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Egito: cristãos ainda são considerados cidadãos de segunda

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Hans Lucas via AFP

Reportagem local - publicado em 01/08/21

Para bispo, “vai levar tempo” até se conseguir mudar a mentalidade das pessoas num país onde cerca de 90% da população é muçulmana

Longe vão os tempos de intolerância para com a comunidade cristã quando o Egipto foi governado por Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, após a queda de Hosni Mubarak na sequência dos protestos da chamada Primavera Árabe. 

No entanto, apesar de “a maior parte da população se ter tornado mais tolerante para com os não-muçulmanos”, a verdade é que ainda há muito a fazer para um relacionamento correcto entre religiões. 

Quem o diz é o Bispo Copta Católico de Assiut. Em entrevista à Fundação AIS, D. Kyrillos Samaan reconhece que, “infelizmente, ainda há muitas pessoas que consideram os cristãos como cidadãos de segunda classe”. 

Para o bispo, “vai levar tempo” até se conseguir mudar a mentalidade das pessoas num país onde cerca de 90% da população é muçulmana. Os cristãos, que representam apenas cerca de 9%, são preteridos no acesso ao ensino superior, à administração pública e até às Forças Armadas. 

“Os cristãos estão sub-representados nas universidades”, diz D. Kyrillos, acrescentando que isto acontece “não só ao nível do número de estudantes, mas sobretudo entre os docentes e a administração da universidade”. “De vez em quando, é nomeado um Cristão”, reconhece o prelado, mas é “mero espectáculo”, pois nada de importante tende a mudar. 

“De modo geral – diz ainda o Bispo de Assiut, “os cristãos são geralmente preteridos mesmo quando são igualmente qualificados. É também o caso da administração pública ou do exército…”

Esta realidade de subalternização da comunidade cristã acontece ainda apesar dos esforços do actual presidente, o marechal Al-Sisi, que chegou ao poder através de um golpe de estado, em 2013, afastando o presidente Morsi da Irmandade Muçulmana, e fazendo-se eleger já em duas eleições consecutivas, em 2014 e em 2018, onde obteve cerca de 97 % dos votos.

“Tem de haver uma mudança de mentalidade”, explica o Bispo de Assiut. “O Presidente Sisi fala frequentemente da igualdade de todos os egípcios. Isto é importante. Comparados com a nossa situação durante a presidência de Mohamed Morsi da Irmandade Muçulmana, estes tempos sob Sisi são dourados para nós, cristãos. Quando uma mesquita é construída numa cidade nova, ele pergunta sempre quando é que uma igreja será construída ao lado dela. Ele afirma frequentemente que todos – judeus, cristãos e muçulmanos – devem ser autorizados a praticar a sua religião livremente e a construir locais de culto.”

A questão da construção e legalização de novas igrejas é de facto muito sensível pois tem servido como pretexto para ataques de grupos radicais, nomeadamente na região do Sinai. 

O último Relatório sobre a Liberdade Religiosa, editado pela Fundação AIS, dá conta desta realidade e traça o histórico do problema, recordando que o parlamento do Egipto adoptou uma nova lei sobre a construção e renovação de Igrejas em 2016. Mas isso não impediu que os ataques continuassem. 

“No entanto – pode ler-se no documento –, a escalada de ataques e obstáculos administrativos, e o fracasso do Estado em conter a violência social contra os cristãos quando estes tentam construir, restaurar ou apenas fazer reconhecer as suas igrejas revela um enorme fosso entre a lei e a vida quotidiana.” 

“Mais preocupante – refere ainda o Relatório da Fundação AIS – é o facto de as agências de segurança terem falhado repetidamente em proteger os coptas e prevenir ataques contra as igrejas e as propriedades coptas.”

(AIS)

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