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Por que Santo Hugo de Cluny apoiou a Primeira Cruzada?

Santo Hugo de Cluny

Biblioteca do Vaticano, Domínio Público, via Wikimedia Commons

Santo Hugo de Cluny

Francisco Vêneto - publicado em 28/10/22

Vários santos, aliás, incentivaram a justa autodefesa dos cristãos agredidos - inclusive São Francisco de Assis

Entre os vários e grandes santos que apoiaram a reação de justa autodefesa dos cristãos atacados ao longo de mais de 400 anos pelas hordas muçulmanas, podem listar-se nomes como os de São Bernardo de Claraval, Santa Catarina de Sena e inclusive São Francisco de Assis, a quem até os laicos respeitam e reconhecem como referência atemporal de promoção da paz.

Os motivos de todos eles para reconhecer o direito da cristandade a defender-se de quatro séculos de ataques contínuos, crescentes e sistemáticos podem ser lidos neste detalhado artigo:

Além deles, é interessante conhecer também a história de outro santo menos comentado, mas igualmente convicto da justiça da legítima defesa dos cristãos perante os ataques brutais que, havia pelo menos quatro séculos, ameaçavam não só os seus territórios e a integridade dos seus lugares santos, mas até mesmo a sua própria existência.

Trata-se de Santo Hugo de Cluny.

Ele chegou ao posto de abade na quase mítica abadia de Cluny e, ao longo dos nada menos que 60 anos em que exerceu o cargo, proporcionou grande impulso ao desenvolvimento dessa instituição religiosa de relevância histórica ímpar.

Hugo também participou do Concílio de Clermont, no qual o beato Papa Urbano II proclamou a Primeira Cruzada.

A vocação

Hugo nasceu em 1024 no castelo de Semur, na região francesa da Borgonha, filho de família nobre, e, ainda menino, foi estudar em Auxerre, onde seu tio era bispo.

Como sentia com força o chamado a ser monge e seu pai não o autorizava, fugiu do castelo quando tinha apenas 15 anos e foi para o mosteiro de Cluny, onde Santo Odilon o acolheu e, depois, convenceu o seu pai a permitir sua permanência.

Foi o próprio Santo Odilon quem veio a nomeá-lo prior, o cargo mais importante depois do de abade, graças ao seu rápido e sólido progresso na virtude.

Esse progresso, aliás, foi tanto que, aos 25 anos, Hugo viria a se tornar o próprio abade. Pouco antes, em 1049, ele havia sido enviado à Alemanha para promover a conciliação entre o imperador Henrique III e alguns religiosos que tinham se revoltado contra ele. Hugo cumpriu a missão.

Nesse meio-tempo, Santo Odilon tinha falecido e, quando Hugo regressou a Cluny, os monges o elegeram para substituí-lo no posto máximo da abadia.

Abadia de Cluny (Bourgogne)
Abadia de Cluny

Concílios, portentos e exorcismos

Como abade, Hugo foi convocado ao Concílio em Reims pelo Papa São Leão IX para tratar, entre outros assuntos, dos escândalos cometidos por eclesiásticos, tanto sexualmente quanto no mau uso de recursos da Igreja. O discurso de Santo Hugo a este propósito foi descrito por um biógrafo como brilhante. De fato, a sua contribuição foi essencial para o sucesso do concílio, que determinou a expulsão dos clérigos simoníacos e fornicadores.

Hugo também exerceu grande influência no Concílio de Tours, em 1050, quando foram condenadas as posições do teólogo Bérenger: ele defendia o assim chamado “amor livre” e negava a Presença Real de Nosso Senhor Jesus Cristo na Santíssima Eucaristia. Quem o Papa São Leão IX encarregou de conduzir os trabalhos deste concílio foi o arquidiácono Hildebrando, que viria ele próprio a ser eleito Papa com o nome de Gregório VII. Quando se dirigia ao concílio, Hildebrando se hospedou na abadia de Cluny, onde assistiu a uma reunião em que Santo Hugo explicava a Regra aos monges. Mais tarde, o arquidiácono testemunharia que, durante aquela reunião, viu Nosso Senhor aconselhando o abade.

Em 1052, o Papa São Leão IX confiou a Santo Hugo a missão de intermediar os diálogos entre o monarca da Hungria e o imperador Henrique III, para cessar os conflitos entre eles. O rei húngaro, além do mais, queria restabelecer o paganismo no país, destruindo a grande obra evangelizadora que Santo Estêvão havia realizado na região. A intermediação de Hugo obteve sucesso: Henrique III consentiu no casamento de uma de suas filhas com o filho e sucessor do rei da Hungria, selando-se a paz.

