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É preciso cuidar do tempo

Observatory, telescope, stars, spinning

Belish | Shutterstock

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Ana Lydia Sawaya - publicado em 16/04/23

Lembremo-nos, portanto, que cada instante de tempo possui a eternidade e que nós habitamos neste instante eterno porque fomos criados por Deus à sua imagem

É preciso cuidar do tempo! Toda coisa é bela no seu tempo devido, diz o Eclesiastes (Coélet). A vida é hevel, um sopro, afirma o texto hebraico deste livro sapiencial, uma tradução melhor que vaidade das vaidades (Prologo,2) do latim vanitas. Hevel – sopro, exprime algo que é evanescente, que não se pode agarrar, nem muito menos governar. Hevel é uma palavra muito usada na Bíblia. São um sopro (hevel) os filhos de Adão, diz o salmo 62,10. O homem é como um sopro, os seus dias são como sombra que passa, recorda-nos o salmo 144,4. Eu me desfaço, não viverei ainda muito. Deixa-me, porque os meus dias são um sopro, lamenta Jó (7,16).

Coélet usa o termo hevel não no sentido moral ou metafísico, mas com uma acepção muito concreta, como a descrever a percepção, o sentido físico, do tempo que passa muito rápido debaixo do sol. Significa o tempo concreto da vida: tudo passa como um sopro. Por isso, preste atenção!

Realista

Coélet não exprime uma visão pessimista da vida. Os exegetas modernos referem que se trata da constatação que na vida terrena, sob o sol, nada é completo, pleno e nem nos sacia totalmente. Por isso, não se pode colocar no lugar de Deus, não se vê tudo e não se compreende a totalidade da realidade. A condição do ser humano aqui na terra é contingente. Coélet é um homem realista, com o pé no chão, que não tem a pretensão de superar os confins da sua humanidade, mas busca refletir sobre a sua existência terrena (capítulos 1 e 2).

O capítulo 3 nos oferece uma esplêndida explicação sobre o tempo. Inicia com 7 palavras em hebraico que querem significar a totalidade e por isso são o resumo do que Coélet quer dizer. Descobrimos que o tempo ali é outro… Nós conhecemos bem o tempo newtoniano (Δt), pois aprendemos a raciocinar de acordo com o implacável e preciso horário do relógio. O relógio é um modo de dar “espaço” ao tempo. O tempo se torna uma “coisa”, e assim parece tangível. 

Modernidade

A. Heschel em seu livro O Schabat diz que a modernidade privilegiou o espaço em detrimento do tempo, mas ganhando “espaço”, o ser humano diminuiu a si mesmo (Editora Perspectiva, 2018, pg. 9): 

A civilização técnica é a conquista do espaço pelo homem. É um triunfo frequentemente alcançado pelo sacrifício de um ingrediente essencial da existência, isto é, o tempo. Na civilização técnica nós gastamos tempo para ganhar espaço. Intensificar nosso poder no mundo do espaço é o nosso maior objetivo. No entanto, ter mais não significa ser mais. O poder que alcançamos no mundo do espaço termina abruptamente na fronteira do tempo. Mas o tempo é o coração da existência.

Aprofundando essa constatação, afirma logo em seguida (pgs.11-12):

Todos nós ficamos enfeitiçados pelo esplendor do espaço, pela grandeza das coisas do espaço. […] Realidade, para nós, é coisidade, e consiste de substâncias que ocupam espaço; mesmo Deus é concebido pela maioria de nós como uma coisa. O resultado de nossa coisificação é nossa cegueira à toda realidade que deixa de se identificar como uma coisa, como um fato real. Isto é óbvio em nosso entendimento do tempo, o qual sendo desprovido de coisa e de substância, nos parece como se não tivesse realidade.

Diferença

Diz que não se trata de desprezar a importância do espaço, do visível, do material, do tocável, mas de denunciar a hipervalorização do espaço em detrimento do tempo (cf. pg. 13). O espaço é mensurável, está sob nosso controle visual, pode ser abrangido pelo nosso olhar. O tempo não. A única maneira de medi-lo é reduzi-lo ao espaço e ao movimento que nele ocorre. Essa diferença se vê ao compararmos o espaço sagrado (necessário e de grande ajuda) com a experiência do sagrado que uma pessoa faz, que é uma experiência interior que se dá num tempo, em um momento, mas que não ocupa um “espaço”. 

