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“O câncer me deu mais do que tirou”

Matej Pecovnik

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Katarina Berden - publicado em 20/03/23

O testemunho impactante de quem recebeu o diagnóstico de câncer e transformou a dor e a incerteza em ajuda a quem também sofre com a doença

Matej Pečovnik foi diagnosticado com um tipo de câncer, o linfoma de Hodgkin, aos 25 anos de idade. Como ele diz, foi quando seu mundo tremeu. Embora o tratamento, que durou cerca de meio ano, fosse muito cansativo e difícil, ele encontrou motivação para continuar. O jovem descreve o último dia de seu tratamento, quando ele conseguiu vencer o câncer, como seu segundo aniversário.

Reconhecendo a importância de uma rede de apoio e a ajuda de outros, ele e dois amigos fundaram a OnkoMan, a Sociedade Oncológica Eslovena para Homens, que tem como objetivo conscientizar os homens sobre o câncer e a importância de cuidar da saúde. Na verdade, Matej gosta de ajudar os outros e não vê sua ajuda como um trabalho, mas como um privilégio.

Ele deu uma entrevista à Aleteia Eslovênia e falou sobre a doença, o voluntariado e a fé.

Aleteia: O que você sentiu quando recebeu seu diagnóstico?

Matej Pečovnik: Quando fui do hospital em Slovenj Grad para o Instituto de Oncologia, pensei comigo mesmo que aquilo não poderia acontecer. Quando o oncologista me disse que suspeitavam do linfoma de Hodgkin, eu disse: Ótimo, você está cortando este linfoma, graças a Deus não é câncer. Só depois descobri que era um tipo de câncer.

Depois, a notícia me sacudiu os alicerces. O desconforto, as nuvens escuras – era maio, o clima lá fora era lindo – e eu estava no Instituto de Oncologia pensando no que tinha acontecido comigo. Por que eu, que na maioria das vezes tinha vivido uma vida saudável e esportiva?

Entretanto, penso que tudo na vida acontece por uma razão e para mim o câncer me deu mais do que me tirou. Tenho bons amigos por causa da doença, consegui separar o joio do trigo naquela época, os amigos que ficaram são amigos ainda hoje.

Como você lidou com a doença?

Certamente houve momentos em que foi difícil. Mas só você pode se levantar. A sua família também pode ajudar. Eu tinha meus pais, minha irmã, minhas tias e meus tios – e eu estava realmente me curando, não precisava me preocupar com mais nada. Sei de casos em que os doentes têm que cuidar de mil outras coisas além do tratamento – e acho difícil de imaginar isso. Sou muito grato a todos que me ajudaram naquela época.

No entanto, os momentos escuros em sua cabeça devem ser o mínimo possível, você deve bloqueá-los de alguma forma, pensar em coisas agradáveis, ser positivo, confiar na oncologia. Eu nunca duvidei dos médicos, estou convencido de que nossa oncologia é muito boa.

Além do pessoal médico, o outro aspecto é muito importante. Quando fiquei doente, não havia vida social, não havia sociedade de ajuda. Havia a Associação de Pacientes com Câncer, à qual eu me associei rapidamente, e foi lá que começamos a fazer a diferença, a imprimir livretos, a escrever histórias que levantam as pessoas.

Oncologistas e enfermeiros podem fazer muito, mas só podem dar uma parte, e a parte da sociedade é muito importante na reabilitação e no sucesso final, porque é a parte que levanta você. O oncologista é apenas um companheiro, mas nós realmente sabemos o que significa quimioterapia, o que significa radioterapia, o que significa cirurgia, nós sabemos o que nos ajuda.

É verdade que, no final, é a tua cabeça que te levanta.

Matej Pecovnik
Matej Pecovnik

Você tinha 25 anos de idade, no auge da juventude. Como você lidou com o pensamento de impermanência?

No início foi muito, muito difícil, porque você não sabe o que é essa doença. O choque, o desconforto, todas as coisas que passam por sua cabeça: “25 anos e acabou…”!

Então você encontra alguém no Instituto de Oncologia que lhe conta a sua história. Você decide, faz um plano em sua cabeça e continua lutando. Quanto mais você se aproxima do fim, mais você pensa que não viu o mundo inteiro, não esteve no jogo mais importante de seu clube, não esteve no Monte Ursula 50 vezes por ano – pequenos objetivos que você estabeleceu para si mesmo.

Esses pequenos objetivos são muito importantes na luta contra a doença, nós os chamamos de “passos de bebê”. Quando eles dizem, no início, que você vai ter um certo número de sessões de quimioterapia, você já começa a fazer planos para quando você vai ficar bem novamente, pensando: “Bem, eu estarei fora daqui no meu aniversário”. Então você percebe que o sangue não está bem e que o plano muda novamente.

Há pequenos contratempos o tempo todo, mas eu tenho visto a luz no fim do túnel sempre. Em algum lugar por volta do quinto dia de tratamento, meu plano foi feito e não havia razão para que não funcionasse, mas funcionou. Este ano, completam-se 20 anos desde o meu diagnóstico. Meu segundo aniversário é em outubro. Estou comemorando duas vezes, um aniversário verdadeiro – em que conto os anos – e o outro, em que comemoro a idade que sinto que tenho. Agora estou em algum lugar por volta dos vinte anos.

Há algo tenha mudado sua perspectiva desde o seu diagnóstico?

Eu não mudei muito, eu era positivo antes. Mas é verdade que há menos preocupações do que havia antes. Não me importa se a louça está lavada agora ou em duas horas, se a roupa está pendurada no varal por um dia ou mais – isso não é vital.

Tornei-me ainda mais consciente de que é bom ser honesto consigo mesmo e com os outros, eu não gosto de ser sorrateiro, prefiro que alguém me diga que algo está errado em vez de falar nas minhas costas. Isso me incomoda mais do que qualquer outra coisa.

Eu gosto de ajudar, não é difícil para mim atravessar a Eslovênia de carro para ajudar alguém que tem o mesmo diagnóstico que eu tive. Minha missão na vida, desde 2003, tem sido ajudar os outros porque sei como é difícil quando a dor e o sofrimento batem e não há ninguém a quem recorrer.

A primeira tarefa de nossa associação é ajudar os combatentes do instituto do câncer, e a segunda tarefa é lembrar aos homens que eles precisam cuidar de sua saúde, não esperar pelo último minuto. Tentamos ser diferentes, provocativos, sorridentes, e nossos eventos são assim.

Os homens precisam de encorajamento mais concreto do que as mulheres. Então, precisamos prestar ainda mais atenção para aumentar a conscientização dos homens e ajudá-los.

É um caminho íngreme no início, mas depois a alegria da vitória é muito maior. O mundo é um lugar melhor se rirmos, se formos otimistas, se nos ajudarmos uns aos outros. Estou convencido de que se levantarmos os outros, levantamos a nós mesmos. Quanto mais cedo percebermos isso, melhor.

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