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As palavras importam, principalmente as palavras dos sacramentos

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Pe. Patrick Briscoe - publicado em 21/02/22

Após a Segunda Guerra Mundial, o intelectual católico Josef Pieper tinha coisas significativas a dizer sobre a linguagem e seu abuso - algo que ainda faz sentido

Em um popular livro infantil, o personagem principal decide, depois de descobrir uma caneta dourada, começar a se referir às canetas exclusivamente como “frindles”. Rejeitando as tentativas de seu professor de inglês de abolir a palavra, o termo “frindle” pega. Com um espírito quase revolucionário, estudantes de todo o país se recusam a usar a palavra “caneta”. O epílogo do livro termina com o professor de inglês enviando ao inventor da palavra “frindle” um dicionário, que incluía sua palavra recém-criada.

O livro encantador levanta questões reais sobre a filosofia da linguagem. Quem determina o que as palavras significam? Os termos são ditados apenas pela convenção e pela cultura? 

No rescaldo filosófico da Segunda Guerra Mundial, o importante intelectual católico alemão Josef Pieper tinha coisas significativas a dizer sobre a linguagem e seu abuso. As mentiras, enganos e manipulações de décadas anteriores levaram esse filósofo a responder de forma brilhante.

Em um ensaio intitulado “Abuse of Language, Abuse of Power”(“Abuso de Linguagem, Abuso de Poder”), Pieper argumenta:

“Palavra e linguagem, em essência, não constituem uma área específica ou especializada; não são uma disciplina ou campo particular. Não, a palavra e a linguagem formam o meio que sustenta a existência comum do espírito humano como tal. A realidade da palavra em vias eminentes faz com que a interação existencial aconteça. E, assim, se a palavra se corromper, a própria existência humana não permanecerá inalterada e imaculada.”

Precisamos de palavras! Elas não pertencem simplesmente a filósofos ou mesmo filólogos. Sem discurso e sem significado será impossível nos entendermos. Seremos incapazes de compartilhar nossas experiências do dia a dia, para não falar de perder a capacidade de manter conversas mais profundas.

O duplo propósito da linguagem

Para Pieper, “as palavras humanas e a linguagem cumprem um duplo propósito”.

Primeiramente, ele argumenta: “as palavras transmitem a realidade”. Usamos palavras para compartilhar observações, transmitir experiências, identificar as coisas como elas são. Em segundo lugar, fazemos isso para compartilhar o que é real com os outros.

Palavras que não conseguem transmitir a realidade são mentiras. Inverdades. Elas falham em fazer o que deveriam fazer! A linguagem requer fundamentação na realidade, o que requer fazer afirmações de verdade.

Vários milênios atrás, o filósofo grego Aristóteles argumentou que a “verdade” é melhor descrita como a adequação da mente à realidade. A verdade é a harmonia de pensar ou conhecer as coisas como elas são, é a conformidade do intelecto com a ordem das coisas.

As palavras – nossa linguagem – carregam essa harmonia. As palavras transmitem a verdade. As palavras importam, objetivamente, muito.

Mas as palavras também são importantes entre nós. Se não tivermos a capacidade de transmitir aos outros essa realidade, estamos falhando no uso da linguagem. As palavras não estão servindo ao seu propósito.

As palavras dos sacramentos

Tudo isso importa profundamente para a compreensão católica dos sacramentos. O poder operativo da graça é transmitido pelo ministro, cujas palavras efetuam o que significam. Não celebramos a Eucaristia dizendo: “Tomai todos e comei, isso é um sinal do meu corpo”. Não! 

O sacerdote reza as palavras das Escrituras: “Tomai todos e comei, isso é o meu Corpo que será entregue por vós”. Estas palavras tornam presente a realidade de Cristo. Ao recitar a fórmula, o sacerdote transforma o pão no Corpo de Cristo.

Mas as palavras por si só não bastam. É por isso que a abordagem filosófica de Pieper é tão rica. As palavras estão se comunicando com alguém.

No caso dos sacramentos, o ministro atua no contexto da Igreja. O diálogo é dela, confiado a ela por Cristo. 

As palavras do batismo

As palavras e os sacramentos foram destaques recentemente devido ao caso de um padre que, por mais de 20 anos, não usou as palavras da Igreja para realizar batismos nos Estados Unidos e no Brasil.

Sobre isso, alguém comentou nas redes sociais: “A crise do batismo da Igreja Católica é fabricada. A fé é maior que a gramática. Amém.” 

Outra pessoa escreveu que pensar cuidadosamente sobre as fórmulas dos sacramentos é como “tratar as palavras tradicionais do batismo como uma senha de computador”.

Mas, como Pieper nos ajudou a ver, as palavras importam porque a realidade é uma coisa. E as palavras transmitem ideias aos outros.

Humildade diante das palavras 

Quer gostemos ou não das palavras dos sacramentos, elas exigem que nos submetamos humildemente diante da realidade e diante da Igreja. Podemos ter nossas próprias ideias e preferências, mas, no fim, elas só farão sentido se nos agarrarmos a elas com mais vigor do que à linguagem da comunhão dos crentes. 

O mundo sofrerá porque a inteligibilidade do Evangelho sofrerá com nossa falta de clareza. E nós mesmos sofreremos, distorcendo nossas mentes para estarmos mais distantes daquilo que é e daqueles a quem somos chamados a amar.

Sim, Deus é mais poderoso do que nossas ideias e palavras. Sim, Ele é mais misericordioso também. Mas nenhum desses princípios considera suficientemente o poder – ou o abuso – da linguagem.

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ComunicaçãoFilosofiaIgrejaSacramentos
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