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Catar 2022: futebol e Direitos Humanos

Qatar está na lista de países que promovem perseguição a cristãos

AFP

Merche Crespo - publicado em 17/11/22

As premissas do esporte e do futebol não são compatíveis com as denúncias sobre violação dos Direitos Humanos no país-sede da Copa

Daqui a alguns dias começa a Copa do Mundo do Catar, a mais polêmica da história. Isso porque a comunidade internacional denuncia a contínua violação dos Direitos Humanos no país desde que ele foi designado como sede da Copa, em 2010.

O Papa Francisco e outras organizações cristãs e de proteção aos Direitos Humanos também criticaram repetidamente a falta de direitos trabalhistas e as péssimas condições de trabalho nas obras de infraestrutura do mundial de futebol.

De fato, nos últimos anos, o país se preparou para sediar o evento com um programa de construção de oito estádios, um aeroporto, além de rodovias, transporte público, hotéis e até uma nova cidade, que sediará a final da Copa do Mundo.

Relatório entregue ao Papa

Em outubro de 2017, a Fundação para a Democracia Internacional denunciou ao Vaticano “a exploração e as graves violações dos Direitos Humanos” na construção destas infraestrutura. O relatório foi atualizado em 2022.

Tal documento destacava as condições de “escravidão” a que as empresas do Catar submetiam os trabalhadores migrantes, principalmente aqueles oriundos da Índia, do Paquistão, de Bangladesh, das Filipinas, do Quênia e do Nepal.

Resposta do Vaticano

O Papa Francisco enviou imediatamente uma carta endereçada a Gianni Infantino, presidente da FIFA, por meio da Fundação Scholas.

Nela, o pontífice expressou sua preocupação com essa situação e pediu explicações sobre a denúncia contida no relatório, que já falava de cerca de 2.000 trabalhadores mortos durante as obras da Copa.

A carta dizia: “A descrição de situações de flagrante subjugação e violação dos Direitos Humanos de trabalhadores e imigrantes no Catar motivou nossa preocupação”. Além disso, a carta solicitava um encontro urgente com Infantino no Vaticano ou na sede da Fifa.

Outras reclamações internacionais

A verdade é que, nestes anos de construção da infraestrutura no Catar, outras organizações também denunciaram as péssimas condições de trabalho dos operários da construção civil.

Por exemplo: Sgarab Burrow, secretário-geral da Confederação Sindical Internacional, disse em março de 2017 que a FIFA não assumiu a responsabilidade de respeitar os Direitos Humanos dos trabalhadores migrantes no Catar.

A Human Rights Watch, que tem sede em Nova York, também realizou uma investigação na qual garantiu que os migrantes que trabalham na construção civil no Catar, incluindo os que se dedicam às obras da Copa do Mundo de 2022, “trabalham em condições potencialmente quentes e úmidas”, o que causa a morte de centenas deles.

Além disso, em uma declaração de setembro de 2017, a entidade pediu que as autoridades do Catar “imponham restrições adequadas ao trabalho ao ar livre”. Também foi requisitado um relatório sobre as mortes dos trabalhadores.

Mais de 6.500 mortes?

No entanto, o diretor de Comunicação do governo do Catar, Saif al Thani, garantiu que o país está continuamente revisando suas políticas para garantir a proteção dos trabalhadores, principalmente os estrangeiros.

Mas a verdade é que as reclamações sobre as condições de trabalho e as mortes nos canteiros de obra não param de crescer.

De fato, o jornal britânico The Guardian denunciou, em fevereiro de 2021, que mais de 6.500 trabalhadores migrantes morreram no Catar desde que o país foi escolhido como sede da Copa do Mundo.

Trabalho em condições terríveis

Graças à investigação e relatórios de várias ONGs, como a Anistia Internacional e a Fundação para a Democracia, sabemos que alguns funcionários foram forçados a trabalhar entre 16 e 18 horas por dia, sete dias por semana. Alguns passaram meses e até anos sem um dia de folga.

A maioria dos trabalhadores também realizou tarefas ao ar livre e suportou temperaturas que chegam a 50 graus. E os abrigos que lhes foram fornecidos são pequenos, superlotados e sem as mínimas condições de higiene.

Devemos acrescentar que a pandemia da Covid-19 agravou a situação, já que muitos trabalhadores ficaram confinados em campos de trabalho, alguns sem salário e sem possibilidade de regressar aos seus países ou continuar a trabalhar. Era comum o empregador confiscar o passaporte ao assinar o contrato de trabalho.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicou, por sua vez, que existem lacunas nas informações coletadas no Catar e que, só em 2020, pelo menos 50 trabalhadores morreram, 500 ficaram gravemente feridos e 37.000 sofreram lesões diversas nas obras. Esses dados estão em um relatório de novembro de 2021.

Um erro?

A verdade é que a realização da Copa do Mundo no Catar encerra outras polêmicas, não só as que têm a ver com as condições de trabalho.

A sua designação como sede também não foi muito transparente. Já em 2013, a revista France Football publicou as irregularidades cometidas pela FIFA e possíveis propinas que a instituição teria recebido ao atribuir a sede do Mundial ao Catar. O próprio presidente da FIFA na época, Sepp Blatter, reconheceu há poucos dias que esta designação foi um erro.

O Papa Francisco durante uma reunião informal em 2016 no Vaticano com o sucessor de Blatter, Giovanni Infantino, pediu-lhe que lutasse contra a corrupção que assolava a federação internacional de futebol.

É hora de falar de futebol

Com este panorama, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, enviou uma carta às diferentes federações nacionais de futebol. Nela, ele exortou as 32 nações que disputam a Copa do Mundo de 2022 a “focar no futebol”, dando a entender que elas deveriam deixar as questões polêmicas de lado.

A Anistia Internacional, por exemplo, não demorou a responder, rejeitando esta atitude “que dá as costas às violações sofridas por milhões de pessoas em todo o mundo”.

Além disso, várias organizações de proteção aos Direitos Humanos insistem que o Catar e a FIFA devem criar um fundo de reparação para compensar milhares de operários migrantes que sofreram “graves abusos” durante os preparativos para a Copa do Mundo. E exigem que se garanta que os abusos não se repitam em torneios futuros.

Posição da igreja

A Igreja, através de múltiplas Encíclicas e Cartas Apostólicas apoiadas nas Sagradas Escrituras, formou uma extensa documentação sobre a esfera social, cultural, política e econômica: A Doutrina Social da Igreja.

Num mundo que necessita de uma visão moral para construir uma ordem social mais humana, a Igreja sempre procurou oferecer um conjunto de valores morais que afirmem a dignidade do homem e o valor do seu trabalho. 

Sem dúvida, o documento magistral que aborda a questão com mais detalhes é a encíclica Laborem exercens, de João Paulo II.

O trabalho dignifica

O Papa Francisco também se referiu à questão do trabalho em muitas ocasiões. Numa homilia na Casa Santa Marta em 19 de maio de 2016, o pontífice afirmou que quem explora pessoas através do trabalho é “um sanguessuga” e comete um “pecado mortal”.

Enfim, os cenários em que os países participantes vão jogar já estão prontos. É hora da bola começar a rolar. No entanto, esses erros nunca devem ser repetidos.

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