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O mal é um buraco na camisa: não existe, mas existe

Mal

Danilov1991xxx | Shutterstock

Francisco Vêneto - publicado em 23/03/21

A humanidade não sabe definir o que é o mal, mas alguns exemplos talvez ajudem a refletir a respeito

O mal é um buraco na camisa: não existe, mas existe. Este exemplo pode parecer esdrúxulo, mas não é que existam outros muito melhores. A humanidade, afinal, não sabe definir o que é o mal, embora não tenham faltado tentativas.

Uma dessas tentativas é a de entender o mal como uma força oposta ao bem. Deste ponto de vista, o mal teria existência própria. Existiriam, assim, duas forças em contínua oposição: uma boa e a outra má. Esta é, grosso modo, a visão proposta pelo maniqueísmo.

Superando o maniqueísmo

Santo Agostinho chegou a ser adepto desta visão durante parte da sua juventude, mas, com o passar do tempo e com as aparas da reflexão, acabou mudando de ideia. Passou a considerar que o mal não pode ser um ente em si mesmo, porque Deus não teria criado o mal. O mal, portanto, não pode ser uma força autônoma porque não pode ser “algo” que exista em si: para Santo Agostinho, o que chamamos de mal é a própria ausência do bem que poderia ou deveria estar presente.

A morte é ausência de vida. As trevas são ausência de luz. Os vícios são ausência de virtude. E essa ausência não é absoluta: onde há vício pode vir a haver virtude; onde há trevas pode passar a haver luz; onde há morte pode voltar a haver vida.

O mal não é um ente em si mesmo

A perspetiva de que o mal não existe em si mesmo, mas sim como ausência de bem, já remonta a Platão, que falava das imperfeições deste mundo transitório em relação a um mundo ideal e perfeito, do qual seríamos apenas sombras desajeitadas. Retomando alguns lampejos dessa teoria, Santo Agostinho veio a concordar com o fato de que o mal não tem existência própria: não é um ente, não é uma criatura. O mal é a falta de um bem que deveria ou poderia estar presente em outro ente, mas não está.

E isto se aplica à própria personificação do mal conforme entendida no âmbito cristão: as criaturas más só existem porque optaram por rejeitar o bem; ou seja, elas se tornaram más apesar de poderem ou deverem ser boas; não foram criadas más, nem existiram desde sempre como más em si mesmas. O diabo, no cristianismo, existe não como metáfora do mal absoluto, porque o mal não existe como ente em si: o diabo existe porque é uma criatura que Deus fez boa e livre, mas que, livremente, optou por desprezar o bem, rejeitando o próprio Deus e causando a si mesma a eterna lacuna do bem.

Nada disto quer dizer que o mal “não exista”: ele “existe”, sim, mas entre aspas, pois “existe” precisamente como “ausência de bem”. A morte existe porque a ausência de vida é um fato existente: é a lacuna deixada pela falta da vida que poderia estar presente. As trevas existem porque a ausência de luz é um fato existente: é a lacuna deixada pela falta da luz que poderia estar presente. Essa ausência não é algo que possua existência própria, já que é uma não-presença, mas, ao mesmo tempo, “existe” a lacuna causada por essa não-presença; existe o efeito da ausência do bem que poderia ou deveria estar presente.

O mal é um buraco na camisa

É como um buraco na camisa: trata-se, em suma, da ausência de tecido. O buraco, em si mesmo, não é “algo”: é a própria inexistência de algo que deveria estar ali. Mas, ao mesmo tempo, o buraco “existe” – não como um ser com existência própria, mas como a lacuna do tecido que poderia ou deveria estar presente.




Leia também:
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