doutrina cristã, perfeitamente aceitáveis para qualquer crente, nas mensagens supostamente divinas aparecem erros relevantes. Além disso, MDM, em sua globalidade, apresenta alguns acréscimos importantes à revelação divina. Como recordou Bento XVI, na exortação “Verbum Domini“, uma revelação privada “manifesta-se como credível precisamente porque orienta para a única revelação pública” (n. 14)

O apologista católico Jimmy Akin detalhou alguns elementos que levam a rejeitar as mensagens de MDM: além do caráter anônimo da vidente, destaca-se sua pretensão de ser “o sétimo anjo” do Apocalipse e a profetisa do fim dos tempos. Os julgamentos de MDM sobre os papas Bento XVI e Francisco são muito significativos: do primeiro, diz que é o último pontífice, que guiará a Igreja nos últimos dias, será obrigado a sair da Santa Sé e será objeto de uma conspiração para assassiná-lo; já o Papa Francisco seria um antipapa, chamado também de “falso profeta”.

Quanto à leitura dos sinais dos tempos, observamos nas mensagens que já nos encontramos no período da grande tribulação, que o anticristo chegará (junto a Francisco, ele criará uma religião mundial), que em breve se dará o “grande alerta” (um ato da misericórdia de Deus), que logo depois Cristo voltará e virão os mil anos de paz e desterro do Diabo (um milenarismo rejeitado pela Igreja – cf. Catecismo da Igreja Católica, 676). Além disso, as profecias de MDM estão ligadas a datas concretas, o que vai aumentando uma lista de anúncios falidos.

A Igreja Católica tem uma normativa e critérios para discernir a verdade ou não das revelações privadas, e as de MDM não respondem a tais critérios, nem minimamente.

Em 1978, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou, com a aprovação expressa de Paulo VI, as “Normas para proceder no discernimento de presumíveis aparições e revelações“. Na brevidade do texto, encontramos os critérios fundamentais para avaliar estas revelações privadas e que são, basicamente, a plena comunhão com a Igreja e os bons frutos.

Quais são estes critérios?

O primeiro é “a certeza moral, ou pelo menos grande probabilidade da existência do fato, adquirida por meio de uma investigação séria”. No caso de MDM, isso não pode ser comprovado, já que se trataria de uma experiência individual de visões ou locuções, sem possibilidade de contar com testemunhas externas.

Depois, o documento fala de várias circunstâncias particulares, começando pelas “qualidades pessoais do sujeito ou dos sujeitos (em particular, o equilíbrio psíquico, a honestidade e a retidão da vida moral, a sinceridade e a docilidade habitual para com a autoridade eclesiástica, a predisposição para retomar um regime normal de vida de fé etc.)”. Isso tampouco pode ser aplicado a este caso, porque ninguém sabe quem é a vidente nem como é a sua vida, e muito menos sobre sua obediência ou não aos pastores da Igreja, no caso de alguma medida pública de correção.

Quanto ao conteúdo da revelação, pede-se “doutrina teológica e espiritual verdadeira e isenta de erro”, algo que não se cumpre no dito por MDM, como mostraram diversos autores.

Outro critério positivo é a “devoção sadia e frutos espirituais abundantes e constantes  (por exemplo, espírito de oração, conversões, testemunhos de caridade, etc.)”. Alguns defensores da suposta vidente afirmam que houve conversões, mas é impossível comprovar isso; ao contrário, parece haver um distanciamento da Igreja e dos seus pastores, sob a capa de uma obediência “direta” e sem intermediários a Deus, a Jesus Cristo e a Nossa Senhora, em uma espécie de individualismo e desinstitucionalização radicais.

Junto a estes critérios, a Congregação para a Doutrina da Fé indica outros de caráter negativo, que é preciso levar em consideração: o erro do fato, os erros doutrinais, os fins lucrativos, os atos imorais e a presença de doenças psíquicas, elementos certamente difíceis de avaliar neste caso, dado o caráter obscuro e desconhecido das revelações e da própria vidente.

Além de tudo isso, vários bispos, de diversos países, se pronunciaram publicamente sobre as revelações de MDM, proibindo sua difusão em suas respectivas dioceses; e até hoje não se conhece nenhuma declaração oficial favorável à vidente.

Referências

Congregação para a Doutrina da Fé, “Normas para proceder no discernimento de presumíveis aparições e revelações“.
Jimmy Akin, “9 things you need to know about ‘Maria Divine Mercy’”, National Catholic Register.
Joseph Ratzinger, “A mensagem de Fátima“.
Luis Santamaría, “Sobre las profecías de la vidente Maria Divine Mercy”,InfoCatólica.
Mark Miravalle, “A closer look at the false prophecies of Maria Divine Mercy”,New Advent.

Tags:
Igreja
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