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Quando os cristãos viram “bodes expiatórios”

Seminariste

Pascal Deloche / GODONG | Ref:346

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 30/04/23

Num processo de inversão, quem era visto como “bode expiatório” se tornou símbolo da luta por justiça social e quem era associado ao “status quo” dominante passou a ser “bode expiatório” numa nova ordem sociocultural e política

O “cancelamento cultural” ou “perseguição educada”, como chama o Papa Francisco, é grande causa de escândalo para muitos cristãos na atualidade. Ouvimos e lemos continuamente posicionamentos de líderes e influenciadores cristãos denunciando essa realidade. A bem da verdade, temos que reconhecer que sofremos, nas democracias ocidentais, muito menos que os cristãos que são perseguidos e martirizados em outras partes do mundo. Não deixa de ser estranho, contudo, que uma sociedade que foi construída a partir de valores cristãos, agora pareça se voltar contra eles. Muitos tentam reduzir o problema a um efeito da propaganda ideológica. Esse é um dos fatores, mas não podemos aceitar que a força da mentira seja maior do que aquela da verdade. Outros fatores devem estar envolvidos nesse cancelamento cultural do qual os cristãos são vítimas na sociedade atual.

A teoria do “bode expiatório”

René Girard (1923-2015), acadêmico consagrado e católico polêmico, formulou a teoria do “bode expiatório”, que pode, ao menos em parte, explicar o processo de cancelamento cultural dos cristãos no Ocidente atual. Em linhas gerais, Girard propõe que os grupos sociais, para se manterem unidos, a despeito das diferenças e oposições internas entre seus membros, precisam de um “bode expiatório”, uma pessoa ou algumas pessoas, com características diferentes daquelas do grupo social, que são estigmatizadas e excluídas. Cria-se assim uma maioria de iguais, considerados bons e sadios, que devem se manter unidos, em contraposição aos diferentes, considerados maus e corruptos, que devem ser afastados e condenados.

Esses diferentes devem ter características físicas ou culturais que os distinguem dos demais, facilitando sua identificação; e, nos casos mais emblemáticos, terem praticado algum gesto reprovável, que legitime sua condenação. Importante notar que as características distintas podem ser positivas ou negativas, o bode expiatório pode ser considerado assustadoramente feio ou perigosamente bonito, como vemos entre adolescentes vítimas de bullying; e a exclusão pode se basear num dado real, como acontecia com os leprosos no tempo de Jesus, ou ser um preconceito totalmente infundado, como aquele contra os cristãos na Roma Antiga. Não é a culpa dos segregados, mas a necessidade dos segregacionistas que causa a condenação.

Minorias frequentemente se tornam “bodes expiatórios” de uma sociedade. Os migrantes e refugiados vindos dos países pobres frequentemente são apontados como causa do desemprego em nações ricas, apesar de poucas vezes disputarem empregos com a população local – geralmente trabalham em empregos de baixa qualificação que não interessam aos trabalhadores nativos do país. Os judeus foram, de fato, segregados pela sociedade cristã, sob a alegação de terem matado Jesus, mas sabemos que Cristo morreu por toda a humanidade e sua condenação teria sido sancionada por qualquer multidão naquela situação, fosse qual fosse sua etnia.

A inversão de situações

A partir do século XVIII, a modernidade em ascensão precisava criar, no plano cultural, um inimigo que funcionasse como “bode expiatório”, permitindo a unificação das suas mais diversas tendências. O cristianismo, tanto católico quanto protestante, se adequava bem a esse papel. Os cristãos mais devotos e seus pastores eram facilmente identificáveis, tanto na fala quanto nos gestos e roupas. Era fácil associá-los às mazelas das elites dominantes tradicionais, que eram cristãs.

Além disso, não se pode negar que as comunidades católicas, em termos de enfrentamento cultural, fizeram várias opções que se revelaram equivocadas a longo prazo. Iniciativas como a criação de listas de livros de leitura proibida aguçavam a curiosidade, incentivavam uma rebeldia natural na juventude e – talvez o pior – dificultavam a reflexão e o diálogo crítico necessários para acompanhar as mudanças que a sociedade inevitavelmente vinha sofrendo. A doutrina cristã se aliou às correntes morais mais repressivas, ao invés de se dar as razões de seus valores, considerou-se mais fácil simplesmente normatizar o certo e o errado. Os erros internos, como o tratamento desumano em orfanatos católicos (tristemente famosos pelos escândalos recentemente divulgados no Canadá e em outros países) e os recentes casos de pedofilia, não foram adequadamente condenados e resolvidos – permitindo críticas e processos judiciais com efeitos demolidores. Sacerdotes e ordens religiosas comprometidas com causas sociais foram frequentemente cerceadas, como aconteceu com os jesuítas, expulsos do Brasil no século XVIII.

Por outro lado, num período mais recente, minorias que ocupavam o papel de “bodes expiatórios” adquiriram novos discursos, que geraram comportamentos e políticas afirmativas em seu favor. Essa inversão aconteceu pelo fortalecimento da empatia e do discurso em prol dos direitos humanos nas democracias ocidentais. Adquirimos cada vez mais consciência dos sofrimentos e das dores dos pobres, dos excluídos e das vítimas de guerras e opressão; reconhecemos cada vez mais a abrangência dos direitos humanos. As minorias passaram a ser vistas como paradigmas das injustiças cometidas pela nossa sociedade ao longo da história e, portanto, sujeitos preferenciais da solidariedade e das ações de reparação social.

Num processo de inversão, quem era visto como “bode expiatório” se tornou símbolo da luta por justiça social e quem era associado ao “status quo” dominante passou a ser “bode expiatório” numa nova ordem sociocultural e política.

Quem ama vence as barreiras do cancelamento

A tendência de escandalizar-se e protestar contra esse estado de coisas tende apenas a exacerbar o problema. Aumenta-se a polarização na sociedade e a segregação entre os grupos em conflito. Quem está sendo cancelado, tende a se fechar mais em seu próprio grupo, facilitando ainda mais o cancelamento. O discurso interno do grupo cancelado parece fortalecido, pois seus membros convivem cada vem mais com outros que professam as mesmas ideias, mas sua presença e sua representação no conjunto da sociedade vão ficando cada vez menores, exigindo cada vez mais esforço para não ser ainda mais cancelada.

A posição do “bode expiatório” é mantida frequentemente em função de estereótipos baseados no desconhecimento e/ou no conhecimento parcial. Sendo assim, a melhor alternativa para os cristãos que se sentem vítimas do cancelamento cultural é ser a “Igreja em saída”, que se volta às “periferias existenciais” da humanidade. Antes de se preocuparem em defender seus valores, os cristãos têm que se dedicar a se darem a conhecer, naquilo que têm de mais valioso, o amor de Cristo por nós que se revela também em seu amor pelos irmãos que sofrem.

Conhecer antes de julgar, acolher antes de condenar, ser amigo sem ser conivente. A “nova evangelização” se tornou necessária porque os cristãos e o cristianismo não são mais conhecidos, apesar do mundo imaginar que nos conhece bem. Aquele que demonstra claramente seu amor não permanecesse numa situação de exclusão e cancelamento, aquele que insiste em se defender e atacar os demais acaba se isolando e facilmente é cancelado e excluído.

Amar ativamente a nossos irmãos é um mandamento cristão, antes de ser conveniente para o convívio social – mas ainda é o melhor modo de enfrentar o cancelamento cultural mantendo nossa identidade cristã.

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