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A lição que aprendi com a morte do meu irmão mais novo

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izzzy71 | Shutterstock

Cerith Gardiner - publicado em 07/10/21

Minha experiência de infância ajudou a moldar minha relação com a eternidade ao longo da minha vida

Hoje, meu irmão mais novo, Paulo, faria 43 anos. Infelizmente, ele não chegou ao seu primeiro aniversário — ele morreu quando tinha apenas 11 meses de idade. Eu tinha 6 anos na época, e os eventos em torno de sua morte e funeral marcaram toda a minha vida — de uma maneira estranhamente positiva.

Mesmo antes do nascimento de Paulo, ficou claro que ele seria um bebê especial. Na noite anterior à minha mãe ir ao hospital para dar à luz, nossa vizinha (a quem meus quatro irmãos mais velhos apelidaram de “Santa dona Maria” por causa de sua forte fé) veio à nossa casa e deixou uma garrafa de água benta. Ela não tinha feito isso em nenhum dos cinco nascimentos anteriores da minha mãe.

O nascimento de Paulo seria o parto mais doloroso de minha mãe entre todos os seus nove filhos. Ele nasceu com síndrome de Apert, um distúrbio genético que resulta em deformidades no crânio e nos membros. Meus pais não tinham ideia de que seu filho tinha essa síndrome; naquela época, os exames necessários não estavam disponíveis.

Expectativa

No caso de Paulo, os dedos de suas mãozinhas eram colados uns nos outros, sua cabeça tinha má-formação e seus pulmões estavam fracos. Mas os médicos acreditavam que ele levaria uma vida “normal”.

Hoje, a expectativa de vida de um bebê com Apert é a mesma de qualquer outra criança, e graças a cirurgiões qualificados, muitas das deformidades podem ser corrigidas. Na curta vida de Paulo, ele fez várias cirurgias e estava prosperando. Na verdade, minhas memórias dele são de visitá-lo no hospital, tomar sorvete ao seu lado e tentar fazê-lo rir.

Quando Paulo tinha cerca de 10 meses de idade, ele pôde vir conosco para a Irlanda para as férias de verão. Estávamos todos animados, pois ele estava indo muito bem. Ele até teria as mãos operadas quando retornássemos à Inglaterra.

Mas quando estávamos na Irlanda, Paulo pegou pneumonia. Foi no final das nossas férias e deveríamos voltar para a Inglaterra para as aulas. A equipe do hospital disse que Paulo estava indo bem. Então meus pais decidiram que o deixariam lá com a presença de um familiar para acompanhá-lo no hospital, enquanto levavam os outros filhos para casa, a tempo de iniciar as aulas. Meu pai retornaria a Dublin em seguida.

A viagem para casa

Estávamos na balsa voltando para a Inglaterra quando meus pais receberam uma mensagem no alto-falante para se dirigir até o capitão. Quando eles voltaram, nos encaminharam para uma pequena sala, onde nos disseram Paulo tinha piorado e não resistira.

A próxima coisa que me lembro é de ver algumas religiosas da nossa paróquia confortando meus pais — elas estavam viajando no mesmo barco. Minha mãe nos assegurou que Paulo não sofreria mais e que ele havia sido chamado para sua casa celestial.

Ao mesmo tempo que havia lágrimas, havia um certo sentimento de paz. O menininho que nos dera 11 meses preciosos de amor já não estava mais conosco.

Meus pais nos disseram que ficaríamos no barco para voltar para a Irlanda. Não me lembro de mais nada antes do funeral em si. Estávamos em uma fila de carros, meus pais em um carro com o caixão de Paulo entre eles, e estávamos seguindo no carro atrás. Lembro-me desse detalhe porque meus irmãos me pediram para correr e pedir doces aos meus pais assim que paramos. Acho que as crianças nunca deixam de ser crianças!

Chegamos à igreja e o caixão de Paulo estava aberto. Todos nós revezamos para ficar um pouquinho ao seu lado. Eu, com 6 anos, estava na ponta dos pés espiando seu caixão todo forrado de branco. Eu realmente pensei que ele era um anjo. Em suas pequenas mãos havia um carneirinho branco de pelúcia e uma rosa. Esses dois detalhes eu nunca esquecerei, pois me lembro de sentir um grande alívio por ele ter algo para confortá-lo.

Após o culto, ele foi colocado no mesmo túmulo que minha avó, que havia morrido apenas um mês antes dele. (Na época, eu não conseguia entender o quão difícil deve ter sido para meu pai perder a mãe e um filho em tão pouco tempo.)

Uma paz duradoura

Lembro-me de estar triste, talvez porque todo mundo estivesse triste e eu pensava que era isso que eu deveria sentir. Mais do que isso, no entanto, fiquei curiosa para saber o que estava acontecendo com Paulo agora depois de sua morte, e se ele estava feliz em seu lugar permanente de descanso. Lembro-me de sentir muita paz; senti que Paulo estava sendo cuidado pela minha falecida avó.

Tenho muito poucas lembranças vívidas da minha infância, mas a morte de Paulo está gravada na minha mente. Mesmo estando triste por meu irmão mais novo ter partido, não senti medo da morte. E esse sentimento ficou comigo durante toda a minha vida.

Às vezes me pergunto por quê. Por que esse evento me marcou tão forte e de maneira tão positiva? Acho que se resume ao fato de que as crianças são naturalmente curiosas. Nada sobre a morte de Paulo estava escondido de mim. Eu o vi deitado em paz absoluta. Eu me senti aliviada por ele “não estar mais com dor”, como meus pais nos disseram, e então eu literalmente não tinha com o que me preocupar.

Todo mundo lida com a morte de maneira diferente, e talvez o momento da morte do meu irmãozinho tenha desempenhado um grande papel na forma como eu lido. Eu estava em uma idade em que podia ter alguma compreensão da morte, sem as ansiedades que uma criança mais velha poderia ter.

Mas se houvesse algo que eu gostaria de dizer ao meu irmão mais novo neste seu aniversário, seria: obrigado pela alegria que você nos deu enquanto esteva conosco, e obrigado por me ensinar que não devemos ter medo da morte.

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FamíliaLutoMorte
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