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Suicídios no Japão superam em 1 mês o total de mortes por covid-19 em 10 meses

Suicídio

By leolintang | Shutterstock

Francisco Vêneto - publicado em 01/12/20

Analistas, porém, consideram que existe um vínculo entre a pandemia e o aumento dos suicídios: a crise mundial de saúde mental

Japão teve mais suicídios em 1 mês do que mortes por covid-19 em 10 meses: dados do governo registraram 2.153 suicídios no país somente em outubro, enquanto o acumulado de mortes por covid-19 ao longo de todo o ano, até esse mesmo mês, totalizou 2.087.

No entanto, alguns analistas consideram que existe um vínculo entre a pandemia e o crescimento dos suicídios, por causa da crise de saúde mental intensificada pela situação mundial. O panorama de ansiedade, insegurança, isolamento e desemprego em massa é visto como um potencializador do desespero que pode levar ao extremo de acabar com a própria vida.

Michiko Ueda, professora da Universidade Waseda, de Tóquio, é especialista em suicídios. Em declarações à rede CNN, ela observou:

“Nós [no Japão] nem tivemos lockdown e o impacto da covid-19 é mínimo em comparação com outros países. Mesmo assim, temos esse grande aumento no número de suicídios. Isto sugere que outros países podem viver um aumento semelhante ou até maior no número de suicídios no futuro”.

Suicídios no Japão

De fato, o número de suicídios no Japão vinha diminuindo ao longo dos últimos 10 anos, mas a tendência se inverteu durante a pandemia. Os suicídios, além disso, passaram a ser cometidos desproporcionalmente pelas mulheres: elas ainda representam uma porção menor do total de suicídios no país, mas, em outubro de 2020, enquanto os suicídios de homens aumentaram cerca de 22% em relação ao mesmo mês de 2019, os de mulheres cresceram quase 83%.

Os motivos são variados, envolvendo desde dificuldades financeiras, sobrecarga de trabalho e forte pressão acadêmica até o isolamento social e o próprio tabu cultural no tocante aos problemas de saúde mental: existe entre os japoneses certa “vergonha” generalizada de falar sobre depressão e distúrbios emocionais pessoais, o que atrasa bastante a busca por ajuda e leva muita gente a guardar as suas dificuldades quase como um segredo, acumulando-as até explodirem de alguma forma.

O resultado é que o Japão, há muito tempo, mantém um dos maiores índices de suicídios do mundo.

O pico foi em 2003, com 34 mil casos, muitos deles ligados à longa crise financeira da década de 1990. Analistas consideram que a vergonha e a ansiedade causadas pelas demissões, que na época afetavam principalmente os homens, tiveram papel crucial no amplo quadro social de depressão e aumento dos suicídios. O governo japonês passou a investir bastante na prevenção, mas o problema é profundo: a solução exige que a sociedade japonesa mude de mentalidade e aprenda a encarar sem tabus a realidade da depressão, da ansiedade e da necessidade de ajuda para tratá-las.

A iniciativa de ouvir as pessoas

Em março deste ano, já durante a pandemia, o estudante universitário Koki Ozora, de 21 anos, criou uma central de atendimento telefônico 24 horas voltada a pessoas com problemas de saúde mental. A iniciativa se chama “Anata no Ibasho” (“Um lugar para você”): é uma organização sem fins lucrativos, financiada por doações privadas, que recebe em média 200 ligações por dia – a maioria, de mulheres.

Uma grande parte das ligações acontece entre as 22h e as 4h da manhã. Quem as atende são os 600 voluntários que doam tempo para a organização sem fins lucrativos. Entretanto, os voluntários não são suficientes para acompanhar o volume de mensagens de texto que também são enviadas diariamente, muitas delas com palavras-chave sintomáticas, como “abuso sexual” e “violência”, além do próprio termo “suicídio”.

Koki Ozora contou à CNN que boa parte dessas mensagens são de mães estressadas com as crianças, algumas chegando a confessar, desesperadas, que já pensaram em matar os próprios filhos. Além dos desequilíbrios familiares, elas relatam a perda do emprego e a violência doméstica como estopins para os pensamentos suicidas. O jovem comenta:

“Recebemos mensagens como ‘estou sendo estuprada pelo meu pai’ ou ‘meu marido tentou me matar’. As mulheres enviam esse tipo de texto quase todos os dias. E está aumentando”.

O Japão também apresenta estatísticas preocupantes de suicídio ou pensamentos suicidas entre jovens e adolescentes. As pressões já começam na infância, com rotinas familiares estressantes e sobrecarga de tarefas escolares que pioraram na pandemia. Com menos possibilidades de encontrar os amigos, o panorama se deteriora ainda mais. Além disso, especialistas apontam uma forte correlação entre a ansiedade das crianças e a dos próprios pais.




Leia também:
Japão, 30 mil suicídios por ano: riqueza, tecnologia, mas… vazio na alma

Tags:
covid-19DepressãoSaúdeSuicídio
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