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O Holodomor completa 90 anos, sob a aberrante “discrição” da mídia

Papa Francisco já deplorou publicamente o Holodomor

Antoine Mekary | ALETEIA

Francisco Vêneto - publicado em 01/12/22

No entanto, o Papa Francisco já execrou explicitamente "a morte por fome que o regime estalinista provocou e que deixou milhões de vítimas" na Ucrânia

Durante a celebração eucarística deste 26 de novembro numa igreja greco-católica ucraniana em Roma, o cardeal Leonardo Sandri recordou um dos momentos mais horrendos da história do povo ucraniano e de toda a humanidade: o Holodomor.

A liturgia celebrada naquela data recordava precisamente os 90 anos da genocida estratégia de imposição proposital da fome a milhões de ucranianos, por determinação do Partido Comunista Soviético sob o comando do ditador Joseph Stalin. Esse brutal período de fome provocada premeditadamente se estendeu de 1932 a 1933, causando a morte de 3,5 milhões a 10 milhões de ucranianos. No atual contexto da ofensiva russa na Ucrânia, esse trágico episódio de genocídio foi recordado com particular gravidade.

O cardeal Sandri, que é prefeito emérito do Dicastério para as Igrejas Orientais, afirmou na homilia:

“Nenhum poder humano pode arrancar do nosso coração a nossa identidade como Filhos do Pai que está no céu. Os céus da Ucrânia são riscados por instrumentos de destruição, que atacam por todo lado, alvejando inclusive as enfermarias pediátricas. Em cada um dos casos, quando não semeiam diretamente a morte, provocam a interrupção da eletricidade, da água e de tudo o que possa aquecer as casas e as famílias, agora que o frio se intensifica e o inverno se faz sentir”.

Papa Francisco deplora o Holodomor

A Igreja Católica denuncia e execra o Holodomor regularmente, chamando as atenções do mundo para essa mácula hedionda que, porém, ainda é muito pouco conhecida em comparação com outros episódios propositais de genocídio.

No ângelus dominical de 26 de novembro de 2017, por exemplo, o Papa Francisco também recordou enfaticamente os milhões de ucranianos vitimados pela fome que as políticas do comunismo soviético provocaram deliberadamente nos campos da Ucrânia a fim de “coletivizar” fazendas de gado e terras agrícolas.

Na mensagem ao povo ucraniano, o Papa Francisco mencionou explicitamente

“…a tragédia do Holodomor, a morte por fome que o regime estalinista provocou e que deixou milhões de vítimas. Rezo pela Ucrânia, para que a força da paz possa curar as feridas do passado e promover caminhos de paz”.

Os fatos do Holodomor

O abominável episódio sofrido pelo povo da Ucrânia foi o mais vultoso, mas não o único do gênero sob as políticas soviéticas.

Além das vítimas ucranianas, também sofreram suplícios semelhantes 1,5 milhão de pessoas no Cazaquistão e quase outro milhão de habitantes do norte do Cáucaso e de regiões ao longo dos rios Don e Volga – todos na mesma época e todos propositalmente provocados pelo governo comunista.

O genocídio ucraniano começou devido à resistência de muitos camponeses do país à coletivização forçada. Tratava-se de uma das bases do regime comunista, que impõe a supressão da propriedade privada. Os soviéticos confiscaram maciçamente o gado, as terras e as fazendas dos ucranianos. Além disso, impuseram punições que iam de trabalhos forçados ao assassinato sumário, passando por brutais deslocamentos de comunidades inteiras.

Apesar de ter-se tratado do extermínio sistemático de um povo, ainda não há, na assim chamada “comunidade internacional”, um reconhecimento amplo e claro do genocídio ucraniano. Algumas correntes ideológicas evitam o termo genocídio. Elas alegam que o Holodomor foi “apenas” uma consequência de “problemas logísticos” que ocorreram com as radicais alterações econômicas da União Soviética. Ou seja, uma coisa deixaria de ser essa coisa porque chegou a ser essa coisa como efeito colateral de alegadas boas intenções…

É bastante interessante observar que, recorrente e teimosamente, os defensores do comunismo confeccionam teorias suavizantes e condescendências “técnicas” para driblar a verdade sobre essa aberração histórica. No entanto, o comunismo jamais passou, nem poderia, de uma monstruosidade tão odiosa e criminosa quanto o nazismo.

