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Homens e mulheres diante do valor da maternidade: uma reflexão pós “Dia das Mães”

MOTHER AND SON,

marypastukh | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 16/05/21

Um artigo intitulado "Detesto ser mãe e ajudo outras mulheres a lidar com esse sentimento" chamou a atenção essa semana

Todos os anos, no Dia das Mães, a mídia publica montes de artigos exaltando a figura materna. Nada mais justo e merecido. Contudo, nesse ano, chamou a atenção um artigo intitulado “Detesto ser mãe e ajudo outras mulheres a lidar com esse sentimento”. A manchete era pensada mesmo para escandalizar, mas o texto tinha muitas coisas que deveriam nos levar a pensar.

No artigo, é bom começar por aí, a mãe fazia questão de deixar bem claro que amava sua filha. Não era uma questão de rejeição à criança (coisa que, infelizmente, pode acontecer em certos processos patológicos). O mais justo, me parece, seria dizer que ela detesta o “papel social atribuído às mães” e não o vínculo materno em si. São duas coisas distintas, ainda que interligadas. Identificar as duas coisas pode levar a trágicos enganos.

Cometemos injustiças e desumanidades toda vez que consagramos um “papel social”, seja ele qual for, sem perceber que as representações sociais são sempre falhas, associadas a um determinando momento histórico, frequentemente determinados por relações de poder e dominação, necessitando de uma continua purificação. Mas também cometemos injustiças e desumanidades quando rejeitamos as experiências mais fundamentais de nossa vida por conta das deformações e dos erros que se originam em dados contextos, em função das estruturas de dominação e da falta de amor.

O grande pecado das ideologias é justamente esse: omitir um aspecto e exaltar o outro. Algumas ideologias querem destruir o valor da maternidade em função de falhas e injustiças cometidas contra as mães em nossa sociedade. Outras querem negar os erros que devem ser corrigidos, como se a justa valorização da mãe bastasse para eliminar todos os problemas. A solução não é nem a negação do valor, nem a sua exaltação acrítica, mas a continua e amorosa purificação à qual todos somos chamados, ao longo de toda a nossa vida.

Os muitos erros masculinos

A maior parte das sociedades humanas convive com alguma forma de dominação masculina. Em vários contextos, foram criados mecanismos “compensatórios”, que procuravam minimizar os problemas criados por essa dominação. Para os cristãos, o exemplo mais típico é a Carta aos Efésios: conforme o costume da época, diz que a mulher deve obedecer ao marido; mas o marido – em contrapartida – deve amar a esposa como Cristo amou a sua Igreja, isso é, doando-se a ela até a morte (Ef 5, 22-25). Toda a idealização romântica da figura feminina não deixa de ser também uma forma de contrapartida, um modo de evitar que o homem embrutecido abuse das mulheres.

Mas, se a dominação é a tônica, essas compensações de pouco valem, não constroem uma relação justa e nem mesmo uma verdadeira comunhão no amor. Tornam-se apenas fantasias ideológicas que ocultam os problemas. O que deveria ser uma doação se torna uma enganação. As mudanças da sociedade ao longo do século XX, que levaram as mulheres a estudar, ocupar os mesmos postos de trabalho que os homens e aumentaram a percepção das injustiças e desigualdades tornaram a percepção do machismo ainda mais crítica e conflitiva. Ideologias feministas não ameaçariam as famílias, nem colocariam a maternidade em discussão se não fossem alimentadas por comportamentos machistas. O homem que sabe amar as mulheres de sua família e respeitar as demais com que se relaciona, defende a família e os valores mais do que aquele que se dedica a criticar o feminismo sem uma real atitude de amor. 

Existe uma outra passagem do Novo Testamento que talvez devesse ser mais lembrada, pois ilustra melhor o que seja o amor conjugal: “A mulher não dispõe do seu corpo, mas é o marido quem dispõe. Do mesmo modo, o marido não dispõe de seu corpo, mas é a mulher quem dispõe” (1Cor 7, 4). Ambos se realizam na doação de um ao outro, em reconhecer que se realizam nessa doação e não numa autoafirmação individual – e dessa doação mútua nascem tanto a maternidade quanto a paternidade.

O perigo da ótica de dominação e do individualismo

Por outro lado, existe o perigo de querer superar a dominação e os papeis sociais estereotipados com uma lógica de autonomia individualista. Juntos, mas cada um dono de si mesmo, sem se doar realmente ao outro. Tal opção pode resolver muitos dos problemas trazidos pelo machismo, mas não cria uma relação amorosa construtiva. Não consegue explicar adequadamente o amor, seja conjugal, materno ou paterno. Deixa a pessoa, independente de qual seja seu sexo, incapaz de discernir como se doar aos demais, garantindo seu próprio espaço pessoal e dando ao outro o espaço que ele também merece.

Frequentemente não fazemos o bem que queremos, mas sim o mal que não queremos (cf. Ro 7, 19). Temos sempre que perdoar e sermos perdoados. Mas, nas relações afetivas, sem uma justa compreensão do amor como doação mútua, o perdão se torna impunidade. A ideologia, ao ocultar o real sentido do amor, lança as pessoas em jogos de poder e submissão ou de disputa individualista, cada um procurando garantir seu espaço no confronto com o outro.

Por isso, educarmo-nos para o amor é tão importante e difícil na sociedade de hoje. Falar em amor e doação pode parecer uma fantasia enganadora – e pode ser, de fato, uma ilusão. Mas é a única forma de superarmos, simultaneamente, tanto a dominação quanto o individualismo. E, dentro das limitações que caracterizam a todos nós, seres humanos, é a grande lição e o grande testemunho que as mães nos dão – ainda que isso talvez não seja tão simples de perceber em nossos tempos.

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FamíliaFilhosmãesMaternidade
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