O santo abade tinha ainda o dom do exorcismo e, por conseguinte, tornou-se grande a sua fama junto ao Papa Estêvão IX no tocante à luta contra o demônio. De fato, aquele jovem pontífice, que governou a Igreja durante menos de um ano entre agosto de 1057 e março de 1058, chamou certa vez Santo Hugo para acompanhá-lo em uma viagem à Toscana. Pressentindo que faleceria em breve, o Papa confidenciou e pediu a Santo Hugo:

“Peço a Nosso Senhor que me permita morrer em vossos braços, porque, assim que me deixais só, o inimigo do gênero humano me cerca com visões terríveis, mas, quando vos aproximais, ele desaparece”.

De fato, o Papa Estêvão IX morreu poucos dias depois, aos 38 anos de idade.

A Primeira Cruzada

Em 1095, o beato Papa Urbano II, que tinha sido monge na abadia de Cluny, veio a proclamar a Primeira Cruzada como reação de autodefesa da cristandade contra mais de 400 anos de ataques e perseguições perpetradas pelos muçulmanos, que, além de ameçarem os peregrinos cristãos na Terra Santa, promoviam frequentes campanhas expansionistas contra territórios de vastíssima maioria cristã.

Ao passar pela Borgonha, o Papa visitou a abadia de Cluny e convocou Santo Hugo a acompanhá-lo até Clermont, em cujo Concílio se consolidaria a proclamação da Cruzada.

Santo Hugo aderiu plenamente ao propósito da Cruzada e instruiu os seus monges a orientarem os fiéis para que se unissem ao projeto ou, caso não pudessem ou não quisessem, prestassem o seu apoio mediante orações e sacrifícios.

A partida deste mundo

Em 1109, Santo Hugo foi visitar o mosteiro feminino de Marcigny, dirigido por monges da ordem cluniacense. Lá, pressentiu que a sua vida terrena estava chegando ao término, reuniu todos os monges e religiosas e lhes pediu perdão pelos pecados que cometera ao longo dos 60 anos em que tinha sido abade.

Entregou a alma a Deus em 29 de abril de 1109, aos 85 anos de idade, na igreja do mosteiro. A memória litúrgica de Santo Hugo de Cluny é celebrada pela Igreja nessa mesma data.

Na altura do seu falecimento, a Ordem de Cluny reunia o impressionante número de 10.000 monges distribuídos por 1.450 casas, das quais 815 na França e as restantes em países como as atuais Alemanha, Itália, Inglaterra e Espanha.

Os frutos da santidade e a liberdade humana

Os frutos da vida e da obra de Santo Hugo, porém, não seriam automáticos. Assim como Cristo mesmo teve um Judas entre os seus mais próximos seguidores, também a trajetória do santo abade de Cluny se deparou com a liberdade humana de dizer não a Deus das formas mais dolorosas.

Três exemplos são particularmente impactantes.

Ainda em vida, Santo Hugo fora convidado pelo próprio imperador Henrique III a batizar o seu filho e herdeiro, que viria a se tornar Henrique IV. De fato, o santo abade ministrou o batismo ao pequeno – o que poderia levar a crer que o príncipe cresceria entre grandes virtudes e seria um cristão exemplar. Henrique IV, no entanto, se tornou um dos mais depravados monarcas da sua época.

Mesmo dentro de casa, os frutos da santidade do abade de Cluny tiveram de conviver com a podridão escolhida pela liberdade humana. O próprio sucessor de Santo Hugo no comando da importantíssima abadia, Pons de Melgueil, o sétimo abade de Cluny, acabou por se tornar um triste escravo do orgulho, vindo a incorrer em cisma e terminando a vida excomungado.

Por fim, o justo direito à autodefesa cristã depois de séculos sofrendo ameças, ataques e perseguições das hordas muçulmanas levou à difícil decisão de empreender as Cruzadas, cujos propósitos se misturaram gradualmente com grandes virtudes e vergonhosos pecados por parte de uma parcela dos seus participantes.

Não deixe de conhecer mais a fundo o contexto em que as Cruzadas foram concebidas e realizadas, já que as mentiras e narrativas ideológicas contaminaram vastamente a opinião pública a seu respeito:

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Com informações de Paulo Francisco Martos, em artigo publicado por Gaudium Press

Tags:
HistóriaHistória da IgrejaIdeologiaPerseguiçãoReligiãoSantos
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