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Papa Francisco: os idosos não são “sobras da vida” a serem jogadas fora

Papa Francisco e os idosos

VATICAN MEDIA / AFP

Francisco Vêneto - publicado em 26/07/21

"O milagre começa com o olhar de Jesus: um olhar não indiferente, mas que sente as agulhadas que atribulam a humanidade cansada. Jesus tem um olhar contemplativo, capaz de parar diante da vida do outro e ler dentro dela"

Na homilia do primeiro Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, celebrado neste domingo, véspera da festa litúrgica de São Joaquim e Sant’Ana, pais de Nossa Senhora, o Papa Francisco declarou que os idosos não são “sobras da vida” a serem jogadas fora e que “hoje há necessidade de uma nova aliança entre jovens e idosos: necessidade de partilhar o tesouro comum da vida, sonhar juntos, superar os conflitos entre as gerações para preparar o futuro de todos”.

Devido à sua recente cirurgia, o Papa não pôde participar da celebração, que foi presidida por dom Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Nova Evangelização. Dom Rino, porém, leu a homilia preparada por Francisco, na qual o Papa destaca três momentos de Jesus que se resumem em três verbos: ver, partilhar e guardar. Nos momentos em questão, Jesus vê a fome da multidão; partilha o pão; e manda recolher os pedaços que sobraram.

Ver: Jesus vê a fome da multidão

O Papa começou por esta passagem do Evangelho do domingo: “Jesus disse a Filipe: ‘Onde havemos de comprar pão para esta gente comer?'”. Ele se mostra interpelado pelas reais necessidades das pessoas. Levanta os olhos e vê a multidão faminta depois de uma longa caminhada para encontrá-Lo. “O milagre começa com o olhar de Jesus: um olhar não indiferente nem apressado, mas que sente as agulhadas da fome que atribulam a humanidade cansada. Ele Se preocupa conosco, cuida de nós, quer saciar a nossa fome de vida, amor e felicidade. Jesus tem um olhar contemplativo, capaz de parar diante da vida do outro e ler dentro dela”.

Este é também o olhar que os avós e os idosos tiveram para conosco, recordou Francisco: eles cuidaram de nós desde a infância e, mesmo numa vida de sacrifícios, não se mostraram indiferentes nem apressados; mantiveram olhos atentos e cheios de ternura. Em nosso crescimento, incompreendidos ou com medo dos desafios da vida, eles notaram nosso coração, nossas lágrimas escondidas e os sonhos dentro de nós. Eles nos pegaram no colo. Graças a esse amor, nos tornamos adultos.

Francisco indagou então: “E nós? Qual é o nosso olhar para os avós e os idosos? Quando foi a última vez que fizemos companhia ou telefonamos a um idoso para certificá-lo da nossa proximidade e nos deixarmos abençoar pelas suas palavras?”

E completou:

“Sofro quando vejo uma sociedade que corre, apressada e indiferente, ocupada com tantas coisas e incapaz de parar para dar um olhar, uma saudação, uma carícia. Tenho medo de uma sociedade em que todos formamos uma multidão anônima e não somos mais capazes de erguer os olhos e nos reconhecer. Os avós, que alimentaram a nossa vida, hoje têm fome de nós: da nossa atenção, da nossa ternura, de nos sentir perto deles. Ergamos o olhar para eles, como Jesus faz conosco!”.

Partilhar: Jesus partilha o pão

Depois de ver a fome das pessoas, Jesus quer alimentá-las. O Papa ressalta que isto acontece graças à ajuda de um jovem que oferece os seus cinco pães e dois peixes: “um rapaz que partilha o que tem”.

Francisco afirmou que há hoje a necessidade de uma nova aliança entre jovens e idosos para “partilhar o tesouro comum da vida, sonhar juntos, superar os conflitos entre as gerações para preparar o futuro de todos”. Sem esta aliança de vida, sonhos e futuro, “corremos o risco de morrer de fome, porque aumentam os laços desfeitos, as solidões, os egoísmos e as forças desagregadoras”. O Papa enfatizou: a ideia do “cada um pensa por si” mata!

Guardar: Jesus manda recolher os pedaços que sobraram

O Evangelho relata que sobraram muitos pedaços de pão, sobre os quais Jesus recomenda: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca”. O coração de Deus, observa o Papa, além de nos dar mais do que precisamos, ainda se ocupa em garantir que nada se perca.

Aos olhos de Deus nada deve ser descartado, acrescentou Francisco, pontuando: “ninguém deve ser descartado”.

O Papa fez então mais uma afirmação poderosa:

“Os avós e os idosos não são sobras de vida, desperdícios a ser jogados fora. Eles são aqueles preciosos pedaços de pão na mesa da nossa vida, que ainda podem nos nutrir com uma fragrância que perdemos: a fragrância da memória”.

Somos filhos da sua história e, sem raízes, murcharemos, acrescentou o Papa. “Agora cabe a nós guardar a vida deles, aliviar as suas dificuldades, atender às suas necessidades, criar as condições para facilitar as suas tarefas diárias e para que eles não se sintam sozinhos”.

Francisco então propôs novas perguntas:

“Visitei os meus avós? Os idosos da minha família ou do meu bairro? Dei atenção a eles? Dediquei algum tempo a eles? Vamos guardá-los para que nada se perca: nada da sua vida e dos seus sonhos. Cabe a nós, hoje, evitar o lamento de amanhã por não termos dedicado atenção suficiente a quem nos amou e nos deu a vida”.

Os idosos não são “sobras da vida”

O Papa finalizou:

“Os avós e os idosos são um pão que nutre a nossa vida. Sejamos gratos pelos seus olhos atentos que nos perceberam, pelos seus braços que nos deram colo, pelas suas mãos que nos acompanharam e levantaram, pelas brincadeiras que eles fizeram conosco e pelas carícias com que nos consolaram. Não nos esqueçamos deles. Aliemo-nos a eles. Aprendamos a parar, a reconhecê-los, a ouvi-los. Nunca os descartemos. Vamos guardá-los amorosamente e aprender a partilhar o tempo com eles. Com isso nos tornaremos melhores. E juntos, jovens e idosos, nos saciaremos à mesa da partilha, abençoada por Deus”.

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