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Publicidade apelativa de Burger King e McDonald’s: qual a reação católica?

BURGER KING

@bailensj

Francisco Vêneto - publicado em 04/05/22 - atualizado em 04/05/22

Entre ataques à fé católica e propaganda enganosa: resta algum mérito à "junk food"?

A expressão “junk food”, em inglês, pode ser traduzida literalmente como “comida lixo”. A criação do termo é atribuída a Michael Jacobson, diretor do Center for Science in the Public Interest, em 1972, para referir-se criticamente a alimentos que, no geral, contêm níveis reduzidos de nutrientes, mas alto teor de gorduras saturadas, açúcares e calorias.

“Comer porcarias”

O conceito de “junk food” tem aplicação ampla, abrangendo desde refrigerantes e salgadinhos até frituras, balas e biscoitos industrializados, além de “fast food” como hambúrgueres e batatas fritas. No português brasileiro, comer “junk food” costuma ser popularmente descrito, de modo autoexplicativo, como “comer porcarias”.

Embora o consumo ocasional de “junk food” não acarrete necessariamente graves problemas à saúde, o hábito de fazê-lo com regularidade aciona fortes sinais de alerta. Em excesso, a “junk food” oferece riscos como o desenvolvimento de diabetes e doenças cardiovasculares, por exemplo.

Comida “mumificada”?

O uso de conservantes químicos é outro aspecto tão controverso que se tornou folclórico.

Em sua defesa, o McDonald’s refuta as alegações sobre uso desproporcional de conservantes químicos dizendo que a incomum “duração” dos seus lanches se deve a processos de preparo em que a maior parte da umidade é eliminada. Seja qual for a explicação, costuma chamar a atenção o fato de que, diferentemente dos alimentos que se decompõem de modo natural em espaços curtos de tempo, há casos de lanches dessa rede que “resistem” ao longo de… décadas.

Existe, a título ilustrativo, um “exemplar” de lanche do McDonald’s que chegou a ficar exposto durante alguns anos no Museu Nacional da Islândia: trata-se do último pacote de hambúrguer e batatas fritas vendido pela rede naquele país, onde as lanchonetes foram fechadas em 2009. O islandês Hjortur Smarason comprou o combo para guardá-lo e verificar quanto tempo levaria para que os lanches se decompusessem. Smarason o deixou guardado numa sacola plástica em sua garagem – mas, com o passar dos meses, não notou mudanças. Em 2012, entregou o hambúrguer ao Museu Nacional da Islândia, que, alguns anos depois, o devolveu a Smarason alegando que a instituição não tinha condições de preservar um hambúrguer. “Acho que eles estavam errados, porque esse hambúrguer se preserva”, retrucou Smarason, que manteve a “iguaria” exposta ao público no hostel Snotra House, ao sul do país.

Não foi um caso isolado. Em 1995, os australianos Eduard Nitz e Casey Dean, que tinham entre 13 e 14 anos, compraram lanches do McDonald’s para si mesmos e para um amigo, Jono, que não apareceu. Os jovens resolveram guardar o hambúrguer para Jono, mas, depois de 6 meses, viram que o lanche ainda não tinha se decomposto. Os meses viraram nada menos que 20 anos até que Casey foi entrevistado pelo Channel 10, em 2015, e aproveitou a oportunidade para mostrar ao público o sanduíche com queijo guardado numa caixa: “É sólido como um tijolo”, registrou o guardião do hambúrguer, acrescentando que a aparência do lanche, porém, ainda se mantinha como a de um “hambúrguer comum de fast-food que as pessoas consomem todo dia”.

O que pareceria o cúmulo, no entanto, veio a ser assombrosamente superado por uma surreal “descoberta” feita há poucos dias, em abril de 2022. No dia 16, o casal norte-americano Rob e Gracie Jones estava reformando sua casa em Crystal Lake, a 80 quilômetros de Chicago, quando encontraram uma sacola do McDonald’s que havia ficado esquecida durante absurdos 60 anos atrás de uma parede do banheiro. Em declarações à rede CNN, Gracie contou que “Rob estava substituindo o antigo acessório de papel higiênico quando notou um pedaço de pano enrolado dentro da parede”. Ao abrirem a bolsa, encontraram, incrédulos, duas embalagens de hambúrguer e “algumas batatas fritas meio comidas”, que estavam “crocantes e marrons”. Pesquisando o logotipo na bolsa, concluíram que ela foi usada pelo McDonald’s entre 1955 e 1961. Descobriram ainda que uma das lanchonetes da rede em sua região foi construída na rua de sua casa em 1959, o mesmo ano em que a própria casa tinha sido construída.

Propriedades “viciantes”?

Além de produzir esse “fenômeno” das décadas de conservação que, para muita gente, recorda nada menos que a “mumificação”, a intervenção artificial nesse tipo de “junk food” se vale de ingredientes que realçam poderosamente o sabor, a fim de potencializar ao máximo a “vontade frequente” de comer esse tipo de alimento.

De fato, uma pesquisa realizada no Hospital Infantil de Boston apontou que o consumo frequente de “junk food” incentiva um hábito de consumo cada vez mais exacerbado desses mesmos alimentos. Há estudos (como este, disponível no portal da National Library of Medicine, do governo dos Estados Unidos) que indicam que a combinação de açúcares e gorduras pode estimular as mesmas partes do cérebro que são excitadas por drogas ilícitas – o que chama a atenção para as potenciais propriedades literalmente “viciantes” desse tipo de alimento.

O trunfo do “sabor”

Com tantas características pouco “estimulantes” para quem as considera com atenção, a “junk food” depende radicalmente da potencialização artificial do “sabor” como trunfo para sobreviver no mercado – sobretudo num mercado que desperta cada vez mais para os sérios prejuízos da má alimentação.

