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Campanha da Fraternidade, diálogo e convicções firmes

JEFFREY BRUNO

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 21/02/21

Quem não se confia a Cristo, se confia aos poderes do mundo. Acaba por transformar o anúncio da Verdade numa luta por poder como todas as outras do mundo

O bambu e o capim são da mesma família botânica. Mas, enquanto o primeiro é muito rígido, o segundo é flexível. Inicialmente, pensamos que é por causa do tamanho. Mas o bambu já é duro desde pequeno e os capins maiores continuam sendo flexíveis. Acontece, dizia minha colega, professora de Ecologia, que o bambu é oco, o capim não. Quanto mais vazia uma pessoa é, mais tende a ser rígida, intransigente e sectária – concluía essa amiga, pessoa muito cristã.

Os anos vão se passando, e eu só tenho visto confirmações dessa “teoria” de minha colega. As pessoas muito rígidas e sectárias estão sempre tentando esconder um vazio interior, uma carência afetiva e/ou intelectual que procuram disfarçar com uma força e uma segurança que são apenas aparentes.

Infelizmente, muitas vezes nos deixamos enganar por uma certeza arrogante, que esconde a falta de argumentos bem fundamentados e a incapacidade de amar. Somos seres gregários. Não queremos ser excluídos, menosprezados ou – para usar um termo da moda – “cancelados”, em nossos círculos de relacionamentos. Assim, quando um argumentado é dado por certo pela maioria, todos tendem a repeti-lo de forma acrítica e até a desprezarem quem pensa diferente.

Esses círculos de relacionamento, que importam tanto para nós, podem ter as mesmas posições que a maioria – e repetirem à exaustão lugares comuns e slogans da moda – ou serem grupos que se consideram alternativos – “iluminados” que se consideram mais sábios do que os outros e continuam repetindo acriticamente frases feitas e ideias pensadas por outros. Num caso e no outro, o que conta é pensar como os amigos mais próximos, não ser diferente, não ter que enfrentar o descrédito das pessoas próximas. Existe um sectarismo de maiorias, onde se repete o que todo mundo diz, e um sectarismo de minorias, que negam a maioria, mas frequentemente ficam repetindo entre si os mesmos argumentos, sem perceber suas falhas.

O sectarismo não é a certeza cristã

Essa posição humana acaba identificando ter convicções firmes com ser sectário. Na verdade, trata-se da ilusão de que o bambu tem conteúdo só porque é duro. Firmeza não tem nada a ver com sectarismo. Pelo contrário… Na verdade as pessoas sectárias se fecham ao diálogo porque, no fundo, não têm certeza de suas ideias, acreditam que – num debate – os outros poderão vencê-los só porque usam argumentos mais ardilosos. No fundo, o sectário não acredita na força da verdade, mas apenas no poder da persuasão.

A certeza cristã nunca é sectária. Porque estou certo de que Deus me ama e se revela a mim a cada momento, sei que Ele poderá se comunicar a mim hoje, por meio de uma pessoa que pensa diferente de mim, e mostrar-me algum dos meus erros. Isso não representa uma ameaça, pois – se isso acontecer – será Deus me corrigindo e não o outro me dominando. A certeza última, aquela que a tudo supera e a tudo vence, é o fato de que Ele me ama, que deu a vida por mim, por meio de seu Filho, e toda minha vida será sempre resgatada por Seu amor, não importa a força dos poderes humanos.

Por isso, um cristão de convicções firmes está sempre procurando o diálogo, sem se preocupar em impor-se ao outro. A conversão é sempre obra do encontro entre a graça de Deus e a nossa liberdade. Não podemos querer impor a ninguém a Verdade, aquela com “V” maiúsculo, a única que realmente pode salvar. As outras verdades são importantes e devemos lutar por elas na sociedade, mas não podemos deixar de aceitar o testemunho de Paulo: “tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo” (Fl 3, 8).

A verdadeira certeza convida ao diálogo

O sectarismo, contudo, nos leva a pensar todas as “nossas verdades” (que são hipóteses humanas, tão relativas como quaisquer outras) como “a Verdade”, ou como manifestações obrigatórias dessa Verdade. É como se Deus se visse, de repente, obrigado a pensar como nós – ao invés de nós termos de nos converter a Ele. Bento XVI, que sempre se colocou contra o relativismo da cultura atual, explica: “Sem dúvida, não somos nós que possuímos a verdade, mas é ela que possui a nós: Cristo, que é a Verdade, tomou-nos pela mão e, no caminho da nossa busca apaixonada de conhecimento, sabemos que a sua mão nos sustenta firmemente. O fato de sermos interiormente sustentados pela mão de Cristo torna-nos simultaneamente livres e seguros. Livres: se somos sustentados por Ele, podemos, abertamente e sem medo, entrar em qualquer diálogo. Seguros, porque Ele não nos deixa, a não ser que sejamos nós mesmos a desligar-nos d’Ele. Unidos a Ele, estamos na luz da verdade.” (Discurso à Cúria Romana na apresentação de votos natalícios, 21 de dezembro de 2012).

Quem não se confia a Cristo, se confia aos poderes do mundo. Acaba por transformar o anúncio da Verdade numa luta por poder como todas as outras do mundo. Pouco a pouco, deixa de propor a Cristo, para propor convicções particulares ditadas pelo poder (ou por um anti-poder que deseja se tornar poder). Numa Campanha da Fraternidade Ecumênica, tendo por tema o diálogo, como a desse ano, podem surgir muitas discordâncias, mal-entendidos e até mesmo erros brutais. O que não pode acontecer é deixarmo-nos levar pelo sectarismo, ao invés de aproveitar a oportunidade para uma conversão que nos leve à verdadeira certeza cristã.


BARI,POPE FRANCIS

Leia também:
O diálogo e o desejo mais profundo do coração

Tags:
DiálogoEcumenismoIgreja

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