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O Dia da Mulher em tempos de guerra

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Photo by Dimitar DILKOFF / AFP

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 13/03/22

Um exemplo excelente para percebermos os perigos tanto de um feminismo ideológico quanto de um machismo igualmente ideológico

Acabamos de comemorar mais uma vez o Dia Internacional da Mulher. Existe uma certa polêmica sobre qual teria sido o evento que levou a comemoração a acontecer em 8 de março. Alguns associam a data a movimentos feministas norte-americanos e, particularmente, a um incêndio ocorrido em Nova York e que matou 129 mulheres operárias. Mas essa tragédia aconteceu em 25 de março de 1911. O evento marcante, ocorrido em 8 de março de 1917, foi uma manifestação e greve de mulheres operárias em São Petersburgo, na Rússia, pedindo pão e paz, para que seus homens não fossem aos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial. É bom lembrar dessa origem russa e pacifista das comemorações do Dia Internacional da Mulher, num momento em que a Rússia é a potência invasora da Ucrânia e que a própria população russa se mostra dividida sobre a guerra (fala-se em mais de 12 ou 14 mil russos presos por protestarem contra o conflito).

Essa associação entre a mulher e a paz vai mais longe. Nos tempos atuais, ficou bem conhecido o “Women Wage Peace” (“Mulheres que sustentam a Paz”), que reúne mulheres israelenses e árabes em busca da paz no Oriente Médio. Também são famosas as histórias de grupos de mulheres que fizeram a chamada “greve de sexo” para obrigar seus maridos a abandonarem os conflitos e sentarem-se à mesa para dialogar. A mais famosa, provavelmente, foi a promovida por Leymah Gbowee, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, que ajudou a encerrar a guerra civil na Libéria, em 2003. Os exemplos dos esforços das mulheres pela paz são muitos na história…

A guerra e o falso culto à virilidade

Indo no sentido contrário, encontramos nas redes sociais posicionamentos favoráveis à invasão da Ucrânia invocando uma suposta reação à ideologia de gênero, uma afirmação do valor da virilidade. Até mesmo um alto dignitário da Igreja Ortodoxa Russa encampou esse discurso para legitimar a guerra. Ora, a doutrina católica considera a ideologia de gênero como um erro antropológico e cultural, mas não admite qualquer forma de violência contra as pessoas homossexuais, menos ainda o ataque militar a uma nação inteira, como forma de afirmar a virilidade da cultura dos agressores. Ideologias são vencidas pelo bem, alicerçado na verdade, não pela força bruta. Discursos desse tipo, legitimando a guerra, apenas demonstram uma visão deturpada do que são a virilidade e a masculinidade – tornando ainda mais evidente a contribuição do olhar tipicamente feminino sobre a realidade.

Algumas vezes, se torna difícil perceber o erro, quando ele traz pequenas consequências ou quando ele se tornou muito frequente. Nossa sociedade convive, historicamente, com uma visão deturpada do que seja a masculinidade e a virilidade – que se tornam frequentemente associadas à prepotência e à brutalidade. É uma visão que muitas vezes passa desapercebida, associada a uma ideia de retidão moral, força de vontade ou esforço por um ideal. Percebemos com mais clareza que essa ideia pode estar vinculada à violência e a prepotência quando se manifesta numa briga entre torcidas, que termina com feridos e até mortos, num episódio de violência doméstica ou, numa situação extrema, na legitimação de uma guerra.

Mas essa imagem distorcida da virilidade, infelizmente, nos acompanha em muitas situações cotidianas, que nos parecem inofensivas ou pouco ofensivas – mas que são como que o “ovo da serpente”. Elas legitimam, de um lado, a violência e a brutalidade – vistas como “coisa de homem”; e de outro a própria ideologia de gênero – vista como uma contraposição válida a essa visão agressiva da vida.

A falsa feminilidade

A uma visão falsa do masculino, corresponde uma visão falsa do feminino. Nessa visão deturpada, o carinho, o desejo de paz e concórdia são vistos como sinais de fragilidade, adequados a pessoas submissas. As mulheres, tendo um físico adaptado à maternidade, com menor força muscular, estariam destinadas a essa posição subalterna – que pode ser até amada pelos homens, mas que não pode aspirar a um verdadeiro protagonismo no mundo. Essa visão pode ser até piorada, com estereótipos que consideram a mulher menos inteligente e coisas semelhantes.

Um erro sutil, em nosso contexto cultural, é acreditar que a mulher, para poder vivenciar toda a sua dignidade, teria que se igualar ao estereótipo masculino deturpado. Elas teriam que assumir o comportamento agressivo característico dessa falsa virilidade citada acima. Teriam que ter um comportamento dominador, impor-se pela força, adotar um comportamento autocentrado e até um certo egoísmo.  Assim como a agressividade machista passa muitas vezes desapercebida, esse feminismo agressivo também passa desapercebido ou é legitimado como necessário para que a mulher possa se autoafirmar.

Cultivar as virtudes

O ser humano tem uma série de características biológicas, que de muitas formas condicionam seu modo de se relacionar com as coisas. Não podemos voar como os pássaros ou respirar na água como os peixes. Mas podemos, com nossa inteligência e com o saber acumulado ao longo da história, construir aviões e barcos. O que caracteriza o ser humano é justamente o fato de não ser nem só orgânico, nem só cultural, mas uma síntese entre natureza e cultura, que acontece ao longo da história das civilizações e da história pessoal de cada um de nós.

Seria ridículo pensar que “mulheres são de paz” e “homens são da guerra”, como se não pudesse haver homens pacíficos e mulheres guerreiras. Porém, seria irrealista não reconhecer que, por uma série de fatores, entre os quais o mais relevante provavelmente seja a maternidade, as mulheres foram aquelas que melhor representaram a sabedoria da paz.

Esse é um exemplo excelente para percebermos os perigos tanto de um feminismo ideológico quanto de um machismo igualmente ideológico. O desejo de paz é um valor para todos. Já que se apresentou mais forte entre as mulheres, os homens devem fazer um esforço maior para aprender com elas. As mulheres, por sua vez, mesmo com novas funções sociais, devem continuar cultivando essa virtude que as marcou ao longo da história.

Complementariedade e igualdade não se excluem mutuamente, pois referem-se a esferas diferentes da vida. Erros e virtudes não são prerrogativas de um sexo ou de outro, mesmo quando historicamente parecem mais associados a uns do que a outros. Na justa complementariedade entre os sexos, ambos colaboram juntos, cada pessoa dando o melhor de si à outra, para cultivar as virtudes e superar os erros. Assim deve ser também na busca pela paz.

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