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Moçambique: Pessoas estão apavoradas e em pânico com novos ataques

MOZAMBIQUE

Aid to the Church in Need

Reportagem local - publicado em 07/09/22 - atualizado em 07/09/22

Este ataque, que levou à fuga de dezenas de populares, foi apenas o incidente mais recente protagonizado por homens armados na região norte de Moçambique

Grupos armados continuam a levar destruição e medo à província de Cabo Delgado. Nas últimas semanas, sucederam-se notícias de ataques, com casas incendiadas, pessoas assassinadas, algumas mesmo decapitadas, e população em fuga.

Só desde a última semana de Agosto, há o registo de mais de 120 casas incendiadas em aldeias nos distritos de Muidume, Nangade, Ancuabe e Meluco. Mais grave ainda é o facto de, na sexta-feira, dia 2, ter sido atacada uma aldeia a sul do rio Lúrio, ou seja, já na província de Nampula.

Segundo um responsável, os terroristas deixaram um rasto de destruição assinalável na aldeia de Kútua, incendiando edifícios, incluindo a igreja e o centro de saúde. “Eles queimaram o hospital, uma escola, três barracas [de venda de produtos], casas e igreja”, explicou o régulo da localidade, citado pela imprensa local.

Este ataque, que levou à fuga de dezenas de populares, foi apenas o incidente mais recente protagonizado por homens armados na região norte de Moçambique e ocorre numa altura em que se está a registar também um movimento de regresso de deslocados, de pessoas vítimas do terrorismo, às suas aldeias de origem. Isso mesmo foi testemunhado pelo padre Edegard Silva, que está em missão em Mieze, na Diocese de Pemba. Em mensagem enviada para a Fundação AIS em Lisboa, este missionário saletino brasileiro fala mesmo numa “febre muito grande de retorno”.

Regresso às aldeias

O padre Edegard diz compreender a vontade das populações em regressarem a suas casas, pois a vida nos campos de deslocados desde que os ataques tiveram início, há cerca de cinco anos, nunca foi fácil. “Eu compreendo. Cinco anos nessa vida… Não tem quem aguente viver nessa situação… É uma vida muito difícil.”

No entanto, o padre Edegard Silva afirma que não existem ainda as condições mais favoráveis para o regresso às aldeias, embora não seja possível, obviamente, impedir as populações de se fazerem à estrada. Mesmo que o risco seja elevado. “Não existem condições para o retorno, mas a gente não manda na vida das pessoas. As pessoas vão…”

Quando falou com a Fundação AIS, o missionário saletino tinha viajado para Roma para uma reunião com o Geral da sua congregação. E mesmo aí, durante os poucos dias em que esteve fora de Moçambique, nunca deixou de ser sobressaltado com notícias de ataques, de violência contra as populações indefesas. “Veja bem: aqui, em Roma, o telefone toca e [fiquei a saber que] mais uma comunidade por estes dias foi atacada lá em Muidume, e também uma comunidade de Meluco”, relata o sacerdote que sabe, por experiência própria, o que significam estes ataques.

O padre Edegard, recorde-se, estava em Nangololo, em Novembro de 2020, quando esta missão católica sofreu um dos mais violentos ataques registados até hoje no norte de Moçambique. A missão ficou completamente destruída. Agora, quase dois anos depois, apesar da presença do exército moçambicano, apoiado por alguns países africanos, como é o caso do Ruanda, os terroristas continuam activos.

Pânico

“Os pequenos ataques continuam”, descreve o padre Edegard na mensagem telefónica enviada para a Fundação AIS. “Nesta altura, não precisam de ser nem grandes nem pequenos. Qualquer tipo de ataque deixa as pessoas apavoradas e em pânico”, acrescenta o sacerdote saletino.

Apesar desta realidade tão dura – há aproximadamente 800 mil deslocados e cerca de 4 mil mortos em consequência dos ataques de terroristas que juraram fidelidade aos jihadistas do Daesh, o “Estado Islâmico” – as comunidades cristãs locais continuam empenhadas e pedem ajuda para terem coisas tão simples como Bíblias ou terços.

Pedidos de ajuda que foram escutados também pelo padre Edegard quando estava ainda em Roma… “Temos 13 comunidades e agora estão a ligar para mim a pedir material para a celebração da palavra e essas coisas mais.” Os pedidos foram tantos que o padre Edegard decidiu organizar uma campanha para conseguir dar resposta a tudo. “Eu mesmo estou organizando uma campanha para comprar Bíblias, terços e livros em maconde…”, explicou à Fundação AIS.

Situação difícil

A situação descrita pelo padre Edegard é corroborada também pelo antigo Bispo de Pemba, D. Luiz Fernando Lisboa. Actualmente à frente da diocese brasileira de Cachoeiro de Itapemirim, D. Luiz faz questão de acompanhar tudo o que diz respeito à vida da Igreja em Cabo Delgado, tendo afirmado, à Agência Ecclesia, que “a situação continua muito difícil”. “Os terroristas espalharam-se e continuam a fazer pequenos ataques. O povo está numa situação de insegurança, embora as autoridades, irresponsavelmente, promovam o regresso das pessoas às suas aldeias. As pessoas chegam lá e não encontram as condições necessárias, sofrem novos ataques”, afirmou.

D. Luiz Lisboa aproveitou a ocasião para valorizar o trabalho do actual bispo de Pemba, D. António Juliasse, que tem estado junto das populações e tem procurado mobilizar o esforço das várias organizações da Igreja no apoio aos deslocados. O bispo de Cachoeiro de Itapemirim lamenta que, por causa da guerra na Ucrânia, Cabo Delgado tenha ficado “esquecida do resto do mundo” e faz um apelo para que se continue a ajudar a Diocese de Pemba.

(Com Fundação AIS)

Tags:
ÁfricaPerseguiçãoViolência
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