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A proclamação da verdade num ambiente de cancelamento cultural

JESUS SPEAKING TO CROWD

Public Domain

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 10/10/21

Os cristãos devem sempre proclamar corajosamente a verdade e condenar o erro

Frequentemente ouvimos que devemos ser tolerantes para poder dialogar, pois os cristãos devem amar e procurar a convivência harmoniosa com todos. Mas também ouvimos que essa ideia é, na verdade, uma tibieza dos que tem medo do cancelamento social praticado pela mentalidade dominante (que foi tema do último artigo). Os cristãos, nessa segunda posição, devem sempre proclamar corajosamente a verdade e condenar o erro.

A reflexão cristã nos mostrou, ao longo dos séculos, que a verdade e o amor não podem ser separados um do outro. Assim, como qualquer pessoa que já tenha tido a responsabilidade de educar outra pode testemunhar, a correção fraterna é uma dimensão importante do amor mútuo. E não só na relação educativa! Um casamento no qual os cônjuges não se corrijam mutuamente provavelmente fracassará. Os amigos sinceros também sabem que devem corrigir um ao outro em muitas ocasiões.

Correção não é acusação

O problema não está na correção mútua, e sim na tendência de transformar a proclamação da verdade em denúncia e condenação, um ato de contraposição, não um gesto de amor. Na mentalidade “do mundo”, os erros normalmente são denunciados com vistas à culpabilização e condenação de alguém. Mesmo entre os que se amam, muitas vezes indica-se o erro para culpar o outro, não para ajudá-lo a melhorar. A correção fraterna, proposta no cristianismo (cf. Mt 18,15-20), é um gesto de amor com vistas à conversão mútua. Aquele que corrige também se converte, pois aprende a compreender e se torna mais capaz de amar o outro. A lógica que orienta a correção fraterna é muito diversa daquela que orienta a denúncia pública, ainda que ambas tenham afinidades e uma possa levar à outra.

Uma sabedoria “mundana”, que pode servir a todos nós, é aquela dos grupos que estudam acidentes aéreos e de transportes em geral. Os investigadores fazem questão de frisar que seu objetivo é descobrir as causas dos acidentes, para que elas sejam evitadas no futuro, e não encontrar culpados. Aliás, essas investigações frequentemente mostram que os envolvidos são vítimas antes de culpados pelos erros.

Um exercício de empatia

“Tolerância” é uma palavra ambígua. Originalmente, tem uma acepção que chega a ser supremacista: os “superiores” toleram os “inferiores”. Com o tempo, ganhou um outro sentido, significando uma ausência de preconceitos, que pode chegar à falta de critérios de discernimento – uma posição extremada, que não é obrigatória quando falamos em tolerância, mas frequente.

A correção fraterna implica muito mais empatia do que tolerância. A empatia é a capacidade de compreender o outro, entender suas motivações, comover-se com suas dores e com seus ideais. A tolerância pode ser um aspecto da empatia, que é muito mais ampla. Numa relação empática, as dores do outro se tornam evidentes e dolorosas também para nós. Na perspectiva da empatia, a correção fraterna se torna imprescindível na medida que ajuda o outro a ser mais feliz e não em função da afirmação de nossas próprias ideias.

Tudo isso, que já é difícil no relacionamento interpessoal, se torna muito mais difícil quando se trata da esfera pública, das relações institucionais, da vida cultura e política. Mas são esses, justamente, os desafios que os cristãos devem enfrentar se querem superar o cancelamento e a hegemonia cultural, mantendo-se fiéis à sua inspiração evangélica.

Quando a ordem dos fatores importa

Para começar, temos que entender que, nesse aspecto, a ordem dos fatores altera muito o produto. Revisemos nossa história pessoal: como é diferente a correção feita por alguém que nos ama daquela feita por outra pessoa. A correção pelos que nos amam se expressa como ato de amor, sabemos que aquela pessoa também está triste por ter que fazer a correção. A correção feita por qualquer outro nos constrange, humilha, gera uma reação de negação – mesmo quando sabemos que o outro está certo.

O desafio, de enormes proporções, impossível negar a dificuldade da empreitada, é demonstrar publicamente que é o amor que nos orienta nesse esforço de anunciar a verdade. Demonstrar amor antes de corrigir não é uma atitude piegas ou um pretexto para a omissão, e sim uma aplicação do espírito evangélico às situações concretas de hoje.

Trazer beleza e esperança ao mundo

Na arena social, duas premissas podem nos ajudar a ter uma posição cristã justa. A primeira é compreender que o erro sempre causa uma ferida na humanidade de quem erra. É para curar ou evitar essa chaga que fazemos a correção fraterna. Se não conseguimos identificar e explicitar essa ferida, dificilmente conseguiremos ajudar quem pensa diferente de nós a reconhecer uma postura errada. Sinal claro de que precisamos procurar entender mais a situação do outro, se queremos ser um real auxílio fraterno.

A segunda premissa é que a verdade sempre aponta para o amor, a beleza e a esperança. Uma correção que só denuncia o erro, mas não aponta uma solução na qual transparece o amor, a beleza e a esperança, não é realmente verdadeira – mesmo que formalmente correta. Os fariseus dos tempos de Jesus eram capazes de apontar com precisão o desrespeito à Lei. Para o seu tempo, podiam estar formalmente certos, mas lhes faltava o amor – por isso não conseguiam reconhecer a Verdade diante deles, nem se deixavam contaminar pelo Amor. Se nossa correção só aponta o erro, é sinal de que nos falta a comunhão com Cristo, que pode fazer de qualquer situação uma ocasião para conhecer o Amor e a Verdade – enchendo a vida de beleza e superando a dor com esperança.

Tags:
PolíticaSociedadeVerdade
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