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Furioso, ditador da Nicarágua acusa Igreja de ser… uma ditadura!

Ditadura da Nicarágua persegue padres e bispos

Diócesis de Matagalpa

Dom Rolando Álvarez antes de ficar preso na cúria residencial

Francisco Vêneto - publicado em 30/09/22

Bispo exilado retrucou que Daniel Ortega, com as suas mentiras, escancara o seu cinismo e a sua ignorância

Daniel Ortega, ditador da Nicarágua, acusou furiosamente a Igreja Católica de ser… “a ditadura perfeita”.

Em discurso repleto de virulência durante o 43º aniversário da polícia nacional, o ex-guerrilheiro de esquerda, que acumula 29 anos no poder, afirmou que a Igreja não pode falar de democracia porque o próprio Papa é eleito sem o voto do povo.

Cercado por seus seguidores e acompanhado pela sua mulher e vice-presidente Rosario Murillo, Daniel Ortega também voltou a acusar os bispos e padres nicaraguenses de estarem por trás de um suposto “golpe de estado” contra ele em 2018.

Esbravejando, Ortega disparou as seguintes perguntas retóricas eivadas de falácia:

“Quem escolhe os padres? Quem escolhe os bispos? Quem escolhe o Papa, os cardeais? Quantos votam? (…) Se vamos ser democráticos, vamos começar elegendo o Papa, os cardeais, os bispos com o voto dos católicos. É uma ditadura, a ditadura perfeita. É uma tirania, a tirania perfeita. Com que autoridade me falam de democracia? Quantos votos da população o bispo teve para ser nomeado bispo?”.

As falácias do ditador

A falácia mais evidente no ataque de Ortega à Igreja Católica diz respeito ao próprio conceito de democracia, que ele reduz ao aspecto meramente eleitoral, desviando-se, significativamente, dos aspectos que ele mesmo atropela na sua ditadura: é o caso, para começar, da legitimidade da sua autoridade, mas também do papel de serviço que cabe à legítima autoridade em relação aos seus representados e, principalmente, do respeito que a autoridade deve aos direitos legítimos dos seus representados.

Uma autoridade legítima não necessariamente precisa ser eleita pelo voto direto, conforme se exemplifica no parlamentarismo, e nem sequer precisa ser eleita de modo algum, como ocorre nas monarquias constitucionais e na própria Igreja. Mesmo no presidencialismo, os membros do poder judiciário, por exemplo, tampouco são eleitos pelo voto popular e, não obstante, podem ter autoridade legítima – desde que cumpram outros requisitos devidamente estabelecidos e reconhecidos.

A autoridade de Ortega, por sua vez, é ilegítima tanto pela fraude eleitoral com que ele chegou à presidência quanto pelo seu próprio modo de exercício do poder executivo, que infringe sistematicamente a constituição e o estado de direito em seu país, suprimindo direitos fundamentais da população como o de expressão, religião, imprensa, reunião e até o de ir e vir.

Outra falácia, muito recorrente, está nos termos da comparação, já que Ortega força uma equivalência inexistente entre a Igreja Católica e um governo nacional.

Pela sua natureza, a Igreja Católica não é, nunca foi, não pode ser e não se apresenta como uma democracia. Fundada por Jesus Cristo, ela consiste na comunidade das pessoas que, livre e voluntariamente, aderem à doutrina de Jesus Cristo, que não é passível de eleição, plebiscitos, referendos ou emendas. Ou se aceita, ou se rejeita – mas nunca se impõe: cada um tem a liberdade de aderir a ela ou não.

Pela mesma razão, os seus sacerdotes não são aspirantes a cargos administrativos sujeitos a processo eleitoral: são ministros chamados por Deus e, portanto, quem os elege é Deus mesmo. Quem não acredita na vocação sobrenatural do clero não tem qualquer obrigação de reconhecê-los como eleitos por Deus – uma liberdade, aliás, que, na ditadura de Daniel Ortega, não é respeitada no tocante aos cidadãos que questionam o seu próprio regime.

Alheio à realidade e insistindo na sua falácia sobre Igreja e ditadura, Ortega acusou os bispos de “falar de democracia e não a praticar”. E, ignorando convenientemente a natureza da Igreja, prosseguiu:

“A coisa mais limpa e saudável seria que eles apresentassem os cardeais que aspiram ao papado e que a população do mundo decida quem se torna Papa, e que escolha quem serão os cardeais e bispos e padres do bairro. Ou seja, democracia”.

O discurso falacioso do ditador cairia por terra mesmo que se referisse a uma empresa privada: o fato de que os funcionários não elegem a diretoria não quer dizer que a autoridade dos diretores seja ilegítima ou que a empresa represente uma ruptura da democracia; trata-se apenas de outra natureza institucional, à qual adere livremente quem livremente o deseja.

A resposta de um bispo… exilado pela ditadura

Com suas mentiras sobre Igreja e ditadura, além de escancarar mais uma vez o seu cinismo, Daniel Ortega escancarou mais uma vez a sua ignorância. De fato, “mentira, cinismo e ignorância” foram as palavras com que um bispo resumiu o discurso ilógico, hipócrita e clamorosamente desonesto do ditador.

Trata-se do bispo auxiliar de Manágua, dom José Silvio Báez – que, aliás, está exilado nos Estados Unidos em decorrência da falta de democracia que o impede de retornar à Nicarágua. Diga-se de passagem, esta é a situação de pelo menos 50 padres que se viram forçados a buscar refúgio em países vizinhos. Em paralelo, há outros padres presos arbitrariamente dentro da Nicarágua, assim como continua em prisão domiciliar irregular também o bispo de Matagalpa, dom Rolando Álvarez (foto).

Dom José Silvio Báez afirmou sobre o ataque do ditador:

“Quanta ignorância, quanta mentira e quanto cinismo! Um ditador dando lições sobre democracia! Alguém que exerce ilegitimamente o poder, criticando a autoridade que Jesus deu à sua Igreja! Alguém que é ateu, lamentando não se sentir representado pela Igreja!”

Com informações de Pablo Cesio para Aleteia Espanhol

Tags:
ditaduraIdeologiaIgrejamentiraPerseguiçãoReligião
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