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As pessoas, presas nas tenazes de 2020

FATHER, CHILD, SHOULDERS

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 03/01/21

Os cristãos podem levar, desse ano, algumas lições valiosas sobre essa resiliência

Todos nós, nesse ano de 2020, vivemos como que presos numa grande tenaz (aquele alicate longo, usado para pegar carvão em brasa ou metais aquecidos). Uma das hastes dessa tenaz era a própria natureza, que nos pressionava com a força da pandemia. A outra era a sociedade, com as normas sanitárias de isolamento social e todas as suas implicações para nosso cotidiano. Passamos o ano presos entre essas duas hastes, frequentemente dominados por sentimentos de medo, frustração, ansiedade ou raiva.

A pressão da natureza

Em nossa época, perdemos a noção dos constrangimentos que as forças naturais podem exercer sobre o ser humano. Num passado não muito distante (se pensamos no tempo decorrido desde que o primeiro ser humano vagou por nosso planeta), um inverno rigoroso, uma seca prolongada ou mesmo uma grande tempestade poderiam mergulhar populações inteiras na fome, na pobreza e no desamparo. Os invernos eram vividos com frio, os verões dominados pelas pestilências do tempo quente, as noites mal iluminadas por velas e fogueiras. As doenças grassavam indomadas, com disseminação fácil e cura difícil. Só os muito ricos e poderosos escapavam da inclemência da natureza (e mesmo eles nem sempre).

A ciência e a técnica nos deram, inegavelmente, uma grande liberdade em relação ao meio ambiente. Hoje, nos parecem espontâneos e simples os confortos e a segurança decorrentes das revoluções na produção agrícola, do diagnóstico e tratamento das doenças, da eletricidade, etc. Poucas catástrofes naturais, como terremotos e maremotos, ainda parecem suficientemente fortes e imprevisíveis para apavorar nossa sociedade. Diferentemente do passado, na atualidade, quase todos podem escapar da inclemência da natureza. Agora, na verdade, é a pobreza que fragiliza as populações e não as deixa ter acesso às conquistas da ciência e da técnica.

Por isso, o aquecimento global frequentemente nos parece uma previsão alarmista e catastrofista. Havíamos perdido a noção de uma ameaça natural que fosse maior do que nós mesmos. Mas a pandemia mudou drasticamente essa visão confiante. É verdade que podemos considerar o vírus como uma conjugação: nascido na natureza, não poderia ter se tornado essa catástrofe mundial sem a globalização. Podemos constatar que a medicina está aprendendo a combatê-lo com eficiência em tempo recorde. Tudo isso não muda o fato que um vírus microscópico quase parou o mundo e reacendeu em nós um medo ancestral das forças naturais.

A pressão da sociedade

Quando a COVID-19 surgiu em Wuhan, muitos de nós pensamos: só numa ditadura como a chinesa seria possível isolar uma grande cidade e colocar todos os seus habitantes em quarentena. Menos de um ano depois, constatamos que isso pode acontecer em qualquer lugar do mundo. Gostemos ou não, sejamos favoráveis ou não às limitações impostas como segurança sanitária, tivemos todos que nos dobrar às regras desse tempos de pandemia.

Aprendemos que o coerção imposta pelas normas sociais à autonomia individual é muito maior do que imaginávamos. A ideologia moderna prometia total autonomia individual, em troca de nossa adesão a umas poucas regras do mercado e da arena política. Aprendemos que essas regras não são tão poucas assim. Nos escandalizamos com as imposições que nos foram feitas ou com a irresponsabilidade de quem não as segue. De um modo ou de outro, reconhecemos que não vivemos como queremos, mas sim como a sociedade nos permite viver.

Países que estão passando melhor pela crise, com menos perdas de vidas e menor prejuízo econômico, são justamente aqueles que contam com populações mais educadas para a solidariedade e para o respeito às regras de convivência social. Quem tentou se impor à pandemia, negando a gravidade da doença ou acreditando que poderia vencê-la com facilidade, obteve resultados piores que os demais.

A frustração da autonomia antropocêntrica

Pressionados tanto pela natureza quanto pela sociedade, reaprendemos que não somos tão autônomos quanto imaginávamos. Temos tido de aceitar que, apesar de todo o poder da ciência, de todos os direitos individuais que teoricamente gozamos, temos de nos dobrar a uma realidade maior do que nós. O ser humano ainda é, para nós, o centro do mundo, mas não mais com a arrogância e a ostentação de uma ano atrás.

Os desafios, tanto materiais quanto psicológicos, desse tempo de pandemia são realmente grandes. Não podem ser minimizados. Contudo, não estávamos sendo preparados para enfrentá-los. Para muitos de nós, predominou o pavor fóbico diante da morte, a angústia de ter que viver consigo mesmo, isolado das distrações do cotidiano, sem o conforto de um abraço amigo. Para outros, predominou a raiva e o negacionismo diante das tenazes inevitáveis da realidade: a doença não poderia ser tão grave, a culpa teria que ser de algum poder oculto ou de algum governante irresponsável, manifestações públicas raivosas ou ataques nas redes sociais teriam o poder de neutralizar a doença.

Terminamos o ano com a dolorosa constatação que o vírus era maior, que mesmo a vitória representada pela vacina ainda demora um pouco, que a guerra contra a pandemia, mesmo vencida, deixará um triste rastro de morte e destruição. Nossa vontade não está acima da realidade. A sabedoria não está na arrogância antropocêntrica, mas no realismo que reconhece as limitações que o mundo nos impõe.

Um caminho de sabedoria

Uma das palavras da moda, nesse período, é “resiliência”, a capacidade de superar as dificuldades, se recuperando dos danos sofridos. Trata-se de uma virtude difícil de ser implementada na crise. É o modo que vivemos todos os dias, bons ou maus, que nos ensina a enfrentar melhor as crises.

Os cristãos podem levar, desse ano, algumas lições valiosas sobre essa resiliência. No plano individual, aprendemos que a tranquilidade daqueles que confiam em Deus é a fonte do discernimento para enfrentar as coerções da realidade sem deixar-se levar pelo desespero ou pela raiva. No plano social, que o caminho da solidariedade e do amor realmente permite superar as crises sociais e usar melhor os recursos da ciência e as riquezas materiais das nações.




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