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A relação entre gnose e progressismo na Igreja Católica

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Thomas Vitali | Unsplash

Pe. José Eduardo - publicado em 28/04/23

Por mais que escasseiem as vocações ou se esvaziem as Igrejas, urge-lhes progresseguir com a marcha de uma eclesiologia suicida

O grande problema da gnose é com a matéria. O gnóstico não consegue lidar com a dualidade entre corpo e alma de maneira equilibrada e, na hierarquização destes dois princípios, acaba por afirmar o espírito em detrimento da matéria, negativamente estigmatizada.

Quando os gnósticos se infiltraram no cristianismo, projetaram a negativade da matéria para toda a realidade, criando um tipo de superação misticista da matéria pelo espírito. Este se libertaria num processo evolutivo de todas as limitações impostas pelo invólucro material, imposições que se concretizam, além de pelas limitações físicas, também pelas racionais e morais. Assim como o espírito se tornaria livre na superação do corpo, a intuição e a indeterminação ética o libertariam das amarras da razão e da moral.

Transportado do misticismo para a realidade concreta, o gnosticismo se tornou a chave hermenêutica da história: a marcha de libertação da matéria aconteceria no devenir histórico, chegando, assim, pela negação da matéria à negação de todo o resto.

Foi dessa maneira que a teoria de Joaquim de Fiore, na qual adviria uma Era do Espírito – em que não haveria mais sacramentos ou instituições, pela pura negação da matéria, negação assumida desde os fratricelli ou franciscanos espirituais –, deu lugar à noção de “igreja espiritual”, assumida posteriormente pelos reformadores.

Assim como a não concretização da utopia espiritualista dos gnósticos fê-los passar da esperança à ação – de fato, eles cometiam suicídio demográfico pela criminalização do casamento e o suicídio individual pela inanição –, a utopia da “igreja espiritual” transmutou-se de espera em ação: todo o progressismo, no fundo, entende que a diluição da Igreja dará lugar a um futuro muito melhor, mais promissor, a uma Igreja mais espiritual, e isso os implica num necessário engajamento.

Consciente ou inconscientemente, há na psicologia progressista uma devoção pelo aniquilamento eclesiástico: por mais que escasseiem as vocações ou se esvaziem as Igrejas, urge-lhes progresseguir com a marcha de uma eclesiologia suicida. Ela lhes é tão necessária quanto os doze trabalhos de Hércules ou os carmas hindus. Esta é a sua missão.

Como toda gnose, o progressismo não passa de uma pegadinha tão sacana quanto aquela que Ariano Suassuna descreve em “O Auto da Compadecida”, em que João Grilo faz o cangaceiro se matar dizendo que tinha uma gaita benzida pelo Padre Cícero, a qual tinha o poder de trazer os mortos à vida, sendo tal poder jocosamente confirmado pela encenação de Chicó. E, como naquele caso, aqui, no nosso, não haverá revitalização, mas apenas destruição, desespero e morte, dos quais somente Deus e a Compadecida podem nos libertar.

Pe. José Eduardo Oliveira via Facebook

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