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Direto do Vaticano: Bento XVI lutou até o fim contra os abusos, diz Papa Francisco

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Pope Francis presides over the celebration of the Palm Sunday 2023

Antoine Mekary | ALETEIA

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I. Media - publicado em 03/04/23

Seu Boletim Direto do Vaticano de 3 de abril de 2023
    1. “Bento XVI lutou até a morte contra os abusos”, diz o Papa Francisco à TV argentina
    2. Edifício de Londres: novas acusações contra vários réus
    3. Homilia do Papa Francisco na Missa do Domingo de Ramos

    1“Bento XVI lutou até a morte contra os abusos”, diz o Papa Francisco à TV argentina

    Por Cyprien Viet – “Aquele que fez guerra aos abusos foi Bento XVI”, lembra-nos o Papa Francisco em uma entrevista ao canal de televisão argentino CN5, transmitida na sexta-feira 31 de março, mas gravada no dia 25 de março na residência de Santa Marta, quatro dias antes de sua hospitalização. Em uma longa conversa que durou mais de uma hora com o jornalista Gustavo Sylvestre, o Papa voltou a vários números atuais e evocou as circunstâncias de sua eleição, há mais de dez anos.

    O pontífice argentino explica que o ano de sua eleição deveria ter sido o ano de sua aposentadoria, e que ele havia tomado providências para isso. O Papa Bento XVI lhe havia pedido para ficar “mais dois anos”, após seu 75º aniversário: a mudança de arcebispo em Buenos Aires deveria, portanto, ocorrer em dezembro de 2013, para seu 77º aniversário.

    Uma eleição “inimaginável”

    Ele explicou que havia planejado voltar à Argentina para o Domingo de Ramos, e que havia preparado sua homilia. Sua eleição como Papa foi “inimaginável” para ele. Alguns cardeais o haviam superado nos primeiros turnos, mas quando ele entregou ao Cardeal Jaime Ortega seu discurso de 2,5 minutos nas Congregações Gerais, que havia causado uma forte impressão em seus colegas cardeais, o cardeal respondeu: “Obrigado, será uma bela lembrança do Papa”. Outro cardeal pediu-lhe que preparasse seu “discurso da sacada”.

    O Cardeal Santos Abril y Castello, que ele conhecia bem porque tinha sido Núncio Apostólico na Argentina, perguntou-lhe sobre sua operação pulmonar nos anos 50, e ali ele percebeu que era visto como um Papa em potencial. Ele explica que o nome Francisco veio a ele na época de sua eleição, inspirado pelo Cardeal brasileiro Claudio Hummes, que lhe pediu para não esquecer os pobres, mas ele não havia pensado em um nome para Papa antes.

    Francisco presta uma sincera homenagem ao seu predecessor, que morreu em 31 de dezembro de 2022, explicando que “aquele que fez guerra aos abusos foi Bento XVI”. Já como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, ele lutou até a morte contra isso”, mesmo quando “outros não o entenderam”, explica Francisco. O Papa se deu conta pessoalmente das feridas deixadas pelos abusos do passado quando encontrou uma delegação de vítimas da Inglaterra, entre elas homens idosos abusados por padres décadas antes.

    Como ele já havia explicado em outras entrevistas, o Papa reiterou que o celibato sacerdotal é uma “disciplina temporal”, estabelecida por volta do ano 1000, e “que poderia ser mudada, ou não: não é um dogma”. Mas “esta pergunta não tem nada a ver com abusos”, que ocorrem principalmente nas famílias, lembrou o Papa.

    A nobreza do compromisso político

    O Papa espera que a pandemia tenha levado a humanidade a desenvolver um “um pouco mais de sensibilidade” em relação à fragilidade humana, enquanto “a opção pela destruição” tem sido um pecado frequente desde “a história de Caim e Abel”. “O pecado destrói você”, insiste o Papa, que lembra que “quando um império se sente fraco, precisa de uma guerra para vender armas”. Ele mencionou em particular a preocupação dos ucranianos com os testes de armas iranianas em seu território.

