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Direto do Vaticano: “Não sou um manipulador”, diz cardeal no caso do edifício de Londres

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Antoine Mekary | ALETEIA

I. Media - publicado em 21/03/23

Seu Boletim Direto do Vaticano de 21 de março de 2023

Por Isabella de Carvalho e Camille Dalmas – “Não sou um manipulador, nunca manipulei ninguém, especialmente o Papa”, disse o Cardeal Angelo Becciu na audiência de sexta-feira no chamado caso do “edifício de Londres”. A audiência no Vaticano também viu o fim do testemunho do sucessor do cardeal sardenho como vice-secretário de Estado, Dom Edgar Peña Parra.

Durante a audiência de 9 de março, o promotor de justiça revelou três cartas trocadas entre o Papa e o cardeal. Na primeira carta, datada de 21 de julho de 2021, o Papa esclareceu dois pontos relativos ao julgamento, obviamente a pedido do cardeal. A segunda, datada de 24 de julho de 2021, foi uma resposta do alto prelado na qual ele pediu ao Papa que apoiasse sua defesa, assinando dois textos que ele havia escrito. O pontífice finalmente recusou em uma terceira carta enviada em 26 de julho de 2021, na véspera do início do julgamento.

Surpreendido com a resposta do Papa

O Cardeal Becciu, em declaração espontânea no início da audiência em 17 de março, criticou o uso dessas cartas pelo promotor da justiça, dizendo que esse intercâmbio não havia sido apresentado em seu contexto. Negando-se a ser um “manipulador”, ele se baseou em uma carta inédita que ele disse ter enviado ao Papa Francisco em 20 de julho, um dia antes da primeira carta apresentada na audiência anterior.

“Como pediu, estou enviando-lhe as duas declarações para serem assinadas o mais rápido possível, porque tenho que submetê-las ao tribunal”, disse o Cardeal Becciu na carta ao Papa. O pontífice, disse ele, tinha de fato o instruído a apresentar-lhe estas duas declarações por carta para que pudesse assiná-las durante uma conversa telefônica em 19 de julho de 2021.

O Cardeal Becciu explicou que estava muito surpreso com a resposta do Papa de 21 de julho, acreditando que ela não tinha sido escrita pelo pontífice – que ainda estava se recuperando de uma grande operação de cólon em 1 de julho. Para o cardeal sardenho, o “estilo” desta carta, assim como o da de 26 de julho, não era o do pontífice e as versões dos fatos expostos nas cartas estavam em “total contraste” com a conversa telefônica de 19 de julho.

Os dois pontos que o cardeal queria que o Papa confirmasse eram, em primeiro lugar, que o pontífice o havia de fato autorizado a realizar a operação de libertação da freira colombiana Gloria Narvaez – utilizando os serviços de Cecilia Marogna. Ele também queria que o Papa confirmasse que ele lhe havia pedido para investigar uma oferta de compra do edifício londrino feita pelo italiano Giancarlo Innocenzi Botti – que Becciu havia apresentado ao pontífice.

Propostas suspeitas

Durante as audiências de 16 e 17 de março, Dom Edgar Peña Parra referiu-se a duas propostas suspeitas para a compra do imóvel que chegaram à Santa Sé em 2020. Além da mencionada acima, outra proposta foi feita por uma empresa chamada Fenton Wheelan.

O prelado disse que imediatamente achou estas ofertas “muito estranhas” porque eram muito altas – 300 milhões de libras esterlinas. O Secretário de Estado havia realizado a devida diligência no edifício e sabia que valia entre 140 milhões e 160 milhões de libras esterlinas, portanto as ofertas estavam “fora do mercado”.

O venezuelano havia então solicitado que o promotor da justiça fosse informado. Foi o Secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, e a Secretaria de Economia que trataram destes assuntos, explicou ele. A Secretaria de Economia teria lhe informado que estas propostas pareciam vir de círculos ligados a Gianluigi Torzi e Raffaele Mincione.

Espionagem no IOR?

