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Todo prazer é mau?

casal casado

Viktor Solomin/Stocksy United

Marzena Devoud - publicado em 13/02/23

Deus é contra o prazer? O prazer é um obstáculo à virtude? O amor cristão é anti-erótico? As respostas vão te surpreender

Quando pensamos em prazer, a vida moral provavelmente não é a primeira associação que nos vem à mente. Ao contrário, pensamos em todos os possíveis excessos de prazer. No entanto, por medo de seus excessos, enquanto alguns pensadores cristãos preferiram encerrar o assunto dizendo que todo prazer é mau, outros como Santo Agostinho, Santo Inácio de Loyola ou São Tomás de Aquino insistem na importância que Deus dá aos desejos do ser humano que se expressam através da busca do prazer. À pergunta “Todo prazer é mau?”, São Tomás dá esta resposta direta: “Ninguém pode viver sem prazer corporal e sensorial e aqueles que ensinam o contrário estão em desacordo com seu discurso”, como recorda o irmão Jean-Marie Gueullette em seu livro “Pas de vertu sans plaisir” (Cerf). E ele ressalta que para São Tomás, o prazer é um componente da virtude. Isso significa que mesmo os grandes ascetas não renunciaram ao prazer em suas vidas!

As papilas gustativas não foram inventadas após o pecado original

Pois o prazer faz parte da vida do ser humano porque foi criado por Deus. “Portanto, Deus não pode ser contra o prazer, pois foi Ele mesmo que o inventou! As papilas gustativas não foram inventadas após o pecado original. O prazer, portanto, não é bom nem ruim. É neutro. Não tem valor ético, não tem qualificação moral”, diz o Padre Pascal Ide, que também é médico, a Aleteia.

Prazer validado pela alma

mulher com bombom

São Paulo escreveu-o bem aos cristãos de Corinto: “Buscai, pois, com sinceridade os maiores dons. E agora eu vos mostrarei o caminho da excelência” (1 Cor 12:31). Assim, o homem é chamado a procurar obter o melhor. Com o risco, às vezes, de tomar o caminho errado. “É nesta busca permanente pela vida, pela plena comunhão com o presente, que nos sentimos atraídos. Correndo o risco de confundir o prazer do paladar com a gula, correndo o risco de misturar o prazer do amor com a pornografia, correndo também o risco, de uma forma mais geral, de se afirmar como exploradores do mundo em vez de aceitar ser seus cultivadores”, observa corretamente o Padre Benoist de Sinety à Aleteia.

Celebrar no dia de Páscoa com uma mesa lindamente decorada, boa comida e vinho para degustar é um prazer que toca tanto o corpo quanto a alma

O prazer, portanto, não deve ser evitado, mas sim colocado no centro da busca do bem. Não se trata de rejeitar o prazer da vida, mas de orientá-lo para que ele tenha o seu devido lugar. “O desafio é fazer do prazer uma fonte de alegria”. Um ato gratificante é um ato feliz. Ele pode servir como uma assinatura emocional. Porque quando nos entregamos de forma desinteressada, há uma alegria de superabundância e uma paz interior que nos acompanha”, diz o Padre Pascal Ide. Poder-se-ia dizer que o prazer, então, é validado pela alma. Celebrar no dia de Páscoa com uma mesa lindamente decorada, boa comida e vinho para degustar é um prazer que toca tanto o corpo quanto a alma. Celebrar desta forma é introduzir a alegria no prazer.

E o prazer sexual?

casal apaixonado

Em seu livro “Tentation du christianisme”, co-escrito com o historiador Lucien Jerphagnon, o filósofo Luc Ferry fica entusiasmado ao apontar que no cristianismo, a doutrina do amor não tem nada de “anti-erótico”, como geralmente é reduzido. E como exemplo, ele cita o texto do Catecismo da Igreja:

1015. «Caro salutis est cardo – A carne é o fulcro da salvação». Nós cremos em Deus, que é o Criador da carne; cremos no Verbo que Se fez carne para remir a carne; cremos na ressurreição da carne, acabamento da criação e da redenção da carne.

Um cristianismo sem “eros” seria um mundo à parte, para ser admirado, mas não vivido.
De fato, Luc Ferry estava certo. Bento XVI, que dirigiu a redação do Catecismo, trouxe uma nova e bastante revolucionária perspectiva ao amor cristão. Em sua encíclica Deus caritas est, o papa alemão desenvolve seus pensamentos sobre o lugar do eros no amor cristão. Ele assinala que esquecê-lo é distorcer o sentido mais profundo do Evangelho. E ele reconhece que nas discussões filosóficas e teológicas, eros e ágape, estas duas concepções de amor, foram radicalizadas a ponto de muitas vezes serem opostas: eros seria amor luxurioso e egoísta, enquanto ágape seria amor puro e sacrificial. Bento XVI critica claramente esta abordagem, ressaltando que um cristianismo sem eros seria um mundo à parte, para ser admirado, mas não vivido:

A fé bíblica não constrói um mundo paralelo ou um mundo contraposto àquele fenómeno humano originário que é o amor, mas aceita o homem por inteiro intervindo na sua busca de amor para purificá-la, desvendando-lhe ao mesmo tempo novas dimensões. Esta novidade da fé bíblica manifesta-se sobretudo em dois pontos que merecem ser sublinhados: a imagem de Deus e a imagem do homem. (DCE 8)

Isto significa que eros e ágape nunca podem ser completamente separados, e que eles devem até mesmo ser reunidos:

Na realidade, eros e agape — amor ascendente e amor descendente — nunca se deixam separar completamente um do outro. Quanto mais os dois encontrarem a justa unidade, embora em distintas dimensões, na única realidade do amor, tanto mais se realiza a verdadeira natureza do amor em geral. Embora o eros seja inicialmente sobretudo ambicioso, ascendente — fascinação pela grande promessa de felicidade — depois, à medida que se aproxima do outro, far-se-á cada vez menos perguntas sobre si próprio, procurará sempre mais a felicidade do outro, preocupar-se-á cada vez mais dele, doar-se-á e desejará « existir para » o outro. Assim se insere nele o momento da agape. (DCE 7)

Bento XVI vai ainda mais longe ao descrever o amor do próprio Deus como eros:

Ele ama, e este seu amor pode ser qualificado sem dúvida como eros, que no entanto é totalmente agape também. (DCE 9)

Com o sacramento do matrimônio, o casal constrói um sinal sacramental, um sinal do amor de Deus pelo ser humano, com base em sua “linguagem corporal”. O corpo humano é assim capaz de tornar visível no mundo a ternura de seu Criador invisível. Os cônjuges podem viver sua sexualidade em mútua autodoação. E, neste caso, eles se santificam um ao outro. Eles tornam o mundo mais belo e puro. Enfim, eles fazem do amor humano um caminho de salvação para todos.

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