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Discrição: uma virtude esquecida?

Discrição

GaudiLab / Shutterstock

Marzena Devoud - publicado em 02/05/23

E que tal se manter-se discreto para dar espaço aos outros for uma experiência de alegria e paz interior?

Num mundo movido pelas redes sociais, tudo nos impulsiona ao exibicionismo e à superexposição até das nossas oscilações de humor e dos nossos pensamentos mais secretos, e sempre na velocidade do tempo real. Mesmo assim, neste mesmo mundo, existem pessoas que sabem ser discretas. São pessoas que ainda observam o mundo com discernimento e autocontrole.

Acontece que viver esta virtude da discrição nem sempre é fácil. De fato, quem não quer se destacar na multidão hoje em dia acaba sendo visto como “suspeito”.

“É exatamente isso que eu vivo no meu trabalho”, conta Magali, 33, designer gráfica. Reservada por natureza, ela prefere não chamar a atenção da sua equipe. “Minhas roupas são tradicionais e meu jeito de falar é decididamente discreto. Eu também tenho regras de cortesia. Falar ou interromper a outra pessoa para colocar os holofotes sobre mim e ‘me vender’ me deixa horrorizada! E, sim, muita gente me acha antiquada”, relata Magali à Aleteia.

Aparentemente, não há nada mais ultrapassado que a discrição. Mas que tal se manter-se discreto e reservado e ficar quieto para dar espaço aos outros for uma experiência de alegria e de preciosa paz interior? A discrição e a humildade podem ser traços de caráter que nos surgem naturalmente, ou expressões de fidelidade aos valores da “boa educação” que exigem moderação tanto nas atitudes quanto nas aparências. Mas também pode ser a obra ativa do Espírito Santo.

Para o pe. Raphaël Buyse, a discrição é uma virtude específica que exercemos na nossa relação com os outros e que exprime “o respeito amoroso por cada ser humano, começando pelos mais próximos e pelos mais fracos”. É um “olhar atento, capaz de discernir em detalhe as necessidades profundas, que podem ser muito sutis, daqueles que nos rodeiam. Uma virtude moderadora que dá nuances e equilíbrio à vida e a penetra com uma delicadeza misteriosa”, escreve ele, esboçando o retrato de um grande monge beneditino, o belga Frederic Debuyst (1922-2017).

Debuyst, o fundador do mosteiro de Saint-André de Clerlande, em Ottignies-Louvain-la-Neuve, na Bélgica, era um homem de grande gentileza, modesto, e, para muitos, um mestre na arte da discrição. Era obra do Espírito do Senhor. “A sua vida mostrou, sem grandes discursos, que o seguimento de Cristo nunca deve ser feito com esforços violentos ou sobressaltos exuberantes, mas com muita paciência na vida quotidiana, num ritmo regular de oração e trabalho, na capacidade de suportar as próprias deficiências e as dos outros”, escreve o pe. Raphaël Buyse.

A discrição, então, é o Espírito de sabedoria que nos inspira a passar preferencialmente do “respeito pelos mais dignos” ao “respeito pelos mais fracos”. É o bem que “fala pouco, não se apresenta, não se difunde nas organizações e nas estatísticas”, continua.

Portanto, antes de entrarmos nas redes sociais para compartilhar as nossas “selfies”, buscar “curtidas” e seguidores e participar do exibicionismo generalizado da nossa época, talvez devêssemos nos perguntar se estamos sendo seduzidos pelo narcisismo e pelo orgulho, em vez de praticar um nível saudável de discrição que nos permita focar nos outros. Isto exige sacrifício e verdadeira caridade.

A virtude evangélica da discrição, em suma, é caminho para a conversão do coração e para o renascimento no Espírito, como Jesus revelou a Nicodemos: “Faze isto e viverás”.

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EducaçãoHumildadeVirtudes
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