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O guia beneditino para beber cerveja e vinho

BENEDICT

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Daniel R. Esparza - publicado em 15/07/22

A chave está na Seção 40 da Regra Beneditina, um guia verdadeiramente monástico sobre a bebida

As cervejarias monásticas existem em toda a Europa pelo menos desde o século V. São, na sua maioria, uma tradição beneditina.

Na sua Regula (ou seja, a Regra de São Bento), Bento afirma claramente que os monges devem ganhar o seu próprio sustento e, através do trabalho das suas próprias mãos, também ajudar os pobres. Seguindo a Regra, os mosteiros sempre produziram uma diversidade de bens diferentes – incluindo cerveja e vinho. E, com isto, acabou surgindo um guia beneditino para a bebida.

A cerveja era originalmente um produto bastante barato, considerada uma espécie de pão líquido, mais saudável do que a água e o leite, que eram frequentemente poluídos. Os processos de fabricação e fermentação eliminam todas as bactérias, tornando a cerveja e o vinho alternativas mais seguras.

Os mosteiros do norte e centro da Europa, devido às suas condições climáticas e agrícolas, produziam cerveja. Os que estavam mais a sul, e especialmente em redor do Mediterrâneo, produziam vinho.

As cervejas leves eram produzidas para alimentar crianças em orfanatos monásticos. Com um pint (cerca de meio litro) por dia, na sua maioria feita de aveia, as crianças eram devidamente alimentadas, mantendo os custos da sua hospedagem e alimentação acessíveis.

Além disso, a cerveja evitava e curava certas doenças infantis devido às suas propriedades antibióticas. Por estas razões, os mosteiros produziam-na regular e abundantemente. O vinho era também produzido pelas suas propriedades medicinais (principalmente digestivas), especialmente quando fortificado com ervas e casca de árvores, como no caso do vermute vermelho.

“Da Medida da Bebida”

O capítulo 40 da Regra Beneditina intitula-se “Da Quantidade Adequada de Bebida”. Oferece instruções prudentes, moderadas, e comuns para os monges. Em suma, é o guia beneditino perfeito para a bebida: “Beba moderadamente, e não até ao ponto do excesso”. O capítulo, que é bastante curto (pois vai direto ao assunto), diz o seguinte:

Cada um recebe de Deus um dom particular, este de um modo, aquele de outro; por isso, é com algum escrúpulo que estabelecemos nós a medida para a alimentação de outros; no entanto, atendendo à necessidade dos fracos, achamos ser suficiente, para cada um, uma hêmina de vinho por dia. Aqueles, porém, aos quais Deus dá a força de tolerar a abstinência, saibam que receberão recompensa especial.

Se a necessidade do lugar, o trabalho ou o rigor do verão exigir mais, fique ao arbítrio do superior, considerando em tudo que não sobrevenha saciedade ou embriaguez. Ainda que leiamos não ser absolutamente próprio dos monges fazer uso do vinho, como em nossos tempos disso não se podem persuadir os monges, ao menos convenhamos em que não bebamos até a saciedade, mas parcamente, porque “o vinho faz apostatar mesmo os sábios”.

Onde, porém, a necessidade do lugar exigir que nem a referida medida se possa encontrar, mas muito menos ou absolutamente nada, bendigam a Deus os que ali vivem e não murmurem: antes de tudo exortamo-los a que vivam sem murmurações.

Como Matilde Latorre explica no seu artigo para a edição espanhola da Aleteia, o texto original diz não “meia garrafa” mas “uma hêmina”, uma medida líquida igual a um quarto de litro: 0,27 litro exatamente.

O guia beneditino para a bebida é específico, mas, como se lê no texto, permite algumas exceções guiadas pela prudência, indo desde a abstinência total até um pouco mais de cerveja ou vinho, dependendo do tempo, da quantidade de trabalho, ou da saúde precária.

Por exemplo, com os Sínodos de Aachen em 816, Latorre prossegue, “a relação entre mosteiros e cerveja foi um passo mais longe”. Ficou então estabelecido que os monges deveriam receber um copo de vinho diário. Se não houvesse vinho, eles deveriam receber o dobro em “cerveja boa”.

Para mulheres

A regra monástica feminina, transcrita no ano 976 para ser observada no mosteiro dos Santos Nunilo e Alodia em La Rioja (Espanha), permitia às freiras beber apenas um terço de uma hêmina.

Latorre termina o seu artigo recordando ao leitor as palavras do livro do Eclesiástico (31, 32-42), a inspiração original do capítulo 40 da Regra Beneditina:

O vinho bebido sobriamente é como uma vida para os homens. Se o beberes moderadamente, serás sóbrio. Que é a vida do homem a quem falta o vinho? Que coisa tira a vida? A morte. No princípio o vinho foi criado para a alegria não para a embriaguez. O vinho, bebido moderadamente, é a alegria da alma e do coração. A sobriedade no beber é a saúde da alma e do corpo. O excesso na bebida causa irritação, cólera e numerosas catástrofes. O vinho, bebido em demasia, é a aflição da alma. A embriaguez inspira a ousadia e faz pecar o insensato; abafa as forças e causa feridas. Não repreendas o próximo durante uma refeição regada a vinho; não o trates com desprezo enquanto ele se entrega à alegria. Não lhe faças censuras, não o atormentes, reclamando o que te é devido.

Veja a galeria de fotos abaixo para saber mais sobre as cervejas trapistas monásticas que você pode apreciar, seguindo sempre os conselhos prudentes de São Bento:

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