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A defesa da vida integrada a uma economia a serviço da pessoa

Manifestação pró-vida defende fechamento de clínicas de aborto

NurPhoto via AFP

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 15/05/22

Uma visão integrada do direito à vida e da organização da vida econômica é fundamental para uma justa compreensão da mensagem cristã na vida política

Os chamados “princípios irrenunciáveis” (cf. CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política, 2002) se propõem a ser norteadores das escolhas políticas dos cristãos. Contudo, sua aplicação de forma tendenciosa ou parcial frequentemente leva-nos a assumir posições partidarizadas que dividem a comunidade católica e escandalizam os cristãos, tanto de um lado quanto de outro do espectro ideológico. A justa aplicação desses princípios implica em que sejam vistos em sua integralidade, sem abdicar de qualquer um deles em favor de outro ou imaginar que possam ser relativizados para que nossos candidatos e partidos cheguem ao poder.

No confronto eleitoral deste ano, dois princípios irrenunciáveis aparecem como bandeiras de candidatos diferentes: a defesa da vida, pensada em termos principalmente de condenação ao aborto e à eutanásia, e a economia a serviço da pessoa. Na doutrina social católica, contudo, esses princípios não aparecem desvinculados. Fatalmente nos afastamos dos ensinamentos cristãos se imaginamos que podemos escolher um em detrimento do outro.

Seguindo os passos de São João Paulo II…

O Papa Wojtyla é amplamente reconhecido como ferrenho defensor da vida e contrário ao comunismo, cujos malefícios testemunhou pessoalmente. Sendo assim, seu ensinamento sobre as questões socioeconômicas não pode ser acusado de ideologicamente comprometido com as esquerdas ou coisa parecida. Trata-se de uma referência segura para os católicos que se alinham às doutrinas econômicas liberais pró-mercado.

Pois bem, seguindo a doutrina social da Igreja e o ensinamento de seus antecessores, São João Paulo II reconhecia a propriedade privada e o lucro como direitos humanos, mas subordinados à dignidade da pessoa e ao bem comum (cf. Laborem exercens, LE 14, Centesimus annus, CA 35, Compêndio da doutrina social da Igreja, CDSI 181-184, 340-341). Nessa perspectiva, considerava a opção preferencial pelos pobres como “primado na prática da caridade cristã, testemunhada por toda a Tradição da Igreja. Ela concerne a vida de cada cristão, enquanto deve ser imitação da vida de Cristo; mas aplica-se igualmente às nossas responsabilidades sociais e, por isso, ao nosso viver e às decisões que temos de tomar, coerentemente, acerca da propriedade e do uso dos bens. Mais ainda: hoje, dada a dimensão mundial que a questão social assumiu, este amor preferencial, com as decisões que ele nos inspira, não pode deixar de abranger as imensas multidões de famintos, de mendigos, sem-teto, sem assistência médica e, sobretudo, sem esperança de um futuro melhor” (Sollicitudo rei socialis, SRS 42). Na própria Evangelium vitae, documento maior da defesa da vida, São João Paulo II reúne a defesa da vida e a opção preferencial pelos pobres (cf. EV 32), mostrando que uma não pode ser separada da outra.

… E do Papa Francisco

Baseados no compromisso socioambiental sempre presente nas mensagens sociais do Papa Francisco, alguns tentaram relativizar a defesa da vida em seu magistério, reduzindo-a ao aspecto ecológico. De fato, a dimensão ambiental não pode ser esquecida quando falamos de defesa da vida, na perspectiva do Papa Bergoglio. Contudo, nas próprias palavras de Francisco: “a defesa da vida não se cumpre de uma só forma ou com um único gesto, mas realiza-se numa multiplicidade de ações, atenções e iniciativas; nem diz respeito apenas a algumas pessoas ou a certos âmbitos profissionais, mas concerne cada cidadão e a complexa rede das relações sociais […] a defesa da vida tem o seu fulcro no acolhimento de quem foi gerado e ainda está albergado no ventre materno, envolto no seio da mãe como num abraço amoroso que os une”. Essa passagem evidencia tanto sua firme condenação ao aborto como apresenta a defesa da vida como uma preocupação que concerne a todos nós, em todas as dimensões de nossa vida.

No aniversário de 25 anos da promulgação da Evangelium vitae, por São João Paulo II, o Papa Francisco expôs claramente tanto a importância desse compromisso com a vida quanto sua vinculação com outras mazelas sociais: “Cada ser humano é chamado por Deus a gozar da plenitude da vida; e, tendo sido confiado à solicitude materna da Igreja, qualquer ameaça à dignidade humana e à vida não pode deixar de se repercutir no seu coração, nas suas ‘entranhas’ maternas. Para a Igreja a defesa da vida não é uma ideologia, mas uma realidade, uma realidade humana que envolve todos os cristãos, precisamente porque são cristãos, porque são humanos. Infelizmente, os atentados contra a dignidade e a vida das pessoas persistem até nesta nossa época, que é o tempo dos direitos humanos universais; aliás, estamos diante de novas ameaças e escravidões, e as legislações nem sempre tutelam a vida humana mais frágil e vulnerável”.

A difícil tarefa do discernimento pessoal

Aplicar esses princípios, de forma integrada, na escolha de nosso candidato a um cargo majoritário, quando sabemos que nenhum deles se ajusta de forma inequívoca a todos os princípios, é uma tarefa realmente difícil. Não basta compreendermos os princípios, existem aspectos morais, mecanismos econômicos e relações políticas que devem ser consideradas.

No plano moral, existe sempre o risco de que as declarações dos candidatos sejam falsidades demagógicas. O fato de alguém se declarar a favor da vida ou lutando pelos pobres não quer dizer que ele realmente atue dessa forma. Podemos concordar ou não com a ideia que nossos irmãos têm da moralidade desse ou daquele candidato, podemos tentar dissuadi-lo de sua opinião sobre determinada pessoa, mas temos que reconhecer que se trata de uma avaliação subjetiva, que independe dos princípios de fundo envolvidos.

O mesmo raciocínio vale para as análises econômicas e políticas. Uns poderão julgar que a privatização de empresas públicas ajudará a melhorar as finanças do Estado e a eliminar a pobreza, outro pensará exatamente o contrário. Não se trata de uma questão de fé e a comunidade católica deve olhar para esses debates com liberdade. O importante é que cada um, independentemente da análise econômica e política que faça, se comprometa com o bem das pessoas e a defesa da vida.

Por difícil que possa parecer, uma visão integrada do direito à vida e da organização da vida econômica é fundamental para uma justa compreensão da mensagem cristã na vida política, que supere partidarismos e distorções ideológicas. É um caminho que todos podemos trilhar, se nos abrirmos ao diálogo, à correção fraterna e ao amor à verdade.

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Doutrina Social da IgrejaPolíticaSociedade
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