    Preocupado com as tensões políticas em seu país de origem, pediu aos argentinos que respeitassem sua “pátria, que é superior aos partidos e divisões”. “A ação política é nobre, é uma vocação de nobreza”, insiste o Papa Francisco, que observa que a Igreja na Argentina perdeu terreno. Ele observou que existem “bons bispos”, mas que alguns estão muito atrasados. O Papa também expressou sua preocupação com a força dos movimentos de extrema-direita.

    Divórcio e homossexualidade

    Com relação aos divorciados, o Papa confiou em seu predecessor Bento XVI, que havia reconhecido em três discursos (Alto Adige, Piemonte e Roma) que uma grande parte dos casamentos, se não a maioria, são nulos por falta de fé, ou por falta de maturidade humana.

    Os divorciados “fazem parte da Igreja” e precisam ser acompanhados, assim como os homossexuais, insiste Francisco. Como ele fez no avião de volta de sua viagem à África em fevereiro passado, o Papa reiterou sua oposição à criminalização da homossexualidade em cerca de 40 países, convidando as pessoas a considerarem esta realidade como um fato humano. “Temos um Pai que nos ama a todos”, insistiu o Papa Francisco nesta entrevista.

    2Edifício de Londres: novas acusações contra vários réus

    Por Isabella de Carvalho e Camille Dalmas – Durante a 54ª audiência de julgamento do chamado “edifício de Londres”, realizada no Vaticano na quinta-feira 30 de março, o promotor de justiça Alessandro Diddi anunciou que vários réus eram agora acusados de lavagem de dinheiro e corrupção. A audiência foi também a ocasião para ouvir o final do testemunho de Luciano Capaldo, um arquiteto inglês que já havia sido ouvido pelo tribunal em 23 de novembro.

    No final de uma audiência bastante calma, o promotor de justiça Alessandro Diddi disse no último momento que, “com base no que veio à tona durante o julgamento”, ele estava acrescentando aos réus Rafaelle Mincione, Enrico Crasso e Gianluigi Torzi a acusação de corrupção, e a Fabrizio Tirabassi e Enrico Crasso a acusação de lavagem de dinheiro.

    “Este é o resultado tanto da atividade investigativa quanto de dois novos relatórios que o Corpo de Gendarmeria preparou a respeito do caso Aspigam e do caso das moedas”, explicou o promotor.

    O primeiro caso diz respeito a somas de dinheiro aparentemente enviadas por Raffaele Mincione a Enrico Crasso através de uma empresa chamada Aspigam International. O segundo caso diz respeito a elementos sobre a atividade numismática da família de Fabrizio Tirabassi, já mencionada várias vezes neste julgamento.

    Alessandro Diddi também declarou que outras acusações haviam sido “corrigidas”, sem especificar quais delas. Ele então anunciou que iria apresentar um novo caso ao tribunal em relação a estas novas acusações.

    Vigilância de Torzi

    A audiência do dia foi dedicada principalmente à segunda parte do testemunho do arquiteto Luciano Capaldo, que já havia sido recebido na sala multiuso dos Museus do Vaticano em 23 de novembro.

    Em particular, a testemunha admitiu ter monitorado os escritórios de Gianluigi Torzi em Londres, com quem ele havia trabalhado no passado, através de um aplicativo em seu telefone. Ele disse que foi solicitado a fazer isso “em nome do substituto da Secretaria de Estado, Monsenhor Edgar Peña Parra”. Este episódio foi mencionado pelo substituto durante a audiência do dia 17 de março.

    Luciano Capaldo também informou ter participado de uma reunião em fevereiro ou março de 2019 na qual o monsenhor Alberto Perlasca defendia uma ação judicial contra Gianluigi Torzi.

    Próximas audiências

    A próxima audiência está marcada para 19 de abril, com a audição de duas testemunhas do Cardeal Becciu, Mario Curzu, diretor da Cáritas de Ozieri na Sardenha, e Antonino Becciu. O juiz Pignatone insistiu que eles estivessem presentes, pois ambos os homens disseram que não queriam mais testemunhar depois de saber que estavam sob investigação do sistema judiciário italiano a respeito da gestão dos fundos de solidariedade da diocese de Ozieri.

