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Moçambique: os últimos 3 anos foram uma experiência de cruz, diz bispo

Bispo Dom Luiz Fernando Lisboa

Leandro Martins, Aid to the Church in Need

Fundação AIS - publicado em 22/02/21 - atualizado em 22/02/21

D. Luiz Fernando Lisboa tornou-se nos últimos meses, com o escalar da violência terrorista no território de Cabo Delgado, a voz deste povo sofrido tendo procurado alertar o mundo para a existência de uma guerra em Moçambique

Os últimos anos vividos na Diocese de Pemba, anos de guerra com o território da província de Cabo Delgado marcado por constantes ataques terroristas, não se apagarão mais da memória de D. Luiz Fernando Lisboa. Em entrevista em exclusivo à Fundação AIS, o Bispo, que o Papa Francisco enviou agora para uma diocese situada no estado do Espírito Santo, no Brasil, olha em retrospectiva para a sua passagem por Moçambique, país lusófono que é, também, um dos mais pobres do mundo.

“A minha passagem pela diocese de Pemba foi uma grande aprendizagem para mim. Sempre quis trabalhar em África como missionário e Deus concedeu-me essa graça. E eu fiquei praticamente quase vinte anos…” Duas décadas das quais sete anos e meio foram como Bispo. O Balanço de todo este tempo é positivo. Ao telefone desde o Brasil, onde agora vai assumir a diocese de Cachoeiro de Itapemirim, D. Luiz fala também de si, de como mudou, do que aprendeu, das memórias que vai levar consigo até ao fim dos seus dias. “Quando nós mudamos de local, de lugar, temos de reaprender, que recomeçar, temos de respeitar as pessoas, a cultura, as línguas, o modo de ser e de estar e isso tudo nos enriquece. Tenho a certeza de que muito mais eu recebi do que dei…” Vinte anos depois de ter pisado terras africanas, D. Luiz garante “que África nunca vai sair de mim…”

Anos de guerra

Absolutamente marcantes foram os últimos três anos, quando a província de Cabo Delgado se sobressaltou com ataques terroristas que ganharam intensidade especialmente em 2020. Três anos de guerra que podem ser sintetizados na brutalidade da estatística: mais de dois mil mortos e mais de 600 mil deslocados. Três anos que, para D. Luiz Lisboa, valeram por dez… “Foi uma experiência muito forte, uma experiência de cruz, uma experiência de dor.” Para o Bispo, todo o sofrimento que testemunhou permitiu-lhe descobrir a generosidade de um povo materialmente muito pobre mas com um grande coração. “Dessa guerra, eu pude tirar muitas lições. A principal delas é a gradeza desse povo que é pobre mas que é muito solidário. Eu vi muitas histórias, ouvi muitas histórias, vi muitas situações e percebi quanto é que, mesmo na pobreza, nós podemos ajudar, nós podemos repartir, partilhar. Nesse tempo de guerra cada família que não era deslocada acolheu uma ou duas ou até três famílias deslocadas, dentro da sua casa, no seu quintal repartindo o pouco que tinha com aqueles que não tinham nada e estavam ainda no desespero, na estrada, sem ter norte. Então, eu penso que essa experiência do povo de Cabo Delgado vai ficar sempre marcada na minha vida…”

O Papa e Pemba

D. Luiz Fernando Lisboa tornou-se nos últimos meses, com o escalar da violência terrorista no território de Cabo Delgado, a voz deste povo sofrido tendo procurado alertar o mundo para a existência de uma guerra em Moçambique. O anúncio, na quinta-feira, 11 de Fevereiro, de que o Papa Francisco decidira enviá-lo para a diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim foi acolhido com profunda surpresa em Pemba. D. Luiz mostra-se tranquilo com a decisão do Santo Padre e recusa classificar a sua saída como “injusta”. “De maneira nenhuma. A missão é de Deus, não é nossa. Nós somos apenas instrumentos de Deus. Na Igreja, uma das características do missionário e sobretudo do religioso, porque eu sou também da vida religiosa, é a itinerância. Nós nunca nos fixamos num lugar. Nós somos transferidos para onde a Igreja precisa, para onde Deus nos manda, e nós temos que estar sempre prontos a desmontar a nossa tenda e montá-la em outro lugar. E neste momento, o Papa Francisco entendeu que seria melhor que eu fosse trabalhar em outro lugar e eu acolhi e agradeço todo o apoio que ele deu, todo o empenho que ele teve em nos ajudar e toda a preocupação que ele teve e ainda tem para com Cabo Delgado, porque além de rezar ele quer continuar a ajudar aquele povo.”

A ajuda da Fundação AIS

E quando fala da ajuda, da solidariedade internacional que entretanto despontou para com Cabo Delgado, D. Luiz Fernando Lisboa faz questão de sublinhar toda o apoio que, ao longo dos anos, mas especialmente nos últimos tempos, a Diocese de Pemba tem recebido através da Fundação AIS. “Eu queria aproveitar para agradecer à AIS por todos esses anos de parceria, por toda a ajuda que já prestou, que já deu à nossa diocese. Da AIS e daqueles que colaboram com a AIS nós recebemos carros para os missionários, nós já recebemos ajuda para a formação de padres e seminaristas, para retiros, ajuda de subsistência para irmãs, projectos, agora no tempo da guerra, para a alimentação da população deslocada, projectos para a compra de material agrícola para o pessoal deslocado… e estamos ainda com alguns projectos em pleno desenvolvimento! Nesse tempo da guerra a AIS tem-nos ajudado muito com vários pequenos projectos que têm possibilitado ao nosso pessoal missionário trabalhar e levar o socorro às vítimas dessa guerra.”

Embaixador de Pemba

A ajuda ao povo de Cabo Delgado deve continuar. Independentemente da evolução no terreno do combate aos terroristas, milhares de pessoas vão continuar deslocadas, fora das suas aldeias, das suas casas, das suas coisas. Continuar a ajudar é, por isso, fundamental. Nesta entrevista com a Fundação AIS, o Bispo destaca as duas prioridades no apoio às populações: habitação e alimentação. A decisão do Papa de o enviar para Cachoeiro de Itapemirim, no estado do Espírito Santo, no Brasil, de cuja diocese vai tomar posse a 20 de Março, não o vai afastar de Pemba. Apesar dos mais de oito mil quilómetros que separam as duas localidades, D. Luiz Fernando Lisboa assume a vontade de ser como que um “embaixador” de Pemba no mundo. “Pela minha vontade, farei isso, mas só o farei se o Bispo que vier, como Bispo de Pemba, quiser que o faça, que o ajude… eu estarei sempre disposto. Sempre aberto a ajudar, a colaborar com a Diocese e com esse povo.” Sobre o futuro, diz que se sente “esperançoso e feliz”. “Temos que ter a capacidade de virar o botão, de virar o disco e recomeçar. Depois dos 65 anos, começar de novo! É assim a nossa vida missionária.”

(AIS)

Tags:
GuerraPerseguiçãoViolência
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