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Paquistão: agricultores cristãos pobres olham com desespero para o futuro 

Pakistan Flood

AFP

Reportagem local - publicado em 16/10/22 - atualizado em 14/10/22

Num desabafo cheio de desalento, um agricultor católico explica que todo o seu trabalho foi, literalmente, por água abaixo

“As culturas estavam sedentas durante o calor recorde do Verão, quando a água agrícola era fornecida apenas uma vez por mês. Agora estão a apodrecer sob 1,5 a 2,5 metros de água …” O lamento é de Patras Baagh, de 65 anos, em declarações a Kamran Chaudhry, da Fundação AIS.

Não são apenas as culturas que se estão a perder. É todo o trabalho, toda a vida que está a desaparecer por causa das maiores inundações de que há memória neste país. Patras é um pobre agricultor cristão que está agora, com toda a sua família, à beira da miséria.

“Os mosquitos regressaram após um dia de fumigação. As crianças estão agora a contrair infecções da garganta, malária, dengue e doenças de pele. Não temos dinheiro para comprar livros escolares …” Sem dinheiro e sem casa. A família de Patras Baagh vive agora ao relento, a céu aberto, pois a casa de paredes de barro ficou inabitável após as inundações. Também Asif George ficou na condição de sem-abrigo. Ele e mais outros 25 cristãos que viviam na aldeia de Chak, na província de Sindh.

As noites são passadas agora debaixo de uma árvore onde tem amarrada uma cabra, que é quase tudo o que possui. “Não sabemos como vai ser o nosso futuro”, diz à Fundação AIS. Num desabafo cheio de desalento, este agricultor católico explica que todo o seu trabalho foi, literalmente, por água abaixo. “A cultura do algodão apodreceu após a primeira colheita e a cana de açúcar está a deteriorar-se …”

Tal como Patras Baagh ou Asif George, os agricultores cristãos são, normalmente, muito pobres. Qualquer colheita menos feliz arrasta as famílias para uma miséria que parece um destino ou maldição. O Bispo de Hyderabad, D. Samson Shukardin, tenta ajudar os cristãos na medida do possível. Mas é uma luta inglória.

Sobrevivência

A inclemência do tempo foi devastadora. Os prejuízos afectaram tudo e todos. O bispo não tem memória de uma calamidade tão grande. “Todas as escolas geridas pela Igreja nas zonas rurais inundadas estão fechadas, os móveis ficaram inutilizados e há água a escorrer pelas paredes. Eu nasci em Hyderabad, mas nunca tinha visto tanta chuva na minha vida…”

Sobreviver passou a ser a palavra de ordem. E muitas vezes o Bispo depara-se com histórias reveladoras do que significa a pobreza mais absoluta. Na aldeia de Mariamnagar, no sul da província de Sindh, D. Samson viu pessoas a procurarem salvar os pouquíssimos bens que lhes restavam. Às vezes, apenas os animais.

“Em vez de se protegerem, os habitantes locais tinham colocado redes mosquiteiras para proteger o gado. As cabras e as vacas são a sua fonte de rendimento, assim como o leite”, explica. “Só que é muito difícil passar uma só noite nas aldeias inundadas devido aos mosquitos”, acrescenta, para sublinhar o gesto de quem se privou das redes ficando à mercê das picadas, das doenças, e tantas vezes até da morte…

Às vezes, pior ainda do que a miséria em que as populações ficam, é a constatação de que se pertence a uma comunidade que não é apoiada, que é, até, desprezada. Isso aconteceu agora com os cristãos. O sentimento de abandono por parte dos responsáveis políticos ficou bem patente nestes dias de tragédia que o Paquistão está a viver. “Nenhum dos parlamentares locais ajudou os cristãos afectados pelas cheias. A ajuda relacionada com as cheias também é um direito nosso”, diz o bispo Shukardin. A ausência de ajuda faz lembrar o que aconteceu há dois anos no pico da pandemia do coronavírus, quando as minorias não-muçulmanas foram arredadas da ajuda de emergência, nomeadamente ao nível alimentar…

Piores da história

As inundações causadas pelas monções foram já classificadas como as piores em toda a história do Paquistão. Houve mais de dois milhões de casas destruídas ou muito danificadas. Calcula-se que quase 1600 pessoas morreram, assim como mais de 1 milhão de animais. A contabilização dos prejuízos, algo ainda provisório, aponta para a verba astronómica de cerca de 1,7 mil milhões de euros.

Mesmo que não volte a chover nos próximos dias, nas próximas semanas, calcula-se que será preciso esperar ainda cerca de meio ano para que toda a água possa secar. É muito tempo para quem precisa de trabalhar nos campos todos os dias para arrancar da terra o sustento para as suas famílias. “É uma situação grave. Estou preocupado com os próximos meses”, diz o Bispo à Fundação AIS. “A destruição continua após as chuvas torrenciais. Uma visita solidária feita pelos padres ou pelas religiosas é uma grande fonte de consolo para aqueles que estão cercados pelas águas das cheias”, acrescenta o prelado.

A Fundação AIS está muito empenhada na ajuda ao Paquistão para que as várias dioceses mais atingidas pelas inundações tenham recursos para poderem apoiar as populações locais. Só na Diocese de Hyderabad, foi disponibilizada uma ajuda de emergência para mais de cinco mil famílias, e para se começar a reparar, também, os edifícios das Igrejas que ficaram danificados e as infraestruturas paroquiais. Também a Arquidiocese de Karachi vai receber uma ajuda de emergência para as famílias que ficaram sem as respectivas habitações.

(Com AIS)

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