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A Divina Misericórdia sabe ser exigente

Miséricorde

© Fred De Noyelle / GODONG

Jean-Michel Castaing - publicado em 22/04/21

Como podemos apelar a Deus se nos recusamos a ver nossos pecados? Se não queremos que Deus nos trate como adolescentes retardados ou ajudantes incapazes, vamos começar por nos comportar como adultos

O homem de hoje é sensível à dimensão da misericórdia do ser e da ação de Deus. Mas, em épocas passadas, a espiritualidade insistia tanto na justiça divina que muitos se afastaram da religião. Eles creditavam que esse caminho era muito íngreme e muito abrupto, considerando seu sentimento de culpa e sua convicção de “não estar à altura da tarefa”. 

Felizmente, Santa Teresa de Lisieux e Santa Faustina vieram lembrar ao povo cristão que o atributo da misericórdia prevalecia em Deus sobre o da Sua justiça. Mas isso significa que Deus ignora todas as exigências de Sua criatura? Que as noções de bem e mal são abolidas? Significa que o chamado à santidade é opcional? Claro que não!

Misericórdia e verdade

Através da Divina Misericórdia, Deus convida o homem a fazer o bem e a rejeitar as más práticas contrárias à caridade.  Assim, longe de ser uma virtude divina que nos faria perceber o mundo com lentes cor-de-rosa, a misericórdia divina, pelo contrário, evidencia os males que desfiguram a Criação. Visto por seu prisma, o mundo aparece com suas asperezas mortais. A espiritualidade que flui da devoção à Divina Misericórdia não é uma escola de escape. O recurso à compaixão do Senhor é acompanhado por um dever de verdade e clareza sobre a nossa situação, bem como sobre a realidade externa. Assim como a misericórdia nunca é condescendente para com a pessoa que dela se beneficia, também nunca suaviza o mal de que ela é vítima ou responsável.

Coragem de enfrentar o mal

Não querer encarar o mal e recusar-se a lutar contra ele, diretamente ou com a ajuda de Deus, são dois obstáculos para colocar em prática a misericórdia. Não é um sentimento, uma pena sem efeito, mas um princípio ativo, como a misericórdia divina que, na Páscoa de Jesus, pagou um alto preço para nos salvar. 

Desta forma, verdade e misericórdia andam de mãos dadas. Na verdade, como podemos ajudar nosso próximo se permanecemos cegos para o mal que o destrói? E no que nos diz respeito, como podemos apelar a Deus se nos recusamos a ver nosso pecado? Se não queremos que Deus nos trate como adolescentes retardados ou ajudantes incapazes, vamos começar por nos comportar como adultos, tendo a coragem de reconhecer nossos erros e nossas faltas contra a caridade. Deste modo, a justiça e o apelo à misericórdia se reconciliarão em nós. 

O significado da santidade de Deus  

Hoje em dia, não é o medo do rigor de Deus que impede o apelo à Sua misericórdia, mas sim o relaxamento moral e o relativismo. O homem pós-moderno não consegue mais discernir muito bem a direita da esquerda, como os habitantes de Nínive no livro de Jonas. 

Para corrigir esse erro, é necessário que a proclamação da compaixão de Deus ande de mãos dadas com a lembrança de Sua santidade. Por exemplo, por pena, não temos o direito de empurrar um paciente incurável ao suicídio assistido. A Divina Misericórdia é um princípio ativo que não só se compadece de nossos infortúnios, mas nos livra deles. Para integrar esta verdade, o homem de hoje terá primeiro que reconhecer a onipotência de Deus, bem como o significado do bem e do mal.

Também aí a correlação entre misericórdia e santidade-verdade é um desafio para refinar e purificar o sentido religioso das consciências dos nossos contemporâneos. Precisamos de um vasto programa para ensinar novamente a santidade de Deus sem assustar os homens com sentidos morais e religiosos contundentes! 

Para tanto, será uma questão de destacar a habilidade compassiva e exigente de Deus, evitando alienar nossas mentes, apresentando-O como um Júpiter ameaçador e irado! É uma aposta fascinante ensinar àqueles que perderam o sentido do bem e do mal as exigências da misericórdia divina com … misericórdia. Uma aposta que não é nada menos que a libertação do mal e o gozo da vida eterna!

Misericórdia, a verdade de Deus

Enfim, a verdade não deve aparecer, no binômio que se forma com misericórdia, como o elemento desagradável e o único responsável por esclarecer as situações negativas. A verdade é também a revelação de que Deus é em seu ser profundo. Em Si mesmo, Ele é misericordioso. 

Duas passagens famosas, tiradas da Sagrada Escritura, ilustram essa afirmação. No Êxodo, Deus consente em revelar o seu mistério a Moisés, mas “O Senhor passou diante dele, exclamando: “Senhor, Senhor, Deus compassivo e misericordioso…”

De fato, esta revelação vem após uma primeira teofania que enfatizou a onipotência divina (“Eu sou o que sou”) e a presença de Deus para o Seu povo. Agora, nesta segunda revelação, Deus se revela não apenas como um Deus de ternura, mas também de misericórdia, perdão e amor. 

Misericórdia e Bíblia

Esta revelação (chamada de “fórmula da graça”) é mais importante do que a primeira porque segue a promessa de Deus de revelar Seu Nome a Moisés.  Então, esta segunda revelação é a única passagem do Êxodo em que Moisés se prostrou diante de Deus, o que ele não fez diante da sarça ardente. De fato, é diante da verdade da misericórdia que o libertador de Israel adora a Deus. Na verdade, é nela que ele reconheceu o Ser divino.

O segundo exemplo que ilustra a verdade da misericórdia como o atributo principal de Deus vem do evangelho de Lucas. No episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim, o evangelista chama Jesus de “Senhor” pela primeira vez em seu relato (com exceção dos anjos na noite de Natal). E o faz mencionando a sua compaixão pela viúva: «Ao vê-la, o Senhor se compadeceu dela». 

“Senhor” é a tradução grega do impronunciável Nome de Deus na língua hebraica. Além disso, para Lucas, dar esse título a Jesus por ocasião desse episódio equivale a definir, por meio do Filho de Davi, o Ser divino como Misericórdia. Portanto, não há misericórdia sem verdade, mas também não há verdade sem misericórdia, visto que esta é a Verdade de Deus!

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