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Fraudes por afinidade: golpe pode ameaçar particularmente idosos cristãos

idosos são vítimas de golpe por afinidade

Sam Wordley | Shutterstock

Imagem meramente ilustrativa

Francisco Vêneto - publicado em 15/12/21 - atualizado em 15/12/21

"Guru financeiro" usou rádios cristãs e aparentes "valores em comum" para enganar centenas de fiéis e roubar deles milhões de dólares

Num tristemente didático exemplo do que é uma “fraude por afinidade”, o “guru financeiro” William Neil Gallagher, ou “Doutor Dinheiro”, utilizou uma ampla rede de rádios cristãs dos Estados Unidos para promover seus supostos “serviços” entre fiéis locais, a quem enganava sob as aparências de um respeitável senhor devoto de 80 anos de idade, comprometido com a fé, bem-sucedido profissionalmente e autor do livro “Jesus Christ, Money Master” (Jesus Cristo, Mestre do Dinheiro).

Pelo conjunto de aparentes características, ele se mostrava um consultor de investimentos acima de qualquer suspeita para centenas de aposentados cristãos.

Entretanto, no último mês de novembro, William Neil Gallagher recebeu três sentenças de prisão perpétua que se juntaram a outra condenação prévia, de março de 2020, a 25 anos de prisão. Antes ainda, em março de 2019, suas duas empresas tinham sido fechadas pelo órgão equivalente à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos: a Gallagher Financial Group, Inc. e a W. Neil Gallagher, Ph.D. Agency, Inc, que, até então, eram “louvadas” por terem supostamente “ajudado” mais de mil pessoas a conquistarem a “independência financeira”.

Fraudes por afinidade

Segundo extensa matéria publicada pela rede britânica BBC, o golpista acumulou mais de 32 milhões de dólares mediante “fraudes por afinidade”, ou seja, enganando suas vítimas após conquistar a sua confiança com demonstrações de um aparente conjunto de valores, convicções e estilo de vida semelhante aos delas.

Quanto ao golpe em si, tratou-se neste caso do muito frequentemente utilizado “esquema Ponzi”, também conhecido como “pirâmide financeira”: cada investidor aplica um montante em dinheiro e, após certo tempo, sacaria o valor investido e os juros resultantes, mas esse fluxo de saques só é possível se houver uma constante entrada de novos integrantes ao esquema; isto permite que os primeiros a entrar consigam receber graças ao dinheiro de quem vem entrando na sequência. Quando param de entrar novos participantes, não há mais dinheiro a ser transferido, o que leva o esquema a quebrar, deixando de mãos vazias os que ainda não tinham sido remunerados – normalmente, a maioria dos participantes.

Quando o esquema de Gallagher desmoronou, ele já tinha usado a maior parte dos fundos para gastos pessoais e corporativos e para pagar os investidores iniciais da sua pirâmide.

Cristãos como alvo

O golpista octogenário atraía suas vítimas por meio de anúncios numa popular e tradicional rede de rádios cristãs norte-americanas, que, mesmo com a forte concorrência dos novos meios de comunicação, continua sendo sintonizada fielmente por cerca de 20 milhões de ouvintes, todos os meses. A rede é formada por milhares de estações de rádio espalhadas pelos Estados Unidos. Sua programação traz de sermões a entrevistas, passando por música e notícias, sempre com temática cristã. A rede não é vinculada a nenhuma igreja em particular.

Em seus anúncios na rede, Gallagher alardeava “integridade em tudo o que faz”, declarava “paixão por ajudar as pessoas a se aposentarem mais cedo, mais seguras e mais felizes” e finalizava com uma frase que denotava comunhão de valores espirituais: “Vejo vocês domingo na igreja”.

Uma de suas vítimas é uma mulher de mais de 70 anos que sofre de linfoma e investiu mais de meio milhão de dólares de suas economias da vida inteira. Várias das demais vítimas tiveram que vender a própria casa, pedir empréstimos aos filhos ou voltar a trabalhar para sobreviver.

Lori Varnell, a chefe da equipe de Fraude Financeira contra Idosos, na promotoria do distrito do condado de Tarrant, no Texas, declarou à BBC que este foi “o pior caso de fraude contra idosos” que ela já viu na carreira: “São indivíduos que trabalharam a vida toda para economizar dinheiro. Eles estão arrasados. Não foi apenas o dinheiro. Foi a traição”.

De fato, a traição está no cerne dos golpes descritos como “fraude por afinidade”: o golpista atrai as vítimas ao simular um alto nível de aderência aos seus valores mais estimados, como, neste caso, a fé cristã. Ele emprega “sinais” que levam as vítimas a vê-lo como “próximo”, como alguém ligado ao seu “grupo de afinidade”, o que pode basear-se, por exemplo, em fatores religiosos, étnicos, políticos, ideológicos etc.

Idosos particularmente vulneráveis

A polícia norte-americana afirma que os idosos são particularmente vulneráveis às fraudes por afinidade: além de prezarem os supostos valores pessoais do golpista, grande número dos idosos do país tem relevantes economias acumuladas ao longo dos seus anos de trabalho, o que os torna muito mais atraentes para os fraudadores do que potenciais vítimas jovens. De acordo com o FBI, os prejuízos causados por fraudes contra idosos nos EUA superam 3 bilhões de dólares por ano.

Muitas vítimas de Gallagher depuseram no tribunal sobre o impacto psicológico que sofreram. Susan Pippi, de 74 anos, afirmou: “Eu não confio em ninguém mais. Com exceção de Deus e da minha família”. Além de uma persistente desconfiança de quase tudo e de quase todos, as vítimas também precisam lidar com a vergonha de terem sido enganadas a ponto de perder todas ou quase todas as suas economias de uma vida inteira.

Jovens também podem ser alvo de fraudes por afinidade

Especialistas alertam que as fraudes por afinidade tendem a ficar mais comuns também contra vítimas mais jovens, especialmente no ambiente online: nas redes sociais, por exemplo, os fraudadores têm a possibilidade de atingir públicos maiores, mais rápido e mais facilmente, escondendo-se por trás de contas falsas nas quais conquistam a confiança por meio de aparentes valores ideológicos em comum.

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ConfiançaDinheiroIdosos
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