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A recepção dos hóspedes no mosteiro e a “pequena via” de Santa Terezinha

SAINT BENEDICT OF NURSIA

By Nancy Bauer | Shutterstock

Vitor Roberto Pugliesi Marques - publicado em 08/04/21

Em suas orações e meditações, Santa Terezinha compreendeu o modo autêntico com que Deus quer nos amar: por meio da misericórdia

Como prática cotidiana de piedade, os monges e oblatos beneditinos são convidados a ler todos os dias um trecho da Regra de vida deixada por São Bento, grande pai da vida monástica do Ocidente e patriarca da Europa. Esse trecho deve ser meditado e colocado em prática conforme o estado de vida na qual cada um se encontra: os monges e monjas na vida cenobítica do mosteiro e os leigos na cotidianidade de sua vida em família e comunidade. O Domingo da Páscoa deste ano, dia 4 de abril de 2021, coincidiu com a leitura trecho da Santa Regra de São Bento em que se fala sobre a recepção dos hóspedes. Gostaríamos de fazer uma breve reflexão sobre essa trecho e liga-lo à “pequena via” intuída por Santa Terezinha do Menino Jesus, carmelita descalça e Doutora da Igreja. 

Vai nos ensinar São Bento que o hóspede tem de ser recebido como sendo “o próprio Cristo quem chega ao mosteiro” (cf. RB 53,1). Sendo esse um ensinamento profundamente evangélico (cf. Mt 25,35), o santo abade esclarece, de modo concreto, como exercê-lo dentro da realidade monástica. O primeiro ato do anfitrião deve ser a pressa em querer viver a caridade para com o hóspede, seguido da celebração da paz do Cristo entre o visitante e visitado, por meio da oração. Vai nos esclarecer ainda a Regra que, por meio da oração junto ao hóspede, dispersam-se as ilusões diabólicas (cf. RB 53,3), pois temos de convir que nem todos os que vêm a nós o fazem com intenções honestas e louváveis de coração. Feito esse alegre primeiro contato, segue-se uma série de recomendações, que já eram praticados desde tempos monásticos pré-beneditinos. São elas: a adoração do Cristo na pessoa do visitante, a leitura da lei divina e um tratamento humilde para com o hóspede. Orienta-se ainda o rompimento do jejum por parte do anfitrião (exceto se for dia de preceito obrigatório), para a celebração da visita em espírito de festa, e a purificação dos pés, uma atualização monástica da prática de humildade feita pelo próprio Cristo. 

Chama-nos a atenção, entretanto, que, no meio do capítulo, São Bento coloca uma consideração por demais interessante. Ele diz: “Mostre-se principalmente um cuidado solícito na recepção dos pobres e peregrinos, porque sobretudo na pessoa desses, Cristo é recebido” (RB 53,15). Ora, se igualmente pobres e ricos são criados à imagem e semelhança de Deus, por que, em especial, os pobres e peregrinos refletem a luz do Cristo? Nesse ponto, conseguimos esclarecimento no caminho místico proposto por uma santa carmelita do século XIX muito querida entre o povo católico: Santa Terezinha do Menino Jesus e da Sagrada Face. Em sua caminhada espiritual, Santa Terezinha vai intuir a sua chamada “pequena via” ou, por alguns conhecida como “infância espiritual”. Em suas orações e meditações, ela compreendeu o modo autêntico com que Deus quer nos amar: por meio da misericórdia. Se falamos em termos de realidade humana, observamos que somos amados e queridos por muitos na medida em que adquirimos méritos terrenos. Um bom político é aclamado quando faz um grande bem ao povo que o elegeu; um médico é admirado quando realiza exímios tratamentos ou progride a olhos vistos dentro da ciência médica. 

Com Deus, a lógica da meritocracia não coaduna com a Sua misericórdia. Primeiro, porque diante de Deus, independente do que somos, não deixamos de ser pó, pois Ele é o Divino Criador de tudo. Segundo, porque é quando nos despojamos de toda couraça dos méritos terrenos é que estamos plenamente disponíveis ao amor de Deus. Quem mais do que os pobres e peregrinos (obviamente no sentido evangélico dos termos) estão mais “desarmados” de qualquer vaidade humana e, consequentemente, estão mais disponíveis à ação da graça de Deus? Convenhamos que poucas pessoas! Por isso, o monge que, por vocação, acima de tudo, deseja viver uma unidade com Cristo, terá a oportunidade de encontro com o Mestre naqueles que se apresentam “de mão vazias”, ou seja, desapegados das amarras e vaidades que o mundo nos oferece. 

Que sejamos nós todos um povo de pobres e peregrinos neste mundo. Entreguemos a Jesus os méritos que temos como fruto do Seu Amor e da Sua graça em nossas vidas, e apresentemo-nos a Ele desapegados de tudo, com disponibilidade para que Ele nos ame da forma mais autenticamente cristã: por meio da divina misericórdia. Assim fazem os seguidores autênticos da Santa Regra; de modo similar todos os cristão são também convidados a fazer. 


JOHN PAUL II

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Tags:
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