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A luz do sacramento no túnel escuro da culpa

Homem rezando em pensamento

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 24/07/22

Uma objeção que muitos fazem ao catolicismo é que Deus não precisa de rituais para nos perdoar ou nos amar. Mas tem um detalhe nisso

Recebi, de uma amiga, um post que ela havia encontrado nas redes sociais, referindo-se à paróquia de um padre que também é nosso amigo. O post, feito por uma pessoa que não conheço, comentava o fato de nosso amigo padre estar sempre disponível para a confissão e dizia “se as paróquias seguissem o exemplo da paróquia ***, o catolicismo no Brasil não apenas sobreviveria, mas seria uma luz para o mundo” (omito o nome da paróquia para não fazer publicidade de meu amigo e também porque sei que muitas outras paróquias mereceriam ser citadas numa postagem assim).

O episódio me lembrou o caso de um jornalista, ateu e de família não católica, que teve, há muitos anos, que fazer uma reportagem sobre a Igreja Católica. Na apuração da matéria, ouviu várias alusões à confissão. Sem nenhuma referência anterior, veio me perguntar o que era essa tal de confissão. Quando expliquei, ele comentou comigo: “Mas que coisa avançada! Vocês católicos adotaram isso depois de lerem Freud?”. A pergunta chega a ser cômica, mas demonstra como a Igreja está repleta de tesouros cheios de humanidade, que nós mesmos nem sempre valorizamos por nos termos habituado a eles.

O túnel da consciência

O escritor Arthur Koestler (1905-1983), em seu livro Cruzada sem cruz (Progresso Editorial, 1948), conta um sonho emblemático de seu protagonista. Ele está num trem lotado, que adentra um túnel escuro e profundo, no final do qual está um tribunal, onde todos os passageiros serão julgados. Na fila dos réus, um declara “Vivi toda a minha vida comendo do bom e do melhor, aproveitando todos os prazeres que a vida podia me dar” — e é inocentado pelo juiz. Outro diz “Dei tudo que tinha aos pobres, vivendo só com um pão e um copo de leite todos os dias”, ao que o juiz replica “Enquanto isso, uma criança morria de fome por não ter um pedaço de pão e um copo de leite. Você está condenado”.

O sonho é uma analogia à consciência humana. Por melhores que sejamos, nunca iremos nos livrar da culpa que sentimos pelos erros, grandes ou pequenos, intencionais ou acidentais, que cometemos ao longo da vida. Na parábola de Koestler, viver de forma amoral, como o primeiro réu viveu, pode parecer uma solução. Na continuação da história, porém, o protagonista perceberá que, para viver assim, terá que renegar qualquer sentido para sua vida, tudo que o torna realmente humano. Preferirá continuar com sua “cruzada sem cruz”, a viver de uma tranquilidade e um prazer vazios.

Uma certa leitura simplista da psicologia tentará vender a ideia de que basta nos livrarmos dessa culpa quase atávica para sermos felizes. É fato que, infelizmente, muitas vezes a educação reforça os sentimentos de culpa e inferioridade moral, gerando pessoas inseguras e infelizes. Superar esses sentimentos negativos pode ser fundamental para que elas possam se realizar na vida e terapias podem ser fundamentais para isso. Contudo, existem alguns aspectos da culpa e da nossa autoconsciência que não podem ser eliminados sem que percamos também a nossa própria humanidade, como percebeu o protagonista de Cruzada sem cruz.

É nesse momento que o sacramento da penitência nos mostra toda a sua força humanizadora. Uma objeção pertinente que muitos fazem ao catolicismo é que Deus não precisa de rituais para nos perdoar ou nos amar. É verdade. Ele poderia fazer essas coisas sem nenhum ato visível nosso – aliás, Deus deve fazê-las muitas vezes, sem que percebamos. Somos nós, seres materiais e incoerentes, que nem sabemos como pedir (cf. Ro 8, 26; Tg 4, 3), que precisamos destes gestos visíveis para perceber o amor de Deus por nós e nos livrarmos da forma mais positiva possível o sentimento de culpa. Melhor do que ignorar o erro, acreditar que não existiu ou que era uma fatalidade, é saber que existe um amor maior que contnuará sendo dado a nós, mesmo que tenhamos errado.

Um mundo que ainda não conhece o perdão

Ainda hoje, após vinte séculos de cristianismo, o sacramento da penitência permanece como um dado radicalmente diverso de nosso modo de ver as coisas. Vivemos num mundo que está sempre à caça de culpados pelas desgraças que acontecem, que não consegue conciliar justiça com perdão, que imagina a misericórdia como uma experiência aviltante. Por isso, continuamos precisando desesperadamente do sacramento penitencial para entrarmos no contexto da misericórdia e percebermos um outro modo de viver as coisas, um modo no qual o fardo se torna leve (Mt 11, 30), ao mesmo tempo que a conduta moral não é mais uma imposição exterior, mas a resposta cheia de gratidão daquele que se descobriu amado.

Como sempre saliento quando escrevo sobre esses temas, não estou preocupado com o aspecto espiritual ou místico do sacramento da penitência, que pode ser muito melhor abordado por outros. Minha preocupação é mostrar como nossa cultura, nossa mentalidade cotidiana, está longe da mensagem cristã, e como isso dificulta não apenas nossa vida interior, mas também nossa capacidade de exprimir nossa experiência para os demais.

“Deixe o ímpio o seu caminho, e o homem maligno os seus pensamentos, e se converta ao Senhor, que se compadecerá dele; torne para o nosso Deus, porque grandioso é em perdoar. Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor” (Is 55, 7-9). Não nos damos conta da grandiosidade dessas palavras, nem do impacto que podem ter tanto em nossa psicologia quanto na sociedade em que vivemos. 

Mas, independentemente da nossa consciência, a misericórdia e o perdão permanecem no mundo, oferecidas a cada ser humano, a cada momento de sua existência.

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