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A antiquíssima regra de que as hóstias só podem ser feitas de farinha de trigo

Hóstias só podem ser de farinha de trigo

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Lucia Graziano - publicado em 11/11/22

Cuba sofre hoje uma escassez tamanha de farinha de trigo que as freiras responsáveis pelo fornecimento de hóstias para a consagração na Santa Missa se viram forçadas a parar a produção. Mas desde quando existe a regra de que exclusivamente a farinha de trigo pode ser usada para fazer hóstias? E como se fazia nos períodos de carestia e fome dos tempos antigos?

Nos últimos dias, as freiras carmelitas descalças de Havana lançaram o alarme que repercutiu mundo afora: não há farinha de trigo para as hóstias. São elas que produzem a maior parte das hóstias distribuídas para as igrejas católicas de toda a ilha de Cuba. Devido à grave crise alimentar que atinge o país nos últimos meses, muitas padarias locais têm recorrido à farinha de mandioca, facilmente disponível, mas a produção de hóstias segue normas seculares que determinam o uso somente de farinha de trigo.

Mas desde quando existe a regra de que exclusivamente a farinha de trigo pode ser usada para fazer hóstias? E como se fazia nos períodos de carestia e fome dos tempos antigos?

A crise alimentar do século XIX

Esta, de fato, não é a primeira vez que a Igreja Católica se vê às voltas com uma crise alimentar tão grave a ponto de interromper a produção das hóstias. É claro que, infelizmente, sempre houve carestias, mas foi particularmente no século XIX que se assistiu a uma escassez alimentar com poucos precedentes na história.

Em 1815, a violenta erupção do vulcão Tambora, na Indonésia, lançou à atmosfera tanta cinza que alterou gravemente o clima durante os dois anos seguintes. 1816 e 1817 testemunharam uma fome severa em escala global. Além disso, alguns anos de colheitas muito ruins assolaram a Europa na metade daquele século.

Para piorar a situação, a partir de 1860, os parreirais de todo o continente europeu começaram a ser atacados pela filoxera, um inseto de origem americana que atacou as raízes das videiras. Em poucos anos, a infestação se espalhou sem controle, forçando a interrupção quase completa da produção de vinho europeu, o que intensificou a crise também pelo impacto sobre os trabalhadores.

Foi nesse contexto de miséria, aliás, que aconteceram as primeiras grandes ondas de migração italiana e alemã para a América do Sul, já que, nos seus países de origem, muitas pessoas estavam literalmente morrendo em decorrência da fome.

Também naquelas circunstâncias a farinha de trigo atingiu um custo estratosférico e precisou ser substituída por alternativas mais baratas, como o amido de batata e a farinha de milho, na melhor das hipóteses. Mas havia quem não tinha acesso nem a isso e recorria a ingredientes bizarros, como serragem ou resíduos recolhidos de matadouros de animais!

A insalubridade, evidentemente, era preocupante. Uma coisa, afinal, é comer pão de milho ou substituir o vinho por suco de morango, mas engolir glicerina e comer serragem é completamente diferente. Em 1820, o químico Friedrich von Accum publicou em Londres um tratado sobre adulterações de alimentos e venenos culinários, um manual que ilustrava os perigos potenciais desse tipo de “alimento” e dava sugestões de “truques” para verificar a qualidade dos ingredientes à venda nos mercados.

Um texto que deu o que falar

Seguindo os passos desse tratado, também foi impresso em 1856 um livreto escrito pelo frade dominicano francês Pie-Marie Rouard de Card sobre as adulterações das hóstias. Alguns anos antes, numa igreja que não era a dele, o frade tinha ficado perplexo ao abrir as gavetas da sacristia e encontrar um pequeno saco de hóstias estranhas, tanto na cor quanto na consistência. Entusiasta da química, o frade separou uma das partículas e a levou para analisar: descobriu, muito consternado, que aquelas hóstias era feitas inteiramente de amido de batata.

O amido de batata não é ruim para a saúde, mas não deveria estar presente nas hóstias a serem consagradas. Em 1439, no Concílio de Florença, a Igreja tinha deixado absolutamente claro que apenas o vinho de uva e o pão de farinha de trigo podiam ser usados na celebração da Eucaristia. E aquele pronunciamento era apenas o mais recente de uma longa série que se confirmava desde os primeiros séculos.

Por mais que as carestias sempre tenham existido, raramente chegou-se ao caso de ser impossível reservar algumas migalhas de pão para a consagração; além disso, no passado, os fiéis leigos comungavam raramente, o que ajudava a manter baixa a quantidade de partículas consumidas diariamente.

Já no século XIX, quando o pão começava a ser produzido em escala industrial, os sacos de farinha vinham de moinhos distantes, cujo funcionamento ninguém nunca tinha visto, e muitos comerciantes tinham o mau hábito de enfrentar a crise adicionando às matérias-primas ingredientes que não eram declarados no rótulo. Pensando nas hóstias de fécula de batata, Pie-Marie Rouard de Card tinha certeza de que haviam sido compradas de boa fé por um padre que não tinha notado a fraude.

Foi por esta razão que ele publicou o ensaio “De la falsification des substances sacramentelles“, em 1856, alertando os padres e oferecendo aos sacristas alguns métodos caseiros para verificar a genuinidade do pão e do vinho.

1861: a Igreja cria a cadeia agroalimentar certificada

A publicação do frade francês levantou um problema considerável e, inevitavelmente, causou um debate acalorado sobre a melhor maneira de se abordar o assunto. Após alguns anos de reflexão, em 1861, a Santa Inquisição emitiu uma série de regras rigorosas a serem seguidas na escolha do pão e do vinho ​​para fins litúrgicos. Era necessário que todos os ingredientes fossem provenientes de uma cadeia de abastecimento certificada e rastreável, da qual fosse possível reconstruir todas as fases de processamento: desde a procedência da matéria-prima até a embalagem do produto acabado.

Diante das evidências desanimadoras de que grande parte da farinha comumente achada nos mercados era misturada com outras substâncias, a Inquisição ordenou que as dioceses verificassem cuidadosamente a confiabilidade dos seus fornecedores; ou, melhor ainda, que se organizassem elas próprias para moer os grãos diretamente. Produzir vinho em casa já seria mais difícil, embora algumas dioceses tivessem suas próprias adegas. Nesse contexto, reiterou-se a necessidade de contar com fornecedores autorizados, capazes de garantir o cumprimento das regras prescritas pela Igreja.

No mesmo ano, a Congregação da Propaganda Fide também se pronunciou sobre a obrigatoriedade de que as hóstias sejam de farinha de trigo, esclarecendo que não seriam permitidas exceções nem sequer para as comunidades católicas sediadas em terras distantes, onde eram mais difundidos os produtos de panificação com farinhas alternativas e as bebidas alcoólicas diferentes do vinho de uva .

Mesmo conscientes das dificuldades para se encontrar os ingredientes certos em algumas circunstâncias, quaisquer exceções foram consideradas inaceitáveis: afinal, estamos falando de uma regra de tradição antiquíssima, reiterada ao longo dos séculos, jamais confrontada e sempre defendida com firmeza, mesmo em tempos de crise aguda – como a revelada pelas notícias que chegaram de Cuba nas últimas semanas.

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