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Ucrânia: “Estamos preparados para uma morte súbita e inesperada”

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ACN

Reportagem local - publicado em 21/08/22 - atualizado em 18/08/22

Atualmente, a frente de guerra de quase 1.000 km cai quase inteiramente na diocese deste bispo

Com a escalada da guerra na Ucrânia, a Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) falou com o Bispo Pavlo Honcharuk, da Diocese Latina de Kharkiv- Zaporíjia. Com mais de 196.000 Km2, esta é uma das maiores dioceses da Europa, comparável a todo o território da Síria ou da Bielorrússia, abrangendo quase todo o território da Ucrânia a leste do rio Dnipro.

Atualmente, a frente de guerra de quase 1.000 km cai quase inteiramente na sua diocese, e as cidades estão sob constantes bombardeamentos. Nesta conversa com a Fundação AIS, o bispo de 44 anos descreve a vida na sua diocese neste momento. A entrevista foi conduzida pelo Pe. Jurij Blazejewski para a Fundação AIS.

Pode descrever a situação na sua diocese, que se tornou o principal teatro desta terrível guerra?

A nossa Igreja está viva e activa. Sacerdotes e fiéis estão nos seus lugares, a oração continua a acontecer, tal como a liturgia diária nas paróquias. Mais numas do que noutras, dependendo do local: onde as actividades de guerra estão a decorrer, ou os territórios estão ocupados, não existe essa possibilidade. No entanto, a nossa Igreja serve o povo, os idosos e as crianças, tal como ajuda os nossos soldados, que defendem a nossa pátria.

Há alguns meses, descreveu a situação à Fundação AIS como chocante e dolorosa. Talvez no início da guerra houvesse esperança de que terminasse mais cedo, agora é evidente que ainda vai durar. Como se sente neste quinto mês da guerra?

O primeiro choque passou. Agora existe uma tensão permanente. Estamos constantemente em antecipação, especialmente quando há bombardeamentos e não é claro quando e onde vão atingir. Anteontem, estava a cerca de 1000-1200 m de nós, em linha recta. Ontem à noite, as bombas caíram em algum lugar muito próximo de nós. Sei que não vou ouvir o míssil que me atingir. Portanto, quando ouço uma explosão, isso significa que ainda estou vivo. Estamos preparados para uma morte súbita e inesperada. Isso significa que recebemos frequentemente os sacramentos, especialmente a confissão. É uma experiência completamente nova, um modo de vida diferente. De manhã, levanto-me e dou-me conta de que estou vivo. 

Para além dessa dor, o sofrimento acrescenta uma sensação de impotência, porque nos esmaga. O mal é tão grande e tão cínico que supera os grandes deste mundo nos seus tronos. As guerras são muito fáceis de desencadear, mas como se acabam? Por outro lado, há também grandes sinais da presença de Deus no meio do turbilhão da guerra, nos corações das pessoas que servem em vários lugares como soldados, médicos, bombeiros, polícias, bem como noutros serviços. Olhando para os rostos destas pessoas, podemos testemunhar o grande poder divino do amor com que Deus as inspira.

Qual é a actual situação em Kharkiv? As pessoas estão a voltar, ou já recomeçaram a partir?

A situação está em constante mudança. Por exemplo, um homem pode vir para ver o seu apartamento, mas partir logo a seguir outra vez. Em geral, as pessoas estão a partir devido aos constantes bombardeamentos em Kharkiv. Há bombardeamentos antes do almoço, depois do almoço e à noite. Estamos muito próximo da linha da frente, literalmente a 20 km. Antes da guerra, a cidade de Kharkiv tinha uma população de 1,7 milhões de habitantes. Neste momento, são cerca de 700 mil, menos de metade. Mas outras cidades da diocese, como Sloviansk, Kramatorsk ou Bakhmut, são lugares muito perigosos na actual zona de guerra. Praticamente já todos fugiram e ficaram poucas pessoas nessas cidades.

Como é a vida quotidiana numa cidade sob fogo constante?

A situação de cada família ou pessoa é diferente. Se a casa não tiver sido danificada, têm um lugar para viver, e se tiverem emprego, têm dinheiro. Se a casa for destruída, não têm onde viver. E se não tiverem emprego, se os seus locais de trabalho tiverem sido destruídos, ficam sem dinheiro. E se para além disso tiverem sido feridos… 

Por vezes as pessoas só têm a roupa que tinham no corpo porque ardeu tudo com a casa. Portanto, algumas pessoas precisam de roupa, outras de sapatos, ou de medicamentos, ou de comida, algumas apenas precisam de apoio, e outras de um lugar onde ficar. Outras precisam de alguém que leve a sua família para um lugar seguro. Há muitos problemas e tarefas pela frente. 

As pessoas têm acesso aos bens de que necessitam? Há trabalho?

A destruição da cidade é calculada em cerca de 15%. São danos irreparáveis. Mas as infra-estruturas da cidade estão a funcionar, podem suportar a pressão. As fábricas e empresas que podem, continuam a trabalhar, os seus funcionários ainda têm emprego, e outras foram completamente deslocadas para outras cidades ucranianas. Também os hospitais e os serviços municipais, responsáveis pela electricidade, gás, água, esgotos, recolha do lixo, limpeza das ruas e transportes públicos, continuam a funcionar. Funciona tudo. Quando destroem algo, 24 horas depois nem percebemos o que aconteceu, os serviços municipais limpam e retiram tudo. Os bombeiros, a polícia e outros serviços também estão a trabalhar em pleno. As pessoas tentam viver normalmente, apesar da guerra estar tão presente na nossa cidade. As escolas e as universidades funcionam online. 

E quanto à situação financeira? Há problemas com os bancos? As lojas estão abertas?

