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Sobre a infidelidade e a arte

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Feliciana Merino Escalera - publicado em 18/01/23

Uma reflexão sobre o "caso Shakira"

A internet acompanha a briga entre a cantora Shakira e seu ex-marido, Piqué, por causa da nova música da artista, que atingiu 100 milhões de visualizações em poucos dias. A letra contém indiretas e provocações sobre fatos que marcaram o relacionamento dos dois, inclusive a suposta traição de Piqué.

É verdade que controvérsias vêm de ambas as partes. É verdade que a infidelidade produz efeitos muito nocivos nas pessoas, mas também é verdade que a arte – neste caso, a música – permite expressar a dor causada por uma ferida dessas características.

Não vou entrar no mérito se a música é vingativa ou não, não vou julgar se as reações de quem causou o dano estão corretas ou não. Num mundo onde cresce a mentira e sua aparência de verdade, onde o mal e sua camuflagem como bem “normalizado” é a moeda que todas as opiniões vendem, entrar nessa discussão é simplesmente ridículo. 

É claro que o homem é o animal da justificação. Hoje a infidelidade simplesmente se tornou normal: é normal se apaixonar por outra pessoa e, portanto, romper o vínculo matrimonial e familiar. Tornou-se normal encobrir o pecado dizendo que o amor não existiu. É normal justificar-se de mil maneiras, até mesmo em nome da “honestidade”. Toda mentira é justificada por uma aparência de normalidade e “bom trabalho”, que é a reação mais instintiva que o ser humano pode ter para negar a si mesmo o mal feito.

“Normalizar” para silenciar as consciências

A confusão entre vítimas e carrascos é tão típica do nosso tempo que até figuras renomadas da vida política, como as declarações do ex-prefeito de Nova York, Rudy Giuliani, de que “todos” cometem infidelidade , convertem o fato de enganar o cônjuge como algo justificável.

No entanto, é verdade que a superação de tal afronta pelo que é não virá apenas de uma atitude que disfarça publicamente a dor por meio de reações que são humanas, mas que nos separam de nossos corações. A ferida não pode ser transformada em ódio. A tragédia não pode dar origem a um mal maior. 

Porém, o silêncio também não ajuda, o silêncio apenas permite que os bandidos não sejam desmascarados, e lhes dá novo poder para continuar escondendo o mal sob a roupagem do bem. O silêncio diante do mal só pode ser o silêncio de Deus, como oferta para transformá-lo em bem maior. É o silêncio orante, uma forma de oração que pode permitir aos algozes gozar do Paraíso, se não se fecharem ao milagre do Seu amor. 

No entanto, esse silêncio não é comparável ao silêncio humano.  A verdade é sempre o verdadeiro triunfo para construir um mundo onde o mal não anda solto nem tem a última palavra. 

Um magnífico professor e amigo sempre me disse uma frase que me parece ótima: “A covardia é pior que o mal, porque o mal acampa quando os bons não fazem nada.”

Expressar o “bem” através da arte

A arte é a expressão de um desejo de verdade, do bem e da beleza que reside no coração humano e só se satisfaz no encontro com a Verdade plena. A arte, entretanto, permite-nos tentar lidar com a dor, com a ferida, com os sentimentos de raiva, tristeza e desolação que o mal produz. 

Em toda expressão artística há duas partes. Uma é a expressão do artista, que mostra através da obra uma parte de sua experiência humana. Outra é a recepção por parte do espectador através da identificação de palavras, imagens e ritmos. Em ambos os sentidos, a arte consiste em uma libertação, uma catarse, o modo necessário de ordenar nossas vidas para seguir caminhando. 

Não acho tão negativo que uma música possa expressar dor, ressentimento ou mesmo raiva, sentimentos profundamente normais em quem sofre uma afronta como a que Shakira sofreu. 

Em outro sentido, a música diz muito mais, porque representa também a luta, a voz de todas as mulheres que se sentem reconhecidas em sua situação e não conseguem levantar a voz. Expressa um desejo de justiça, verdade e bem que todos carregamos dentro de nós. 

Shakira, de fato, poderia ter sido mais elegante, falando sobre a experiência da traição de uma forma muito mais poética e humana – como já fez em outras canções anteriores.

O coração, objeto de consumo

Ao personalizar tanto o tema, com referências tão explícitas, a sua expressão artística banalizou uma experiência da maior importância e, com ela, a sua transcendência e universalidade. Ainda assim, é uma expressão do que é humano, com tudo de bom e de ruim, embora de uma forma que, longe de alertar e conscientizar, pode ser ridicularizada.

É o que acontece quando também trocamos as coisas do coração como se fossem objetos de consumo: aparecem como coisas que, uma vez consumidas, deixam para trás a profunda insatisfação que nos devora, um impulso que teremos de continuar alimentando como um animal faminto com sede de vingança.

A arte tem sempre um efeito contagiante: o de nos reconhecermos numa escola que abre a janela para o âmago da nossa intimidade e experimentarmos, com ela, sentimentos muito semelhantes, embora de forma pouco original. Acontece também com a poesia, pintura e com o cinema. 

O importante é ir daí ao coração, ver o que nos acontece quando escrevemos ou ouvimos uma música ou um poema, ou quando fazemos ou observamos uma obra de arte que está totalmente ligada às nossas emoções mais profundas e vai além delas, as transcende. Porque a Arte, como expressão do Amor, pode ser reconhecida na tragédia, mas sem lhe conferir poder. Não há poder maior do que a Verdade, a Beleza e o Bem, que só um Amor maior pode testemunhar.

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