    3Homilia do Papa Francisco na missa do Domingo de Ramos

    CELEBRAÇÃO DO DOMINGO DE RAMOS
    E DA PAIXÃO DO SENHOR

    HOMILIA DO PAPA FRANCISCO

    Praça São Pedro
    Domingo, 2 de abril de 2023


    «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» (Mt 27, 46): é a invocação que a Liturgia nos fez repetir hoje no Salmo Responsorial (cf. Sal 22/21, 2), sendo também – no Evangelho que ouvimos – a única pronunciada na cruz por Jesus. Representam, pois, as palavras que nos conduzem ao coração da paixão de Cristo, ao ponto culminante dos sofrimentos que padeceu para nos salvar. «Porque Me abandonaste?».

    Muitos foram os sofrimentos de Jesus e, sempre que ouvimos a narração da paixão, penetram-nos na alma. Foram sofrimentos do corpo: pensemos nas bofetadas, nas pancadas, na flagelação, na coroa de espinhos, na tortura da cruz. Foram sofrimentos da alma: a traição de Judas, as negações de Pedro, as condenações religiosa e civil, a zombaria dos guardas, os insultos ao pé da cruz, a rejeição de tantos, a falência de tudo, o abandono dos discípulos. E contudo, no meio de todo este sofrimento, restava a Jesus uma certeza: a proximidade do Pai. Mas agora acontece o impensável; antes de morrer, clama: «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» O abandono de Jesus.

    Estamos perante o sofrimento mais dilacerante, que é o sofrimento do espírito: na hora mais trágica, Jesus experimenta o abandono por parte de Deus. Antes disto, nunca chamara o Pai pelo nome genérico de Deus. Para nos fazer sentir a intensidade daquele momento, o Evangelho apresenta a frase também em aramaico; dentre as palavras pronunciadas por Jesus na cruz, esta é a única que nos chega na língua original. O acontecimento real é o abaixamento extremo, ou seja, o abandono de seu Pai, o abandono de Deus. Aquilo que o Senhor chega a sofrer por nosso amor, até temos dificuldade de o entender. Vê o céu fechado, experimenta o viver no seu amargo limite, o naufrágio da existência, o colapso de toda a certeza: grita «o porquê dos porquês». «Tu, ó Deus, porquê?»

    «Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?» Na Bíblia, o verbo «abandonar» é forte; aparece em momentos de dor extrema: em amores fracassados, rejeitados e traídos; em filhos enjeitados e abortados; em situações de repúdio, viuvez e orfandade; em casamentos gorados, em exclusões que privam dos laços sociais, na opressão da injustiça e na solidão da doença. Em suma, nas mais drásticas dilacerações dos vínculos, aplica-se esta palavra: «abandono». Cristo levou tudo isto para a cruz, ao carregar sobre Si o pecado do mundo. E, no auge, Ele – Filho unigénito e predileto – experimentou a situação mais estranha no seu caso: o abandono, a distância de Deus.

    E porque foi tão longe? Por nós; não há outra resposta. Por nós. Irmãos e irmãs, isto hoje não é um espetáculo. Cada um de nós, ouvindo referir o abandono sofrido por Jesus, diga para si mesmo: por mim. Este abandono é o preço que pagou por mim. Fez-Se solidário com cada um de nós até ao ponto extremo, para estar connosco até ao fim. Experimentou o abandono para não nos deixar reféns da desolação e permanecer ao nosso lado para sempre. Fê-lo por mim, por ti, para que, quando eu, tu ou qualquer outro se vir encurralado à parede, perdido num beco sem saída, precipitado no abismo do abandono, sorvido no redemoinho de tantos «porquês» sem resposta, saibamos que há uma esperança: Ele, uma esperança para ti, para mim. Não é o fim, porque Jesus esteve ali e agora está contigo: Ele que sofreu a distância causada pelo abandono para acolher no seu amor todas as nossas distâncias. A fim de que possa cada um de nós dizer: nas minhas quedas (cada um de nós caiu tantas vezes!), na minha desolação, quando me sinto traído ou traí os outros, quando me sinto descartado ou descarto os outros, quando me sinto abandonado ou abandonei os outros, pensemos que Ele foi abandonado, traído, descartado. Nisto encontramo-Lo a Ele. Quando me sinto transviado e perdido, quando não aguento mais, Ele está comigo; nos meus tantos porquês sem resposta, Ele está neles.

