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A vacina e o presente dos Reis Magos

CRECHE DE NOEL

© Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 13/12/20

O grande presente deste final de ano, como dos anos que o antecederam e dos anos que se seguirão, é o Cristo que veio ao nosso encontro

Charges mostrando os Reis Magos trazendo vacinas contra a COVID-19, como presentes ao menino Jesus, têm circulado abundantemente pelas redes sociais. É uma brincadeira inocente, até engraçadinha quando bem feita. Contudo, pode nos ajudar a refletir sobre a expectativa que criamos em torno da vacina contra o coronavírus. Para alguns, parece obvio vacinar-se, para outros, é justamente o contrário. Frequentemente ela é colocada como a condição necessária para que a vida “volte ao normal”. “Nos encontramos presencialmente quando tiver a vacina”, “as aulas só poderão voltar quando tivermos a vacina” e outras frases semelhantes saem de nossas bocas quase de modo inconsciente. Mas a realidade, como sempre, é bem mais complexas do que juízos fáceis sugerem.

A confiança na ciência

O conhecimento científico não é dogma de fé. Um dos princípios do método científico estipula que nunca teremos certeza de que uma teoria está certa, pois sempre poderá aparecer, no futuro, uma nova situação na qual ela não funciona. Só podemos ter certeza das teorias que não funcionaram, pois essas estão certamente erradas, ao menos em parte.

Sendo assim, a criação de um novo medicamente é sempre cercada por grandes baterias de testes laboratoriais, clínicos e populacionais, para minimizar o risco do produto fazer mais mal do que bem aos doentes. Esses experimentos reduzem, ao máximo possível, o risco de um efeito indesejado, mas nunca poderão garantir que esses efeito não aconteçam. Apesar desses cuidados, estamos acostumados a ver, nas bulas de remédios, listas enormes de contraindicações e efeitos adversos, sem falar nas ocasiões em que ficamos sabendo que se descobriu que um medicamento muito comum traz um efeito adverso grave e está sendo proibido pelas agências de controle…  Em função de casos como esses, os procedimentos experimentais são cada vez mais exigentes e os riscos se tornam cada vez menores. Mas o bom cientista tem que reconhecer que minimizar é diferente de eliminar totalmente os riscos.

Por outro lado, na década de 1900, no Rio de Janeiro, houve a Revolta da Vacina. Boa parte da população não queria vacinar-se contra a varíola. Os argumentos contra a vacinação obrigatória eram semelhantes a esses levantados agora: não sabemos o risco de inocular uma substância pouco conhecida no corpo de todas as pessoas. Pois bem, estima-se que, ao longo do século XX, a varíola tenha matado entre 300 e 500 milhões de pessoas. Contudo, graças ao combate criterioso e ao uso compulsório da vacina, nenhuma pessoa morreu de varíola depois de 1978. Quantos milhões de vidas a mais não teriam sido sacrificadas se os que se insurgiram contra a vacina tivessem vencido o debate público?

A confiança na ciência não é uma aposta cega, não é que temos de arriscar na eficácia da vacina e torcer irracionalmente para que não apareçam efeitos adversos. É uma questão de desenvolvimento de metodologias de testagem que nos dão cada vez mais segurança nos resultados da ciência. As atuais vacinas em teste passaram por vários experimentos, os últimos dos quais atingindo centenas de pessoas, em vários países. Várias equipes de especialistas, de diferentes instituições, acompanham todas as etapas do processo, a chamado “revisão por pares”, isso é, cientistas de igual competência, mas sem vínculos de interesse com os pesquisadores, também revisam as analisam, para certificar-se que os resultados divulgados são mesmo confiáveis. Um efeito adverso e inesperado é cada vez menos provável. Além disso, a administração da vacina sempre deve acontecer com um acompanhamento preventivo 

Onde depositamos nossa confiança?

Mesmo que a comunidade científica nos brinde, nesse final de ano, com uma ou mais vacinas eficazes contra a COVID-19, a ameaça da pandemia não estará ainda superada. Serão necessários muitos meses para a produção e administração das doses recomendadas para a maioria da população, de modo que tenhamos um mínimo de confiança na famosa “imunização de rebanho”, isso é, aquele ponto em que a população pode se sentir razoavelmente segura diante da disseminação do vírus. Por todo esse tempo, teremos de continuar com os procedimentos de segurança.

Além disso, sem querer parecer trágico, mas apenas sendo realista, as pessoas não morrem apenas de COVID-19. Pode acontecer, por exemplo, que alguém, saindo de um posto de vacinação, seja atropelado por um carro desgovernado e morra – toda a segurança dada pela vacina terá sido inútil. Nossa confiança última vem da consciência que temos do amor de Deus, que não é uma confiança em oposição à ciência, mas que nos ajuda a olhar os resultados científicos de forma mais justa e nos lançarmos no permanente desafio da vida com serenidade e alegria, apesar das dificuldades.

O grande presente deste final de ano, como dos anos que o antecederam e dos anos que se seguirão, é o Cristo que veio ao nosso encontro, para que pudéssemos conhecer e desfrutar das maravilhas de sermos amados pelo Senhor. Cada instante de nossa vida pode ter um outro gosto e um outro prazer, ser a memória de um grande Amor, graças a esse presente de Deus. Isso é muito mais do que qualquer vacina… E pode nos ajudar a usar, com sabedoria, cuidado e alegria, ao presente que a própria vacina não deixa de ser.

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Saúde
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