O prelado também reconheceu que havia pedido à gendarmerie do Vaticano para investigar o Instituto de Obras Religiosas (IOR), o “banco privado” do Vaticano. O comportamento do IOR, ele explicou, tinha de fato parecido “anormal”.

Em março de 2019, a Secretaria de Estado havia solicitado um empréstimo de 150 milhões de euros ao IOR para tratar de uma hipoteca onerosa sobre o edifício. Após vários meses de espera, o empréstimo foi finalmente recusado pelo IOR. Ao mesmo tempo, a Secretaria de Estado estava sob pressão para pagar um milhão de euros por mês por causa da hipoteca.

O venezuelano explicou que havia se perguntado se a procrastinação do IOR estava escondendo uma possível ligação entre um de seus membros e Gianluigi Torzi. Em maio, a Secretaria de Estado havia conseguido comprar as ações do corretor Molisan do prédio de Londres após cinco meses de duras negociações – em condições que agora levaram os italianos a serem acusados de extorsão pelo judiciário do Vaticano.

Estas preocupações levaram o prelado a pedir ao comandante da gendarmaria do Vaticano um relatório sobre o comportamento do IOR. “Eu o fiz e se tivesse que fazê-lo novamente, o faria novamente porque sentia que era uma questão de dever”, explicou ele, insistindo que ele estava visando a instituição e não uma pessoa em particular. Seu medo, disse ele, estava ligado a rumores de que Gianluigi Torzi estava “saindo pela porta, mas entrando pela janela”.

Ele negou, no entanto, que havia pedido especificamente uma investigação de Gian Franco Mammì, diretor do IOR, utilizando os serviços de Giovanni Ferruci Oriente, um ex-membro do serviço secreto italiano. Isto foi declarado por seu secretário, Monsenhor Mauro Carlino, que foi acusado, e pelo arquiteto Luciano Capaldo, que foi ouvido como testemunha. Entretanto, Dom Peña Parra reconheceu que monsenhor Carlino havia enviado os números de telefone de Gian Franco Mammì a seu pedido e que ele pensava que as “investigações” de Giovanni Ferrucci Oriente eram mais sobre Gianluigi Torzi do que sobre o IOR.

A ajuda da APSA

O prelado forneceu alguns detalhes sobre a hipoteca do edifício. Depois que o IOR se recusou a conceder o empréstimo de 150 milhões de euros em junho de 2019, ele disse que havia encontrado muito rapidamente outra “instituição”, sem especificar qual, que estava disponível para ajudar a Secretaria de Estado a lidar com a hipoteca. Entretanto, uma solução interna foi favorecida e foi finalmente a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), o “banco central” do Vaticano, que comprou a hipoteca.

“A APSA examinou tudo e no final encontrou uma linha de crédito, que não era uma hipoteca. Passamos de 1 milhão de euros por mês para 800.000 euros por ano”, explicou o prelado. Este último havia mencionado um ano de perdas, ou seja, 12 milhões de euros, por causa desta hipoteca.

O que o bispo Peña Parra sabia sobre Cecilia Marogna

Dom Peña Parra confirmou então o que o Cardeal Becciu havia dito sobre os pagamentos feitos à acusada Cecilia Marogna. Entre o final de 2018 e 2019, quando o Cardeal Becciu não era mais substituto, a Secretaria de Estado pagou 570.000 euros a esta mulher, empregada pelo cardeal sardenho para realizar operações de “diplomacia informal”, incluindo a libertação de uma freira colombiana sequestrada em Mali. O sistema judicial do Vaticano acusa Cecilia Marogna de ter usado o dinheiro para despesas pessoais ostensivas.

Enquanto o bispo Peña diz não saber nada sobre Cecília Marogna – ele diz ter descoberto seu nome na imprensa – ele se perguntava sobre os pagamentos. Ele foi então informado pelo Cardeal Becciu e pelo Papa sobre o propósito dos pagamentos.

Próximas audiências

As próximas audiências ocorrerão nos dias 29, 30 e 31 de março. O testemunho do arquiteto Luciano Capaldo deve ser ouvido, assim como os chamados pela defesa do Cardeal Becciu – em particular seu irmão Antonino – e Gianluigi Torzi.

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