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Lições da vitória talibã

Afghanistan

john smith 2021 | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 29/08/21

As condições para a chamada “guerra justa” podem ser sumarizadas numa frase

Assistimos estarrecidos à fulminante vitória talibã no Afeganistão, depois de 20 anos de presença militar norte-americana na região, com um investimento militar avaliado em US$ 2 trilhões. Esse valor é mais de 4 vezes maior que o produto interno bruto (PIB) estimado para o Afeganistão nesses anos todos!

Uma série de erros, surpreendente na máquina de guerra mais poderosa do mundo, que são as Forças Armadas dos EUA, levaram ao desfecho vergonhoso para uns e trágico para milhões. Desde a Guerra do Vietnam, pelo menos, militares de todo o mundo sabem das dificuldades de tropas regulares enfrentarem guerrilheiros em locais com acesso difícil e populações hostis, como era o caso do Afeganistão.

Por outro lado, a ocupação militar e o apoio a líderes políticos locais sem respaldo popular também são estratégias de poder que não se mostram eficientes nos tempos atuais. Novamente trata-se de uma constatação das várias guerras travadas no Oriente Médio nos últimos 30 anos, que tem deixado um longo rastro de terrorismo, genocídios e opressão.

A falácia da “guerra justa”

A Igreja, em sua sabedoria histórica, tem questionado o uso da violência e da força para garantir a paz. As condições para a chamada “guerra justa” (cf. Compendio da Doutrina Social da Igreja, CDSI 497-515) podem ser sumarizadas numa frase: só é justa a guerra que é inevitável. Geralmente, o próprio fato de se ter que justificar uma guerra já atesta que ela é injusta, pois poderia ser evitada.

Já em seu discurso para o Dia Mundial da Paz de 2002, São João Paulo II alertava para o perigo de uma reação militar desproporcional ao terrorismo, que não criasse uma paz efetiva. Os EUA estavam ainda em choque com o atentado de 11 de setembro, mas a imprensa norte-americana identificou no discurso um claro alerta para o perigo do emprego excessivo da força no Afeganistão, que havia sido invadido para combater os terroristas da Al-Qaeda.

“Desenvolvimento é o novo nome da paz”, concluía São Paulo VI na encíclica Populorum progressio. Mas o Afeganistão, apesar de todo o investimento militar norte-americano e do avança recente no reconhecimento dos direitos humanos, permanece um dos países com menores índices de desenvolvimento humano (IDH, que reflete a situação de renda, saúde e educação da população).

Governos sem legitimidade levam à violência

Apesar de formalmente democrático, o governo afegão não contava com apoio popular. Nas últimas eleições, votaram apenas 1,8 milhão de habitantes, numa população de 39 milhões. A corrupção era reconhecidamente endêmica.

O exército afegão, apesar de muito bem armado, não recebia suprimentos adequadamente e estava desmotivado. Rendeu-se a tropas mal equipadas, muito inferiores numericamente, mas fortemente motivadas. Seus modernos equipamentos e armas desfilam agora sob o controle talibã. O investimento armamentista norte-americano na região enriqueceu a indústria bélica dos EUA, mas agora serve aos seus inimigos.

A vitória talibã mostra a todos nós que o bem comum não pode ser construído com a violência e alianças corruptas. O uso da força é sempre a última alternativa e, se absolutamente necessário, deve cessar assim que possível. Raiva e violência trazem mais raiva e violência, numa espiral que só pode ser parada pelo perdão e o diálogo sincero. Muitos se aliam a corruptos para conseguir o poder ou manter-se nele. Tais estratégias podem garantir ganhos pessoais, geralmente pouco lícitos, mas não o bem comum.

E se o Afeganistão fosse aqui?

De tempos em tempos, os brasileiros criam certas identificações com as tragédias de outros países e muitos passam a agir orientados pelo temos (nem sempre realista) de que coisas semelhantes aconteçam entre nós.

Assim foi, por exemplo, com o “efeito Orloff”, “eu sou você amanhã”, que ameaçava os brasileiros de terem no futuro uma crise econômica similar à da Argentina. Até hoje ouvimos falar do perigo de nos tornamos uma grande Cuba – ou então que o PT ou Bolsonaro vão nos transformar numa nova Venezuela…

Não temos esse medo em relação ao Afeganistão. Nenhum grupo fundamentalista parece ameaçar seriamente nossa democracia. Contudo, a tragédia daquele país nos mostra ao menos duas lições importantes: não apostar na violência nem deixar-se levar pela raiva, não imaginar que alianças com corruptos poderosos poderão nos garantir a paz e o nem estar social.

O compromisso cristão – e de todas as pessoas de boa-vontade – é com a política melhor, nas palavras do Papa Francisco na Fratelli tutti. nunca com a violência e a eliminação física ou moral do outro.

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