E, para a máxima efetividade desse trunfo, é decisivo o papel da publicidade – que, no entanto, tem escorregado feio.

“Publicidade junk”

Há poucos dias, o McDonald’s se viu obrigado a retirar do seu cardápio, em todo o Brasil, os sanduíches de uma linha ostensivamente publicizada como McPicanha porque, vejam só, não continham um mísero grama de picanha.

A empresa recebeu notificações do Ministério da Justiça e do Procon-SP, que cobraram explicações. O Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) também anunciou que investigaria a campanha publicitária do McDonald’s sobre o suposto sanduíche de picanha sem picanha. O McDonald’s Brasil, em nota, pediu desculpas “se o nome escolhido gerou dúvidas” e procurou justificar-se alegando que o sanduíche havia sido batizado em referência a um “exclusivo molho sabor picanha“.

Poucos dias depois, uma das maiores concorrentes mundiais do McDonald’s, a rede Burger King, admitiu que o seu sanduíche Whooper Costela não tem costela. A rede confirmou ao portal InfoMoney que esse hambúrguer é feito com paleta suína e “leva em sua composição aroma de costela 100% natural sem qualquer ingrediente artificial”. Entretanto, o Burger King sustenta que não incorreu em propaganda enganosa porque “sempre comunicou com clareza” que o Whooper Costela não continha costela no hambúrguer. A suposta clareza, porém, é questionável: na peça de propaganda em vídeo sobre esse lanche, um dos personagens comenta: “Hambúrguer de costelinha, né?”, ao que o apresentador responde: “Carne grelhada no fogo sabor costela suína”. Colocadas dessa forma, são informações que se prestam a interpretações dúbias.

Burger King zomba de Cristo em plena Semana Santa

A publicidade duvidosa dessa mesma rede de “junk food” zombou de Cristo em plena Semana Santa, na Espanha, e depois apresentou um esfarrapado pedido de desculpas que reflete o surrado padrão de primeiro provocar para gerar burburinho e, diante das reações negativas, alegar, hipocritamente, que “não pretendia ofender ninguém”.

A campanha de divulgação de produtos vegetarianos da rede atacava um dos mais sensíveis e queridos pilares da fé católica: a Presença Real de Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Os anúncios arremedavam explicitamente as palavras sagradas de Jesus Cristo na Última Ceia, com as quais Ele instituiu o Sacramento do Seu Corpo e Sangue entregues em sacrifício pela redenção da humanidade:

“Tomai e comei todos dele. Não tem carne. 100% vegetariano. 100% sabor. Big King Vegetal”.

Outro anúncio, na mesma linha de irreverência e insensibilidade religiosa, mostrava a frase “Carne da minha carne”, mas riscando a palavra “carne” e substituindo-a por “vegetal”.

A medíocre campanha publicitária, previsivelmente, indignou milhões de católicos no país e gerou críticas públicas de fiéis leigos e do clero. Dom José Ignacio Munilla, bispo da diocese de Orihuela-Alicante, comentou que, “pelo visto, a perda do gosto culinário e a falta de respeito pelos sentimentos religiosos caminham de mãos dadas”. As reações negativas viralizaram e a hashtag #BoicotBurgerKing ganhou alcance nas redes sociais.

O Burger King apelou então para a batidíssima justificativa padrão de que “nunca teve a intenção de ofender ninguém”:

“Pedimos desculpas a todos aqueles que se sentiram ofendidos pela nossa campanha destinada a promover nossos produtos vegetarianos na Semana Santa. A nossa intenção nunca foi ofender ninguém e já foi solicitada a retirada imediata da campanha”.

A patética nota de “desculpas” foi veiculada no domingo de Páscoa pela conta oficial do Burger King na Espanha, mas não convenceu os católicos.

De fato, quem é que, em sã consciência, consegue acreditar que, após 2.000 anos de cristianismo, particularmente nos países de mais arraigada história e cultura cristã, uma marca de alcance global, com décadas de experiência no mercado e na publicidade, iria de fato desconhecer a importância fundamental da Santíssima Eucaristia no próprio núcleo da fé de mais de um bilhão de pessoas?

Reação católica: repensando hábitos

A reação católica aos episódios envolvendo essas redes de “junk food” não se restringe a deplorar o ataque à sensibilidade religiosa perpetrado pela campanha espanhola do Burger King na Semana Santa.

Para começar, cabe lembrar que cuidar responsavelmente da própria saúde é uma virtude cristã constantemente ressaltada pela Igreja. A doutrina católica recorda que a gula é um pecado capital. Sendo pecado, consiste no ato de comer irresponsavelmente, indo além do necessário para uma nutrição saudável ou mesmo contrariando a nutrição saudável, cedendo-se ao prazer desmesurado de comer como fim em si mesmo. E sendo pecado capital, a gula é “cabeça” de outros pecados, já que o termo “capital”, nesse contexto, se refere ao fato de que esse tipo de vício leva a outros, num ciclo crescente em que uma fraqueza atrai a próxima. O potencial destrutivo do pecado da gula é bem evocado por São Paulo em sua carta aos filipenses, na qual ele faz menção àqueles “cujo deus é o ventre” (cf. Fl 3,19).

Além disso, os católicos têm diante da sua consciência a responsabilidade de avaliar se as lanchonetes dessas redes de “junk food” merecem o seu dinheiro a partir de uma perspectiva ética, dados os episódios em que a publicidade dessas empresas vem apelando, de modo leviano, a expedientes que variam de ataques à sensibilidade religiosa até informações que induzem grosseiramente ao erro no tocante aos ingredientes dos hambúrgueres.

Não custa refletir: para além do alegado “sabor” artificialmente potencializado, resta algum mérito à “junk food” que seja superior aos seus prejuízos?

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