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A “beleza desarmada” no pós-eleição

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Cristina Conti | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 13/11/22 - atualizado em 11/11/22

Aos olhos de Deus, a grandeza de cada um se mede pelo tamanho do coração que conseguimos cultivar

Tomo emprestado, para esse artigo, o instigante título do livro de Julián Carrón, A beleza desarmada (São Paulo: Companhia Ilimitada, 2016) – mesmo que não me detenha propriamente nos conteúdos daquela obra. Publicado na Europa no momento em que a polarização e os extremismos ideológicos começavam a se manifestar de modo mais evidente, o título remete à percepção da beleza de Cristo e do cristianismo como “desarmada”, isso é, entregue à humanidade sem necessidade de buscar a autodefesa ou o confronto. A “guerra cultural” pode até existir, mas é vencida não pela lógica do mundo, mas pelo fascínio de um encontro que corresponde ao mais profundo do nosso ser, que nos irmana a todos na aceitação do amor imerecidamente recebido.

 A beleza desarmada é mais necessária do que nunca nesses tempos em que a agressividade e a desesperança parecem tomar conta de grande parcela da sociedade, enquanto outra parcela parece querer usar os acontecimentos para demonizar seus adversários. De um lado e de outro, avançamos de escândalo em escândalo, cada vez mais contaminados por um espírito de desunião, divididos entre a incapacidade de ver uma esperança e a ilusão utópica de um futuro ideal que nunca se realizará plenamente, como já vimos no passado.

Encontramos o que buscamos

O mundo é pródigo de maravilhas e surpresas. Nele, encontramos aquilo que buscamos. Se procurarmos, entre nossos opositores, pessoas más, abjetas, com sangue nos olhos, que só pensam em nos destruir, certamente encontraremos. Se procuramos, entre esses mesmos opositores, pessoas amigas, cheias de boas intenções, comprometidas com o bem comum e ansiosas por uma reconciliação, também encontraremos. Isso acontece, em parte, porque pessoas dos dois tipos existem realmente – aliás, a maior parte de nós é formada por pessoas que combinam os dois estereótipos em maior ou menor grau. Mas também se deve ao fato de que nosso relacionamento com o outro é, em grande parte, definido pela forma como nos aproximamos dele. Se nos aproximamos de forma agressiva, encontraremos, quase certamente, agressividade; se nos aproximamos com a mão estendida, teremos mais possibilidade de encontrar outra mão estendida.

A polarização extremada dos últimos tempos deixou, com certeza, marcas profundas em nossa sociedade. Infelizmente, existem pessoas que nunca mais conseguirão se livrar dos ressentimentos e rancores adquiridos nesse período. A maioria, contudo, não está “condenada” a essa dinâmica agressiva e responderá, positiva ou negativamente, àquilo que a realidade lhe apresentar. A superação interior das mágoas e dos extremismos depende da construção de uma “política melhor” e da recuperação de um tecido social esgarçado. Tarefas que pertencem não só aos políticos, mas a todos os cidadãos.

A maior pergunta que cada um de nós precisa responder é “o que me determina, o encontro com a ‘beleza desarmada’ de Cristo ou os discursos inflamados, justos ou injustos, de lideranças humanas?”. Aquele que é determinado pelo mundo, responde com a lógica do mundo – uma lógica para a qual a beleza e a bondade parecem sempre ilusórias e a dignidade só pode ser conseguida à força, derrotando e condenando os opositores aos mesmos castigos que eles supostamente nos infligiram.

Dois modos de superar as divisões

O modo mais frequente de se construir o diálogo entre posições antagônicas é buscar os pontos em comum e abstrair os diferentes, procurando os consensos. Esse método, “horizontal”, é, sem dúvida, prático e eficiente na maior parte dos casos. Contudo, não funciona quando as oposições se tornam muito arraigadas, os ressentimentos são muito fortes e as visões de mundo se apresentam como muito dispares.

Nesse caso, o diálogo pressupõe um outro método, “vertical”: mergulhar até o íntimo das próprias convicções, procurar entender e explicitar os anseios mais profundos de cada um dos interlocutores. Em primeiro lugar, nós mesmos temos que mergulhar em nós mesmos, superarmos as capas ideológicas, os desejos desordenados, as ilusões enganosas, para encontrarmos aqueles anseios de amor, felicidade, realização e liberdade que são a razão de ser mais profunda de nosso agir no mundo. Diante desses anseios, nos descobrimos desarmados, mas abertos e fascinados para com a beleza do Amor que, de modo nem sempre evidente, inunda toda a realidade.

Aquele que mergulhou em si mesmo – e descobriu no seu íntimo uma resposta, que vem de um Outro, aos anseios do próprio coração – se torna sinal dessa realidade mais profunda para os demais. Sempre haverá quem adere e quem não adere ao diálogo que pode nascer daí, mas aqueles que se movem em busca do bem acabam por se identificar e construir uma relação que não anula as diferenças, mas permite a construção de uma amizade operativa que irá dando frutos à medida que se desenvolver. Aquele que mergulhou em si mesmo, se torna ele mesmo parte dessa “beleza desarmada” capaz de fascinar o mundo e potencializar uma verdadeira construção do bem comum.

Para o nosso bem e para o bem do mundo

Encontrar a “beleza desarmada” pode ser um ponto de inflexão na trajetória de muitas pessoas. Alguns de nós temos o potencial de influenciar milhares de pessoas, outros podem ser sinal apenas para sua família e para uns poucos amigos. Não é isso que importa. Aos olhos de Deus e no caminho da nossa realização humana, a grandeza de cada um se mede não pelo tamanho da responsabilidade que nos foi dada, mas pelo tamanho do coração que conseguimos cultivar. A responsabilidade social que recebemos depende muito menos de nós e muito mais dos acontecimentos ao longo de nossa vida. Nosso coração, pelo contrário, depende diretamente do quanto nós o cultivamos, o quanto somos sinceros conosco mesmo e engajamos nossa liberdade na busca do verdadeiro, do bom e do belo.

Nossa colaboração para a construção do bem comum não depende do tamanho de nossa responsabilidade, mas do quanto somos fiéis a essa responsabilidade. Aqueles entre nós que têm muitos seguidores, que ocupam lugares de influência, precisam sem dúvida ser sinais dessa “beleza desarmada” e não dos medos e dos ressentimentos ditados pelas ideologias. Mas a todos nós é dada a possibilidade de encontrar essa beleza e de ajudar nossos irmãos a encontrá-la também… Para o nosso bem e para o bem do mundo.

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