Diferentemente do conceito de eterno retorno de Nietzsche que vê o tempo como um fluxo caótico sem objetivo, na Bíblia a temporalidade é valorizada em sua forma linear, dentro de uma dimensão histórica (cf. Giuseppe Savagnone, Il tempo è superiore allo spazio: indicazioni per la pastorale familiare, Tredimensioni 15, 2018, pgs. 48-57). Uma história que caminha para um cumprimento. Por isso, para o mundo bíblico o tempo não representa a inconsistência do ser e seu dissolver-se em um fluxo perene, mas está impregnado com um anseio de completude. 

Plenitude

Papa Francisco dirá, por isso, que o tempo é superior ao espaço (Evangelii Gaudium, 222-225) e afirma que “dar prioridade ao tempo significa ocupar-se de iniciar processos mais do que possuir espaços” (EG 223). Relembra-nos as palavras do Beato Pedro Fabro: “O tempo é o mensageiro de Deus” (EG 171). Por isso, a plenitude da vida de uma pessoa e do mundo todo só pode ser alcançada através de uma gradualidade e de um respeito aos processos que constroem os povos, e precisam ser vividos pouco a pouco e dentro da dimensão da paciência. “O espaço cristaliza os processos, o tempo, ao contrário, nos projeta para o futuro e nos impulsiona a caminhar com esperança” (Lumen Fidei 57). 

De um modo muito belo, A. Heschel explica que o mundo bíblico é um mundo que privilegia o tempo e visa a sua santificação antes de tudo (pgs. 14-15):

Para Israel, os acontecimentos singulares do tempo histórico foram espiritualmente mais significativos do que os processos repetitivos no ciclo da natureza (para as festividades anuais), muito embora o sustento físico dependesse dessa última. Enquanto as divindades de outros povos estavam associadas aos lugares ou coisas, o Deus de Israel era o Deus dos acontecimentos: o Redentor da escravidão, o Revelador da Torá, manifestando-se a Si Mesmo em acontecimentos da história, mais do que em coisas ou lugares. Assim, a fé no incorpóreo, no inimaginável, nasceu.

Prioridade

Mas voltemos ao capítulo 3 de Coélet: que tempo é esse? Começa-se a perceber a dimensão que perdemos ao desconsiderar a prioridade do tempo, pelo fato que seja no texto hebraico como no grego, há duas palavras para tempo que o qualificam de forma diferente. Há no grego o tempo cronológico (kronos) e o tempo oportuno (kairòs) e que no hebraico são expressos pela palavra zeman e et respectivamente. Se voltarmos outra vez ao texto na língua original, diz Coélet: 

Há um momento (zeman) para tudo e um tempo (oportuno – et) para todo propósito debaixo do sol. Tempo (et) de nascer, e tempo (et) de morrer; tempo (et) de plantar, e tempo (et) de arrancar a planta. Tempo (et) de matar e tempo (et) de curar; tempo (et) de destruir, e tempo (et) de construir […] (cf. Ecl. 3,2-8)

Eternidade

Para cada tempo que se pode medir (zeman) há um tempo (et) adequado, oportuno. São 14 antíteses que englobam todas as circunstâncias às quais somos chamados a aderir e a viver plenamente. Coélet mostra que cada realidade foi feita por Deus com o seu contraste e complementariedade, tudo é dual e tem o seu oposto; esta é a harmonia. No versículo 11 diz: tudo o que ele fez é apropriado ao seu tempo (et). Também colocou no coração do homem o conjunto do tempo (em hebraico olam que significa eternidade, universo), sem que o homem possa atinar com a obra que Deus realiza desde o princípio até o fim.

Não obstante Deus ter feito cada coisa bela e no momento oportuno (pois o instante para Deus é et e não apenas zeman), e embora o coração do ser humano possua essa sombra de eternidade, não conseguimos ter a visão do todo. 

Vivamos, porém, o et com alegria, diz Coélet (v. 12): …não há felicidade para o homem a não ser a de alegrar-se e fazer o bem durante a vida. O Talmud dirá que nos será cobrado por Deus todas as vezes que tivemos oportunidade de gozar de uma boa comida e uma boa bebida e não soubemos gozar delas bem.

Lembremo-nos, portanto, que cada instante de tempo possui a eternidade e que nós habitamos neste instante eterno porque fomos criados por Deus à sua imagem. 

Não sejas o de hoje.
Não suspires por ontens…
Não queiras ser de amanhã.
Faze-te sem limites no tempo.
Vê a tua vida em todas as origens.
Em todas as existências.
Em todas as mortes.
E sabe que serás assim para sempre.
Não queiras marcar a tua passagem.
Ela prossegue:
É a passagem que se continua.
É a tua eternidade…
É a eternidade.
És tu.

(Cecília Meireles, Cânticos, II)

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