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Santa Gianna e o seu sim pela vida

BERETTA MOLLA

Jose Luiz Bernardes Ribeiro-(CC BY-SA 3.0)

Vitor Roberto Pugliesi Marques - publicado em 13/01/21

O ponto de maior notoriedade que une a vida de Santa Gianna à questão da defesa da vida é o ato heroico ao qual foi chamada por Deus

Recentemente, dado o dramático acontecimento da liberação do aborto na Argentina, escrevemos algumas linhas refletindo sobre a obviedade da presença da vida já no embrião (cf. Chesterton, a obviedade e a liberação do aborto na Argentina, publicado em Aleteia a 03/01/21). Ao que tivemos o retorno da leitura do texto por um querido amigo, este lembrou que seria ocasião para também refletir sobre os acontecimentos da vida de uma mulher virtuosa: Santa Gianna Beretta Molla. Foi ela uma médica italiana, nascida na cidade de Magenta em 1922. Tendo sido membro atuante da Ação Católica desde a adolescência, exerceu um apostolado fecundo junto às pessoas próximas a si, tanto como médica pediatra – com atenção sobretudo aos mais pobres – quanto como esposa e mãe, tendo se casado com o engenheiro Pietro Molla, com o qual teve quatro filhos. 

Ato heroico

O ponto de maior notoriedade que une a vida de Santa Gianna à questão da defesa da vida é o ato heroico ao qual foi chamada por Deus a viver em sua última gestação. Estando com 39 anos, descobriu-se durante sua gestação um fibroma no útero, lesão cujo tratamento perpassava três possibilidades clínicas: a retirada do útero doente com consequente aborto indireto, o aborto direto, ou (e a mais arriscada das opções) realizar um procedimento cirúrgico com intuito de salvar ambas as vidas, entretanto com elevado risco de morte materna. Sendo médica, portanto sabendo, de forma técnica, das consequências de sua escolha, e tendo consigo claro os desígnios da Providência Divina em sua vida, optou por tentar salvar ambas as vidas. Salvou-se a vida de sua filha, que viria se chamar Gianna Emanuela Molla, entretanto houve o desfecho desfavorável para essa virtuosa mulher, que veio a falecer, em Milão, em abril de 1962. 

Quando pensamos o que levou Santa Gianna a abrir mão de sua vida em favor da vida de sua filha, encontramos resposta nas palavras de seu esposo. Em 1973, quando ocorria, em Milão, o processo de beatificação de Gianna, Pietro Molla foi solicitado a redigir o perfil das virtudes de sua esposa. Em resposta, ele escreve: “Realizou o seu gesto pela caridade, pela responsabilidade materna, o supremo respeito que nutria por aquela gravidez, por aquela criança que tinha no seio e que, para você [Gianna] os mesmos direitos intocáveis das outras gravidezes, dos outros filhos que tivera e que podia ter no futuro: todos dom de Deus”. Pergunto-me, perplexo, onde foi que a sociedade atual se perdeu de modo a não dignificar as crianças no ventre materno como dom de Deus, a ponto de cada dia mais haver mais e mais defensores do aborto sob livre demanda. Dia após dia, fica claro que nosso senso civilizacional paganiza-se e aproxima-se dos princípios espartanos de infanticídio e eugenia. 

Providência Divina

Nesse mesmo escrito, Pietro Molla dá luz aos críticos superficiais de plantão que questionam: não teria sido egoísmo de Santa Gianna abrir mão da sua vida para salvar a vida de sua filha intrauterina e deixar abandonado seu esposo e seus outros três filhos? O primeiro ponto que ele esclarece é que o único abandono que houve foi na Providência Divina. Escreve em um trecho: “Ao longo de meses e meses, orou e orou ao Senhor, à Senhora e à sua mãe para que o direito e a garantia à vida da criaturinha no seio não exigissem o sacrifício da sua vida”. E completa: “Ao mesmo tempo, se a vontade do Senhor fosse diferente e se não viesse a ser possível salvar ambas as vidas, a da criança e a sua, pediu-me explicitamente que se salvasse a vida do bebê”. Quando se está em estado de graça, sabe-se que “não existe maior amor do que este: de alguém dar a própria vida por causa dos seus amigos” (Jo 15,13). Certamente como médica e católica, Gianna sabia que ninguém poderia criticá-la se tivesse escolhido salvar a sua vida em detrimento de sua filha, pois seria uma questão de escolha de vida; entretanto ela sabia bem os frutos que seu ato heroico iria gerar, de modo que hoje, quase 59 anos após sua morte, estarmos aqui escrevendo sobre ele para iluminar o debate contra o aborto.

Em outro ponto do documento, Pietro Molla redige: “[Gianna] estava persuadida de que não cometia nenhum ato de injustiça e de falta de caridade para com os nossos três filhinhos, porque a Providência não deixaria de suprir a falta de sua presença visível”. Olhando esse testemunho e vendo o cenário atual, nos dá tristeza pensar que, enquanto o debate, no início do século XX, perpassava em gerar o dano menor (discussão essa justa), atualmente se passa pelo entendimento de que permitir o assassinato voluntário de filhos no ventre materno garante à mulher a independência e a alegria. Pergunto-me, por que não vejo, em saúde pública, um consistente empenho em dar apoio psicológico e social às gestações “indesejadas”, acolhendo a mulher e dando-lhe a segurança de que não está sozinha, mas, sim, que ela pode contar com a ajuda da sociedade durante o parto e após a ele? A resposta nos vem muito claro quanto entendemos que por detrás do aborto há uma indústria a ganhar milhões e milhões de dólares (cf. A lucrativa indústria do aborto, Vanderlei de Lima, publicado no Aleteia em 29/08/18).

Reflexão honesta

Vivemos em uma sociedade que podemos dizer que é cosmética, pois há a busca cotidiana em fazer tudo parecer belo, florido e feliz; mas, como dito, é uma vida de aparências, de “parecer”. Muitos defendem que o aborto é a liberdade e a alegria da mulher que teve uma gravidez indesejada, pois essa se “livra” do fardo de ter um filho fora dos seus planos ou de ter um filho com alguém com o qual só deu uma “escapadinha”. Entretanto, a “solução” vinda por meio do aborto traz consigo o peso de um homicídio, bem como o peso de ter dado a resposta do “olho por olho, dente por dente”, ou seja, de ter respondido ao não desejo da gestação com a morte de alguém. Bastará um momento de reflexão honesta sobre o ato feito para se torna escravo da culpa de uma crueldade. 

O salmista nos diz: “Como é feliz o homem que tem a sua aljava cheia deles! [Os filhos]. Não será humilhado quando enfrentar seus inimigos no tribunal” (Sl 127,5). Santa Gianna nos mostrou isso; doando sua vida alcançou a Vida plena, que é a Igreja Triunfante junto ao Cordeiro de Deus. Gianna Emanuela, a filha fruto do sim de Santa Gianna, escreveu: “O caminho da Cruz, intimamente unido e indissolúvel ao da Ressurreição, como Nosso Senhor Jesus testemunhou e indicou, é humanamente o mais desconfortável e o mais fácil; no entanto, penso que é o único caminho que nos permite dar um sentido pleno e completo às nossas vidas”. Rezemos para que todas as mulheres que estejam enfrentando o fantasma do aborto possam escutar a voz de Deus em seu coração e dar seu sim à vida do modo como Deus as levar a intuir. 

Santa Gianna Beretta Molla, rogai por nós. 




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Tags:
AbortoIgreja CatólicaSantos
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