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Como nos tornamos escravos da produtividade

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Octavio Messias - publicado em 23/08/21

Filósofo sul-coreano classifica a sociedade do cansaço e defende a importância do ócio criativo

Passamos o dia afogados no trabalho e costumamos preencher nosso tempo livre com estudo, academia, tarefas domésticas, hobbies etc. Quando tiramos férias ou uma folga, nada de ficar à toa descansando ou contemplando um novo cenário, mas, sim, nos enchemos de atividades (museus, espetáculos, praia, cachoeiras trilhas etc.) a fim de preencher o tempo. Para o filósofo sul-coreano Byung-chul Han, autor do livro A Sociedade do Cansaço (editora Vozes),isso é reflexo do excesso de positividade dos tempos atuais.

Por positividade ele não quer dizer que esse tipo de comportamento seja saudável ou fazer bem, mas sim que tem em sua raiz o positivismo, uma corrente filosófica do século 19 que defendia o progresso contínuo da sociedade. A questão, no entanto, fica: estamos progredindo em direção ao quê?

No livro o autor questiona se tais ideais de produtividade que cultivamos são de fato possíveis e, principalmente, se eles nos fazem bem.  Uma pesquisa do Ibope de 2013, por exemplo, revelou que 98% dos brasileiros se sentem cansados física e mentalmente. Não seria isso resultado do excesso de cobranças que nos fazemos?

Padrões inatingíveis

No livro ele cita slogans como “Sim, podemos”, da campanha presidencial de Barack Obama, e “Apenas Faça”, da Nike, para mostrar como esses padrões inatingíveis de produtividade estão embrenhados na cultura ocidental do século 21. E com eles ideais bem difundidos, embora pouco realistas, de que tudo é possível e depende apenas do esforço individual. 

Ao crer nessa possibilidade, o homem se torna seu próprio capataz, e assim, além de glorificar o cansaço e o estar ocupado, ele passa a se cercar de uma série de estímulos para fugir de si mesmo, o que torna sua atenção mais rasa e intermitente. E ele passa a sentir angústia e a não saber como se portar diante do tédio – o que pode ajudar a explicar como smartphones tornaram-se tão populares. Afinal, basta sacar o aparelho do bolso para se ter a impressão que está fazendo alguma coisa.    

Essa perspectiva é complicada por vários motivos. Em primeiro, ela costuma de vir acompanhada de uma série de distúrbios como depressão, ansiedade, insônia e alcoolismo, uma vez que é impossível não se frustrar ao acreditar que se é capaz de tudo e que tudo depende do esforço individual. Em segundo, não deixa de ser uma postura inocente, uma vez que sabemos das nossas limitações e muitas metas são inatingíveis.

Ócio criativo

Também sabemos que a qualidade do nosso trabalho tende a ser inversamente proporcional ao cansaço. Quanto mais cansados, mais comprometida fica a nossa produção e certas tarefas dependem justamente de uma clareza e de um bem-estar mental que só são possíveis quando diminuímos a quantidade de estímulos aos quais nos expomos. Pois, como aponta Byung-chul Han, o ócio criativo é fundamental para a evolução da humanidade. “Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual.”

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