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A discrição, só uma virtude ou o próprio Espírito Santo em ação

Discrição

GaudiLab / Shutterstock

Marzena Devoud - publicado em 14/03/23

Em uma sociedade que valoriza a imagem e onde nos exibimos nas redes sociais, a discrição está voltando a ser moda. E se esta virtude, que parecia tão ultrapassada, nos permitisse experimentar uma preciosa alegria e paz interior?

Quando tudo nos impulsiona a nos expor, a nos comunicar, a nos expressar, até mesmo a compartilhar imediatamente nossos pensamentos e sentimentos mais secretos, há aqueles que sabem permanecer discretos. Aqueles que falam em voz baixa para não perturbar os outros e que observam o mundo com paciência e delicadeza. Hoje em dia, não gostar de se destacar da multidão é considerado até suspeito. “É exatamente o que eu experimento em meu trabalho”, diz Magali, 33 anos, uma designer gráfica. Magali tem um caráter reservado e prefere não se impor em sua equipe. “Minhas roupas são simples, minha maneira de falar é decididamente discreta”. Eu também tenho regras de cortesia. Odeio interromper os outros a fim de colocar o foco em mim e vender a mim mesma! Portanto, sim, muitas pessoas pensam que sou antiquada”, diz ela à Aleteia.

A discrição é um olhar atento, capaz de discernir em detalhes as necessidades profundas, às vezes muito humildes, dos que nos cercam

Aparentemente, nada está mais ultrapassado do que a discrição. Será que ainda existe? É uma desvantagem que precisa ser corrigida urgentemente? E se ser discreto, manter uma atitude de introspecção, manter o silêncio para dar espaço aos outros, fosse uma experiência de alegria e de preciosa paz interior?

Seja um traço de caráter ou uma fidelidade aos valores da “boa educação” que exige contenção tanto na atitude quanto na aparência, a discrição não só tem seus benefícios, mas pode ser o trabalho ativo do Espírito Santo.

Para o Padre Raphaël Buyse, autor de uma obra luminosa em francês intitulada “Il n’y a que les fous pour être sages” (Ed. Salvator), é uma virtude específica que se desdobra numa vida com os outros e expressa “respeito pelo amor de cada ser humano, começando por aqueles que estão mais próximos e mais fracos”.

É um “olhar atento, capaz de discernir em detalhes as necessidades profundas, às vezes muito humildes, dos que nos cercam”. É uma virtude moderadora que, em todas as suas nuances, equilibra a vida e a penetra com uma misteriosa delicadeza”, escreve ele, esboçando um retrato de um grande monge beneditino, o belga Frédéric Debuyst (1922-2017).

Seguir a Cristo nunca deve ser feito com esforços violentos ou solavancos exuberantes

Este fundador do mosteiro de Santo André de Clerlande (localizado em Ottignies-Louvain-la-Neuve, Bélgica) era um homem de grande gentileza: era um mestre da arte da discrição. Esta discrição se torna a obra do Espírito do Senhor. “Sua vida mostrou, sem grandes discursos, que seguir a Cristo nunca deve ser feito através de esforços violentos ou solavancos exuberantes, mas através de grande paciência na vida diária, um ritmo regular de oração e trabalho, e uma capacidade de suportar nossas próprias deficiências e as dos outros”, escreve o Padre Raphaël Buyse.

A delicada arte de praticar a caridade

A discrição, portanto, é o Espírito de sabedoria que nos inspira a passar de preferência do “respeito pelos mais dignos” para o “respeito pelos mais frágeis”. É bondade que “fala pouco, não se apresenta, não se espalha em organizações e estatísticas”, continua ele.

Mas como podemos aprender esta delicada arte de praticar a caridade? Uma maneira é seguir a Regra de São Bento. Pois este tesouro de sabedoria cristã surpreende por uma espiritualidade muito encarnada. É uma questão de viver a caridade o mais próximo possível das pessoas e das coisas, sem negligenciar as pequenas realidades da vida cotidiana. E neste conjunto de conselhos aplicáveis fora da vida monástica, é dada ênfase especial à discrição, considerada como a arte de praticar a caridade. Uma escola para aprender a amar que se expressa nestas duas indicações:

1ESCUTAR ATENTAMENTE O OUTRO

“Escuta, meu filho”. Esta é a primeira palavra da Regra. Para ouvir, é preciso primeiro ficar em silêncio. O silêncio nos permite recentrar-nos internamente, colocar-nos na presença de Deus e estar mais atentos aos outros. Para São Bento, desligar-se de si mesmo para escutar a Deus – e assim aos outros – é a maneira mais simples de se deixar transformar e embarcar no caminho do Evangelho. Sempre com a mesma atitude diante de Deus e diante de cada pessoa.

2TER RESPEITO POR CADA SER HUMANO

O que determina a relação com o outro é o respeito. O reconhecimento das necessidades e imperfeições, tanto as da outra pessoa quanto as suas próprias, é a chave para a vida comunitária. “Todos aqueles que se levantam serão recebidos como Cristo”, diz São Bento, pensando em cada novo membro de sua comunidade. Ele vê a responsabilidade do abade como a de um pastor, em referência à imagem bíblica retomada pelo Evangelho. Preocupado com cada pessoa, “o abade toma o lugar de Cristo” para o bem da comunidade, e para que cada um de seus membros se aproxime de Deus.

A discrição, esta virtude evangélica, é o caminho da conversão do coração e um caminho para o renascimento no Espírito, como Jesus revelou a Nicodemos: “Fazei isto e vivereis”.

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