Holodomor e Holocausto

Aliás, falando em nazismo, praticamente todo o mundo já ouviu falar do Holocausto. Muitíssimo menos gente, porém, já ouviu falar do Holodomor. Não se trata de comparar os horrores, mas de questionar o relativo silêncio em torno a este em comparação com a ampla divulgação que se dá àquele. Tampouco se trata de sugerir que qualquer desses episódios atrozes seja “menos grave” ou “mais grave” que o outro. Afinal, só há relativização moral do extermínio humano na mente de quem o instrumentaliza.

Mas é fato que praticamente todo o mundo que tem acesso à mídia já ouviu dizer que Hitler matou 6 milhões de judeus nos campos nazistas de concentração e extermínio entre 1933 e 1945. Mesmo nisto, porém, há uma lacuna muito importante a destacar. As pessoas, em geral, sabem que esse extermínio atingiu majoritariamente o povo judeu. Muitíssimos, no entanto, não sabem que ele também se estendeu a grupos bem menos recordados, como ciganos, poloneses, prisioneiros de guerra soviéticos, deficientes físicos e mentais, homossexuais…

Além disso, o Holocausto também matou vítimas católicas clamorosamente e propositalmente “esquecidas”. São Maximiliano Kolbe e Santa Teresa Benedita da Cruz são dois exemplos ilustres, dentre muitos outros. Eles bastam, no entanto, para desmascarar a campanha de desinformação orquestrada por quem acusa a Igreja de ter sido “cúmplice” daquela carnificina.

Genocídio comunista

Não se diminui em nada, portanto, a necessidade imperiosa de reconhecer o covarde horror que o povo judeu e outras minorias sofreram sob a perseguição nazista. No entanto, é igualmente necessário observar que muitíssimo menos gente já ouviu dizer que, pouco antes, Stalin matou 6 milhões de ucranianos, cazaques e outras minorias soviéticas mediante a imposição da fome massiva.

Também são muito poucos, ainda, os que sabem dos outros 14 milhões de pessoas que o comunismo assassinou só na União Soviética. E isto sem falar do restante de vítimas, numa lista estarrecedora de seres humanos que o mesmo comunismo exterminou no mundo todo ao longo do século XX:

  • 65 milhões na República Popular da China
  • 1 milhão no Vietnã
  • 2 milhões na Coreia do Norte
  • 2 milhões no Camboja
  • 1 milhão nos países comunistas do Leste Europeu
  • 1,7 milhão na África
  • 1,5 milhão no Afeganistão
  • 150 mil na América Latina
  • 10 mil como resultado das ações do movimento internacional comunista e de partidos comunistas fora do poder.

Quem estimou esta soma petrificante de 94,4 milhões de pessoas exterminadas pelos regimes comunistas foram os autores de “O Livro Negro do Comunismo: Crimes, Terror, Repressão“. É uma obra coletiva de professores e pesquisadores universitários europeus encabeçados pelo francês Stéphane Courtois.

O livro é de 1997. Portanto, ele obviamente não computa as mortes que o comunismo perpetrou de lá para cá nas regiões que continuaram sujeitas a esse regime e aos seus métodos opressivos. É o caso da China e da Coreia do Norte, os exemplos mais emblemáticos. Mas também é o cenário de regiões que retrocederam na sua trajetória democrática para reeditar essa histórica aberração, particularmente a Venezuela de Chávez, Maduro e seus aliados do Foro de São Paulo.

Cabe registrar que, em pleno 2022, os venezuelanos compõem, estarrecedoramente, o maior grupo nacional de refugiados no Planeta Terra, superando os sírios, que sofrem uma devastadora guerra civil há uma década, e os próprios ucranianos, que enfrentam neste momento o maior conflito bélico da Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

“Discrição” da grande mídia

É particularmente chamativo o pouco espaço que a assim chamada “grande mídia” costuma dar ao Holodomor.

Num contexto ideológico de omissão e descontextualização dos fatos, é ainda mais meritório que a Igreja Católica levante a voz, inclusive apontando explicitamente a responsabilidade direta do comunismo sobre essa tragédia descomunal.

Aliás, não é a primeira vez que a Igreja e, nomeadamente, o Papa Franciso dá nome aos bois. Ele também foi muito claro ao chamar de genocídio outra chacina da qual o mundo até recentemente “se esquecia”: aquela que a Turquia otomana perpetrou contra a Armênia cristã em 1915.

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