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A diplomacia do Vaticano é única: a Santa Sé “não mente nem engana”

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VICTOR GAETAN

Photo Courtesy of Victor Gaetan

I.Media para Aleteia - publicado em 25/03/22

O perito em diplomacia do Vaticano explica como o Papa e a sua equipa diplomática têm uma abordagem única do conflito na Ucrânia, fundada no direito natural

Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia a 24 de Fevereiro de 2022, o Papa Francisco tem estado particularmente ativo, fazendo numerosos apelos à paz, falando diretamente com o Patriarca ortodoxo russo Kirill e o Presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, e enviando dois cardeais para apoiar os refugiados.

Para compreender a abordagem diplomática do Papa Francisco e da Santa Sé a este conflito, I.MEDIA falou com Victor Gaetan, um perito em diplomacia do Vaticano. Originário da Roménia, o autor de God’s Diplomats (Diplomatas de Deus) vive atualmente em Washington, DC, e é um colaborador regular da revista Foreign Affairs e do National Catholic Register.

Os três princípios que caracterizam a diplomacia da Santa Sé estão a trabalhar nos bastidores, construindo conexões para o diálogo e a mediação. Para a Santa Sé, diálogo diplomático significa não competir com o interlocutor ou tentar contestá-lo, mas ter absoluta independência e objetividade. Significa uma verdadeira mediação através da escuta.

Como é que a resposta da Santa Sé ao conflito na Ucrânia se enquadra na sua abordagem diplomática geral?

A resposta atual da Santa Sé está de acordo com a sua ação diplomática tradicional em conflitos. Por exemplo, o Papa e a sua equipa diplomática, liderada pelo Cardeal Pietro Parolin [Secretário de Estado], não culpam nenhuma parte específica. Trabalham também nos bastidores a fim de reunir diferentes partidos, sem nunca se envolverem em análises políticas públicas ou especulações.

Apontarei, por exemplo, a visita sem precedentes que o Papa Francisco fez a 25 de Fevereiro à embaixada russa junto da Santa Sé, de onde falou com o Patriarca Kirill. Tudo isto foi calmo: ouvimos dizer que esta visita incomum aconteceu, mas a Santa Sé não comentou mais nada. Esta visita, porém, lançou as bases do que foi anunciado publicamente mais tarde, a 16 de Março, que foi quando o Santo Padre falou [através de vídeo-chamada] ao Patriarca Kirill. Foi-nos dado um histórico mais completo da conversa, com os pontos discutidos entre os dois. Para se chegar a essa conversa, algo mais discreto teve de acontecer antes, que foi a visita sem precedentes à embaixada russa.

Por que o intercâmbio entre estes dois líderes religiosos é significativo neste contexto?

É significativo em primeiro lugar devido ao papel da Igreja Ortodoxa na Rússia. Depois do comunismo, assistimos ao renascimento do cristianismo na Rússia. Pela primeira vez após mais de 100 anos, a Igreja Ortodoxa Russa já não estava submetida ao Estado, mas trabalhava em harmonia com ele, tanto na política interna como na política externa. Assim, o Patriarca e a Igreja Ortodoxa na Rússia têm uma enorme influência sobre o Estado. Com isto em mente, é essencial contactar e tentar exercer influência sobre o Estado através do Patriarcado.

A forma como isto foi construído é também muito importante. Esta excelente relação que o Papa Francisco tem hoje com o Patriarca Kirill é algo que tem vindo a construir há mais de 30 anos. Tudo começou em 1988, quando uma grande delegação do Vaticano se deslocou à Rússia para a celebração do Milénio [marcando 1000 anos de cristianismo ortodoxo russo] e também se encontrou com o Presidente Gorbachev. A relação entre o Vaticano, a Rússia e a Igreja Ortodoxa tem estado em curso há 30 anos.

Este intercâmbio oficial entre Francisco e Kirill já teve repercussões mais amplas?

Sim, outro elemento diplomático muito importante é que, na sequência do encontro virtual do Papa Francisco com o Patriarca Kirill, o Arcebispo de Cantuária, Justin Welby, também falou com o Patriarca. O Arcebispo Welby expressou quase literalmente as mesmas preocupações, e enfatizou a necessidade de diplomacia.