    É assim que o Senhor nos salva: a partir de dentro dos nossos «porquês». De lá, descerra a esperança que não desilude. De facto, na cruz, enquanto experimenta o abandono extremo, não Se deixa cair no desespero – este é o limite –, mas reza e entrega-Se: grita o seu «porquê» com as palavras de um Salmo (22/21, 2) e entrega-Se nas mãos do Pai, embora O sinta distante (cf. Lc 23, 46) ou nem O sinta sequer, porque Se encontra abandonado. No abandono, entrega-Se. No abandono, continua a amar os Seus que O deixaram sozinho. No abandono, perdoa aos que O crucificaram (cf. Lc 23, 34). E assim o abismo dos nossos inúmeros males é imerso num amor maior, de tal modo que cada uma das nossas separações se transforma em comunhão.

    Irmãos e irmãs, um amor assim como o de Jesus, que dá tudo por nós, até ao fim, é capaz de transformar os nossos corações de pedra em corações de carne. É um amor de piedade, ternura e compaixão. Este é o estilo de Deus: proximidade, compaixão e ternura. Deus é assim. Cristo, abandonado, impele-nos a procurá-Lo e a amá-Lo nos abandonados. Porque neles, não temos apenas necessitados, mas temo-Lo a Ele, Jesus Abandonado, Aquele que nos salvou descendo até ao fundo da nossa condição humana. Ele está com cada um deles, abandonados até à morte… Penso naquele homem dito «vadio por estrada», alemão, que morreu sob a colunata, sozinho, abandonado. É Jesus para cada um de nós. Muitos precisam da nossa proximidade, tantos abandonados. Também eu preciso que Jesus me acaricie e Se aproxime de mim, e, para isso, vou encontrá-Lo nos abandonados, nas pessoas sozinhas. Ele deseja que cuidemos dos irmãos e irmãs que mais se parecem com Ele, com Ele no ato extremo do sofrimento e da solidão. Hoje, queridos irmãos e irmãs, há tantos «cristos abandonados». Há povos inteiros explorados e deixados à própria sorte; há pobres que vivem nas encruzilhadas das nossas estradas e cujo olhar não temos a coragem de fixar; há migrantes, que já não são rostos, mas números; há reclusos rejeitados, pessoas catalogadas como problema. Mas há também muitos cristos abandonados invisíveis, escondidos, que são descartados de forma «elegante»: crianças nascituras, idosos deixados sozinhos – podem porventura ser o teu pai, a tua mãe, o avô, a avó, abandonados nos lares de terceira idade –, doentes não visitados, pessoas portadoras de deficiência ignoradas, jovens que sentem dentro um grande vazio sem que ninguém escute verdadeiramente o seu grito de dor. E não encontram outra estrada senão o suicídio. Os abandonados de hoje. Os cristos de hoje.

    Jesus abandonado pede-nos para termos olhos e coração para os abandonados. Para nós, discípulos do Abandonado, ninguém pode ser marginalizado, ninguém pode ser deixado a si mesmo; porque – recordemo-lo – as pessoas rejeitadas e excluídas são ícones vivos de Cristo, recordam-nos o seu amor louco, o seu abandono que nos salva de toda a solidão e desolação. Irmãos e irmãs, peçamos hoje esta graça: saber amar Jesus abandonado e saber amar Jesus em cada abandonado, em cada abandonada. Peçamos a graça de saber ver, saber reconhecer o Senhor que continua a clamar neles. Não permitamos que a sua voz se perca no silêncio ensurdecedor da indiferença. Não fomos deixados sozinhos por Deus; cuidemos de quem é deixado só. Então, só então, faremos nossos os desejos e os sentimentos d’Aquele que por nós «Se esvaziou a Si mesmo» (Flp 2, 7).

    Esvaziou-se totalmente por nós.

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