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Enquanto a leitura melhora o cérebro, a internet nos deixa menos atentos

READING BOOK,

Alohaflaminggo | Shutterstock

Octavio Messias - publicado em 23/11/21

A chamada leitura profunda favorece a formação de novas estruturas cerebrais, enquanto a leitura fragmentada das redes sociais debilita a chamada atenção executiva

“Quem mal lê mal fala, mal ouve, mal vê.” A frase de Ênio Silveira, falecido editor da Civilização Brasileira, expõe como a leitura (ou a falta de) é determinante de nossa visão de mundo e daquilo que somos. Através da leitura ganhamos repertório de vida, conseguimos entender melhor a realidade, relativizar as questões do nosso tempo com as do passado e desenvolver senso crítico, pensamento analítico e abstrato, assim como a empatia pelo próximo. 

Mais do que isso, como falaremos a seguir, a leitura ajuda positivamente a moldar nosso cérebro. No entanto, com o surgimento da internet, a leitura de livros começou a cair em desuso e a maneira desatenta como navegamos pelas novas mídias está afetando nossa memória e nossa capacidade de atenção. E o resultado disso pode ser devastador para as próximas gerações.

Leitura profunda

Quando estamos imersos em um texto longo, estamos praticando o que se chama de leitura profunda, usamos 99% da nossa atenção, o que gera uma retenção muito maior daquele conteúdo em nossa memória do que quando passamos por várias informações sem o mesmo foco.

Ler é uma ação ativa, que requer um processamento do nosso cérebro para processar, dar significado e armazenar o que está sendo lido. Ao atingirmos tal estágio de leitura, o cérebro em estado meditativo, um processo que reduz os batimentos cardíacos assim como a ansiedade, nos deixando mais relaxados – por isso costuma-se ler livros antes de dormir. 

Mais do que isso, ler afeta a nossa estrutura cerebral, principalmente na segunda infância e na adolescência, quando acontece uma profusão de novas sinapses e nos tornamos uma esponja de conhecimento. O próprio ato de ler altera a física e a química do cérebro em formação, favorecendo o surgimento de novas conexões neuronais que se conectam com mais áreas do cérebro. Esta é a explicação neurológica de um fato incontestável: quanto mais se lê, mais inteligente se fica. 

Atenção executiva

Como ler livros requer uma atenção sustentada, repousada e um foco contínuo, com o hábito desenvolvemos uma habilidade chamada atenção executiva, a mesma que empregamos em um trabalho intelectual ou ao estudar. E neste estágio de atenção absorvemos muito mais o que é lido. 

Já a leitura na internet, ágil e fragmentada, não estimula a atenção e, em consequência, a formaçao de novas memórias. O que tem preocupado neurocientistas, uma vez que a leitura no meio dígital digital não estimula da mesma maneira o pensamento abstrato, que envolve mais sinapses e regiões cerebrais. E como o cérebro é plástico e muda ao longo de toda a vida, o hábito da leitura favorece o pleno funcionamento de faculdades mentais como a memória e atenção. 

A importância da literatura

Quem quiser um incentivo a mais para cultivar o hábito da leitura, basta recordar algumas palavras do Papa João Paulo II em sua famosa Carta aos Artistas. Em seu texto, o Papa destaca a “grande importância” da literatura e das artes na vida das pessoas.

“Elas procuram dar expressão à natureza do homem, aos seus problemas e à experiência das suas tentativas para conhecer-se e aperfeiçoar-se a si mesmo e ao mundo; e tentam identificar a sua situação na história e no universo, dar a conhecer as suas misérias e alegrias, necessidades e energias, e desvendar um futuro melhor”, escreve o Papa, citando a Gaudium et spes.

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