Isto é importante porque o Arcebispo de Cantuária trabalha absolutamente em conjunto com a Coroa Britânica e o Gabinete do Primeiro-Ministro. Estas conversas têm várias dimensões, uma vez que o Patriarca Kirill também comunica-se diretamente com o Presidente Putin. Esta é uma das características da diplomacia da Santa Sé, e em particular a do Papa Francisco: envolver múltiplos líderes religiosos a fim de trazer os mesmos resultados de paz, preservação dos sacramentos, ajuda humanitária aos que estão em zonas de guerra e assim por diante. Esta estratégia da diplomacia do Vaticano não poderia ter sido implementada se o Papa ou o Secretário de Estado tivessem feito declarações belicosas publicamente.

À luz da decisão do Papa Francisco de consagrar a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração da Virgem Maria, podemos dizer que a espiritualidade está a tornar-se parte dos instrumentos diplomáticos utilizados pelo Vaticano?

Isso é absolutamente significativo. A Rússia já foi consagrada à Virgem Maria pelo Papa João Paulo II em 1984 e depois voltou a ser em 1989, num momento muito importante das relações entre a Santa Sé e o governo da União Soviética.

Então porque é que o Papa Francisco decidiu refazer isto agora? Tem um forte valor diplomático, bem como um valor espiritual. É a pedido dos bispos católicos romanos da Ucrânia, que pediram e assinaram uma petição para que Francisco fizesse esta bela e fascinante iniciativa.

A Igreja Católica Romana na Ucrânia tem sido, desde a independência, praticamente posta de lado pela Igreja Católica Grega no país. Desde o início, a primeira tem estado mais próxima das autoridades locais e centrais, adquirindo mais propriedades. O que o Papa Francisco está a fazer, na minha opinião, ao ler as nuances diplomáticas, é reconhecer e realçar o valor histórico da Igreja Católica Romana, que por acaso é maioritariamente de etnia polaca na Ucrânia.

A Santa Sé também tem prestado uma grande ajuda humanitária. Como é que isto se enquadra na diplomacia do Vaticano?

A vertente humanitária tem passado pela Cáritas, que está totalmente empenhada na Ucrânia e tem estado, desde o início da guerra, distribuindo alimentos e medicamentos e assim por diante. A Cáritas trabalha no terreno, ajuda toda a gente e está muito bem organizada.

Outra ferramenta ou instrumento da Santa Sé são os “emissários” que são enviados para o terreno. Eles têm três dimensões: a dimensão humanitária, a dimensão ecuménica e a dimensão diplomática. A dimensão ecuménica significa que eles se encontram com diferentes líderes religiosos, por exemplo. A dimensão diplomática significa que comunicam e recolhem informações do campo, através de missionários, líderes locais, etc. Trabalham com mapas étnicos e linguísticos, por exemplo, em vez de mapas militares. Isto é feito de modo a obter a realidade da situação que é depois apresentada ao Papa e aos seus diplomatas em Roma e as decisões são tomadas a partir daí, para os ajudar a tomar decisões objectivas.

O Papa Francisco enviou os cardeais Krajewski e Czerny à Ucrânia nas últimas semanas para mostrar o seu apoio. Qual é o significado disso de um ponto de vista diplomático?

Este passo não é sem precedentes. O Papa Francisco usa frequentemente os cardeais para os enviar para áreas para negociações sensíveis ou para reuniões não oficiais. Embora os dois cardeais em questão não sejam diplomatas, uma vez que não fazem parte da Secretaria de Estado, é outra forma de o Papa Francisco exercer o seu pleno e incansável compromisso a fim de ser paz.

Diria que a diplomacia da Santa Sé é única?

Sim, ela destaca-se como absolutamente única. A Santa Sé não tem interesses militares ou materiais, não tem comércio. O trabalho deriva apenas da lei natural, que está imbuída em todos nós, de saber profundamente o que é bom e o que é mau. A Santa Sé atua como independente, totalmente objetiva e desprovida de interesse particular. Adquiriu credibilidade, uma vez que não mente nem engana. É credível e de confiança, portanto, sim, única.

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