Apenas alguns bancos têm as suas agências abertas. Além disso, só alguns ATM funcionam. Na sua maioria, estes locais físicos permanecem fechados por razões de segurança. Mas todo o sector financeiro está operacional, os cartões bancários estão a funcionar em todo o lado. As lojas estão abertas nalgumas alturas do dia. Ontem estive no mercado – apenas metade ardeu. Onde as bancas e os quiosques sobreviveram, ainda se vende. Mas as pessoas não podem comprar nada porque não têm dinheiro. As pessoas aqui não são ricas. Os ricos já partiram há muito, mas aqueles que viviam dos seus salários ficaram, tiveram de contar cada cêntimo, e agora estão numa situação muito difícil. Até através da roupa podemos ver que aquela pessoa sempre teve uma vida digna, mas a guerra tornou-a pobre ou sem abrigo. Muitas pessoas também foram afectadas psicologicamente e algumas começaram a abusar do álcool. 

Nalgumas cidades, longe da frente, as pessoas já estão a ignorar os alertas de ataque aéreo. E em Kharkiv? As pessoas abrigam-se ou ignoram os alertas e continuam a sua vida?

No início da guerra, as pessoas reagiam mais quando havia bombardeamentos. Geralmente não saíam das suas caves e abrigos. Muitas não saíam de todo, estavam sempre lá e algumas ainda hoje sentem muito pânico. Há ruas onde as pessoas mal sentiram que a guerra estava a decorrer, porque estavam completamente sossegadas. Mas também há bairros onde está tudo destruído. Vejo que a maioria das pessoas se tornou mais corajosa, a mente cansada começa a reprimir a sensação de perigo.

Como é que está a situação em termos de segurança?

As pessoas ficam no mesmo sítio e continuam a falar quando os bombardeamentos estão longe, e quando os mísseis se escutam mais de perto, dispersam. Mas quando nada acontece durante dois ou três minutos, voltam a sair. Anteontem, um pai ia de carro com o filho. Tinham vindo à cidade para apresentar a candidatura à universidade e estavam a regressar a casa. De repente, uma bomba atingiu o carro. Ficaram alguns destroços do carro, mas os corpos ficaram desfeitos. 

Como podem ver, as pessoas continuam a conduzir durante os bombardeamentos. Algumas conseguem chegar ao destino, outras não. Mas não pensemos que as pessoas são irresponsáveis. O perigo dura tanto tempo que, de alguma forma, temos de aprender a ignorá-lo, mas também temos de pensar e tomar decisões. Antes, as pessoas simplesmente não o controlavam: fugiam, e depois começavam a pensar. Mas é muito cansativo quando temos de fugir 10 vezes por dia.

A sua diocese é provavelmente única, na medida em que há pessoas a fugir, mas também a procurar refúgio nela.

Algumas pessoas de Kharkiv, ou de outras cidades da linha da frente, mudaram-se para as aldeias mais próximas, para casa de familiares ou que se encontravam vazias. Mas quando viram que não havia um fim, algumas começaram a ir para mais longe. Dentro do país também é preciso encontrar um lugar para viver e trabalhar, e há muitas dificuldades. Por outro lado, ir para o estrangeiro significa que apenas a esposa e os filhos podem partir, e os maridos têm de permanecer em território ucraniano, por causa da lei marcial. Este é um grande golpe para a família, para os cônjuges, e provoca grande sofrimento. 

As pessoas estão constantemente em movimento. Algumas instalam-se nalgum lugar e arranjam emprego, outras fracassam. Por vezes, parece que quando as pessoas se estabelecem finalmente num novo local, de repente dizem-lhes: “Desculpem, temos de lhes pedir que saiam da nossa casa”. O destino de cada mudança é diferente, mas sempre difícil. Alguns voltam porque dizem que é mais fácil para eles viver debaixo de fogo, em perigo, do que viver como refugiados.

Nesta situação, quem somos nós? Não temos direitos, não podemos fazer planos, não temos nada nosso. Sentimos sempre que estamos a pairar sobre alguém e que os outros também nos estão a observar. É psicologicamente muito difícil. Se alguém quiser tentar, saia de casa durante um mês e vá passá-lo noutra casa, depois noutra, e numa terceira, e numa quarta, sempre como convidado e sempre a mudar.

Como é que a Igreja na sua diocese trabalha com os refugiados e deslocados internos?

Aqui em Kharkiv temos os Padres Marianos e a Cáritas, que estão a ajudar os deslocados, uma vez que muitas pessoas que perderam as suas casas vieram para a cidade. Ontem, 20 casas de uma aldeia foram destruídas aqui perto, não longe da fronteira. As tropas russas estão simplesmente a destruir as nossas aldeias ucranianas e os sobreviventes fogem para a cidade, porque já não é possível viver lá. Há deslocados das aldeias próximas também a chegar a Kharkiv, embora Kharkiv ainda esteja a ser bombardeada todos os dias. 

Também trabalhamos noutros locais, ajudamos distribuindo ajuda humanitária, artigos para crianças, alimentos, fraldas, ou apenas estando disponíveis para conversar. É assim em Poltava, Sumy, Konotop, Dnipro, bem como em Zaporíjia e Pokrovsk.

O que gostaria de dizer aos benfeitores que tornam possível o envio de ajuda da Fundação AIS para a Ucrânia e para a sua diocese?

Agradeço-vos por esta oportunidade e gostaria, em nome de todos aqueles que recebem ajuda, bem como em meu nome, de vos agradecer sinceramente a todos pelos vossos corações abertos e pela vossa ajuda. Não importa se foi muito ou pouco, o que é importante é que não tenham ficado indiferentes à nossa situação. Agradeço-vos sinceramente! Que Deus vos abençoe!

(Com AIS)

Tags:
GuerraRússiaUcrânia
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