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O parapsicológico, a Divina Providência especial e o milagre

Buisson ardent

Ref:500

Le buisson ardent, loggia de Raphael, musée de l'Ermitage à Saint-Petersbourg.

Vanderlei de Lima - publicado em 21/11/21

O milagre é, pois, a assinatura única e infalsificável de Deus; ora, Ele (e só Ele) o faz onde, quando, como e com quem quer

Diante de um fenômeno intrigante a afetar o campo religioso, a Igreja parte sempre do “princípio da economia”, ou seja, o estudioso católico jamais deve, de antemão, atribui-lo ao além (anjos, demônios, espíritos de mortos etc.), mas ao aquém (a causas naturais). 

A primeira hipótese é: será uma fraude ou algo causado por ou um mero truque de mágica? Uma vez descartada a fraude ou o truque, pensar-se-á em um fenômeno parapsicológico. Ocorrência natural (dos vivos). Exemplo: numa casa, erroneamente chamada de mal-assombrada, onde ocorrem batidas estranhas (tiptologia), vozes misteriosas (psicofonia), movimentos de objetos que ultrapassam lugares fechados (aporte) ou pegam fogo (pirovagia) etc. é muito provável que tenha algum morador da residência causando, inconscientemente, tudo isso. É preciso, então, após averiguar bem os fatos, afastar a pessoa causadora dos fenômenos do local e tratá-la corretamente. 

O sacerdote, se chamado, pode (e até deve) dar uma bênção, mas nunca fazer o Exorcismo, pois este seria ineficaz a um problemático, mas não possesso. Daí a sabedoria da Igreja em proibir, sem mais, os exorcismos. Eles só podem ser feitos, sempre de modo discreto, por um sacerdote dotado de piedade, sabedoria, prudência e integridade de vida com a devida licença do seu bispo (cf. Código de Direito Canônico, cânon 1172, e Congregação para a Doutrina da Fé. Instrução sobre o exorcismo, 24/09/1985).

Outra ação – após o descarte da meramente parapsicológica – é a da Divina Providência Especial (milagre impropriamente dito). Aqui, já entramos na seara da ação divina na natureza: Deus, em sua infinita sabedoria, usa da própria força natural em um momento tão preciso que não deixa dúvidas de Sua ação. Exemplo: a passagem do Mar Vermelho, a pé enxuto, pelos israelitas (cf. Ex 14,5-31) teria se dado por meio de fatores naturais (o local da travessia era transitável e houve um vento favorável). Entretanto, tudo isso ocorrer de modo primoroso e com hora bem determinada, torna a ocorrência uma bela ação especial da Divina Providência em favor do povo eleito (cf. Pergunte e Responderemos n. 471, agosto de 2001, p. 356-360). 

Fenômenos místicos

No nosso modesto entendimento, aqui se enquadram também os fenômenos místicos verdadeiros. Sim, alguns desses fenômenos, em si mesmos, podem ser naturais, mas, quando usados pela graça divina (sobrenatural), tornam-se providenciais. A dificuldade de determinação de campos se dá, em partes, porque os estudiosos tentam colocar um limite que se resume mais ou menos no seguinte raciocínio errôneo: até aqui é ação humana, daqui em diante é Deus quem age. Ora, ambas as ações – a divina e a humana – se mesclam inseparavelmente em grande parte desses casos (cf. Dom Estêvão Bettencourt, OSB. Curso sobre a graça. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2000, p. 137).

Chegamos, por fim, ao milagrepropriamente dito. Ele ocorre quando Deus intervém com sua infinita força sobrenatural ou divina na natureza que, embora maravilhosa, é limitada. Exemplos: a imediata transformação de água em vinho (cf. Jo 2,1-11), a cura instantânea de dez leprosos de uma só vez e à distância (cf. Lc 17,11-19), a ressurreição de um morto (cf. Jo 11,1-43) etc. O milagre é, pois, a assinatura única e infalsificável de Deus; ora, Ele (e só Ele) o faz onde, quando, como e com quem quer.

Por que a Igreja age com essa prudência tão severa? – Porque ela ama a Verdade, não a fantasia. Monsenhor Afonso Carinci, secretário da antiga Congregação para os Ritos, disse, em 1953: “Muitos católicos julgam servir aos interesses de Deus e da Igreja, uns negando o sobrenatural, outros atribuindo quase todos os fenômenos a uma ação sobrenatural. A Igreja, sociedade sobrenatural, admite necessariamente a possibilidade e a existência de fatos sobrenaturais, mas Ela exige, para os mesmos, provas seguras, que pairem acima de qualquer dúvida. Ela quer a verdade, não a probabilidade, por maior que esta seja… A Igreja é amiga da Verdade; recorre a todos os meios para chegar a ela, e não tem escrúpulos em não admitir como milagre um fato que dê ocasião à mínima suspeita de ter sido produzido por um agente natural” (La Documentation Catholique, t. LVI, 07/06/1959, coluna 718).

Reflitamos!

Tags:
DoutrinaIgrejaMilagre
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