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Em defesa do amor romântico

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 05/12/21

Ideologias contrárias à família e à pureza do amor não convencem pessoas que fazem uma experiência realmente positiva de amor e vida familiar

Poucas coisas são tão desejadas e, ao mesmo tempo, tão desacreditadas em nossa sociedade quanto o chamado “amor romântico” – aquele apresentado na fase áurea do cinema hollywoodiano, nas novelas de televisão tidas como mais ingênuas, nos romances mais piegas. Uma espécie de realismo cínico nos ensina continuamente que esse amor é quase impossível, algo como um prêmio aleatório dado por Deus a alguns poucos escolhidos, servindo muito mais como armadilha para meninas incautas que se entregam a príncipes encantados que, com o tempo, se revelam sapos insensíveis ou lobos violentos.

O movimento feminista tem muito a ver com esse descrédito do amor romântico. Suas críticas ao machismo e ao patriarcalismo mostraram como, de fato, no casamento, um discurso de amor e dedicação muitas vezes encobre relações de opressão, violência, infidelidade e egoísmo. Mas, não nos enganemos, esse descrédito na possibilidade de um amor sincero, que realize os cônjuges, é transmitido também em círculos familiares, quando as mulheres mais velhas ensinam às jovens que “os homens são todos iguais” (isso é, não confiáveis), nas intermináveis piadas na mesa de bar, onde os maridos aparecem como vítimas ingênuas de esposas retratadas como bruxas. Nesses âmbitos, muito distantes do movimento feminista, se respira a mesma desilusão em relação ao amor, se alimenta o mesmo cinismo de que as relações são enganadoras e a entrega ao outro uma falácia que encobre e legitima a dominação.

Ideologias contrárias à família e à pureza do amor não convencem pessoas que fazem uma experiência realmente positiva de amor e vida familiar. Infelizmente, a força dessas ideologias é inseparável das contradições que, de fato, acontecem em nossa sociedade.

O amor romântico e o cristianismo

Tal como apresentado em nossos tempos, o amor romântico pode ser caracterizado por se propor como sendo para toda a vida, exclusivo (os amantes são únicos, um para o outro), incondicional (se mantém mesmo quando o outro não corresponde às expectativas) e implica numa doação total de si. Essas características encontram uma enorme correspondência com as exigências mais profundas do ser humano. Cientistas demonstraram a existência de reações fisiológicas associadas ao estar apaixonado e conseguem explicar até mesmo as vantagens adaptativas que fariam a espécie humana ter mais sucesso na conquista do planeta contando com o amor conjugal. Contudo, mesmo sendo natural ao ser humano, a compreensão e a proposição do amor romântico é uma criação cultural da civilização ocidental – e não pode ser separada da história do cristianismo.

Os termos refletem os parâmetros de um contexto patriarcal do mundo helênico da época, mas é bastante claro o encorajamento ao amor romântico, tal como definido acima, na famosa passagem da Carta aos Efésios: “Vós, esposas, obedecei a vossos maridos, como ao Senhor […] Vós, esposos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja, e a si mesmo se entregou por ela” (Ef 5, 22-25). Para ambos, marido e mulher, a dedicação ao outro é colocada como norma absoluta. Um vive totalmente para o outro – e não mais para si mesmo. A esposa obedece ao marido, mas esse deve amá-la como Cristo amou a Igreja, isso é sacrificando a própria vida por ela.

Com uma certa ironia, mas muita razão, a reflexão crítica moderna observou que as mulheres obedeciam aos maridos todos os dias, enquanto eles se sacrificavam por elas em algumas poucas ocasiões dramáticas. Assim, a passagem bíblica ganhava, na prática, uma realização bem diferente do amor romântico. Esse não é um pecado menor na história do cristianismo. Pelo contrário, é um dos maiores. As sociedades se organizam em torno das famílias. Quando elas não vivem uma verdadeira proposta de amor, as consequências tanto pessoais quanto comunitárias são péssimas.

O amor que é um critério que se aprende

Infelizmente, as novas gerações aprenderam a duvidar do amor, vendo as infidelidades entre os cônjuges (e não me refiro aqui apenas à traição com uma terceira pessoa, mas a todas as pequenas traições que realizamos quando não correspondemos um ao outro). Nunca tivemos tanta liberdade para amar como em nossos tempos, mas essa liberdade parece ter levado mais a um ceticismo do que a uma realização do amor.

A ficção cada vez menos apresenta a perspectiva do “foram felizes para sempre”, ainda que essa expectativa – uma vez apresentada – nunca possa ser totalmente eliminada do coração humana. A proliferação de terapeutas de casais, livros e conselheiros afetivos mostra que a esperança de uma realização definitiva no amor permanece presente, mesmo que desacreditada. Cada ser humano é único, cada casal é um relacionamento único, cada sucesso e cada fracasso têm suas peculiaridades. Generalizações são perigosas nesse âmbito. Contudo, algumas características da apropriação mundana do ideal cristão não podem ser ignoradas.

O ser humano é sempre contraditório, nunca consegue corresponder integralmente aos seus ideais. Não é possível um amor verdadeiro sem o perdão recíproco. Mas o perdão não elimina as consequências dos erros. O perdão se torna conivência e resignação abjeta se não vem acompanhado pelo esforço sincero do perdoado em não repetir o erro.

Além disso, o amor romântico foi apresentado, ao longo do tempo, cada vez mais como um sentimento instintivo. Mas esse é apenas seu aspecto mais superficial e embrionário. Ele cresce, para alcançar a estabilidade, como um critério, um desejo de bem do outro que orienta as decisões nos momentos difíceis. Os pais usufruem o amor dos filhos em momentos de convivência agradável. Mas reconhecem a força desse amor em momentos difíceis, quando são levados a fazer sacrifícios pelo bem dos filhos. Com os casais também é assim. Descobrimos o amor um pelo outro não tanto nos momentos agradáveis, mas nas fadigas que vivemos felizes pelo bem do outro.

Sendo assim, esse amor não é algo instintivo apenas, mas algo aprendido ao longo do tempo. Aprendemos a amar, não apenas aceitando os defeitos do outro e as frustrações do relacionamento, mas descobrindo novas alegrias e novos prazeres na convivência mútua. 

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